Ma Petite Princesse - 3a Temporada - XI

Por: Anônimo 04/07/2026 2 leituras
Capa do conto
Sinopse: Semestre letivo chegando ao fim e Nívea, de fato, sente na pele o preço de toda cobrança do último ano e isso afeta um momento especial entre ela e o Eric. Porém, o sentimento de confiança e o apoio recebido faz com que tudo dê certo até o momento das provas bimestrais.

***

Apesar de todo o apoio que eu recebia dos meus pais e do Eric, a angústia dentro de mim me consumia. E tudo parecia piorar quando eu me via diante das várias folhas coloridas e bordadas do meu fichário na minha mesa de estudos, contendo as mais diferentes equações de física.

Eu sempre fui excelente em todas as disciplinas de exatas, as inúmeras notas dez que eu conquistava nas provas tornaram-se rotina e calculava as contas de cabeça com a mesma facilidade em soletrar o alfabeto.

Mas, naquela noite, nada estava dando certo.
Eu não conseguia me concentrar, os números e letras embaralhavam a minha cabeça e com isso, me peguei errando as fórmulas e contas várias vezes. Senti a angústia dentro do meu peito aumentar, meu coração a bater de forma acelerada e um arrepio que começou na espinha espalhou-se por todo o corpo. Comecei a esfregar meus braços rapidamente na tentativa de diminuir aquela sensação que nunca tinha acontecido comigo antes.

''Eu preciso voltar a me concentrar'' - pensava comigo mesma - ''Preciso continuar a fazer estes cálculos e não posso mais errar. Se eu errar, não vou entender e acompanhar o que o professor de física explicar na próxima aula. E se eu continuar errando, vou tirar uma nota ruim na prova. E se eu tirar uma nota ruim, vou ficar abaixo da média geral da turma. E se isso acontecer, meu histórico não ficará impecável. E então não vou fazer uma boa avaliação no BAC. E não fazendo uma boa avaliação, não serei aceita em nenhuma universidade.''

Tudo isso surgiu em forma de uma avalanche de neve dentro da minha cabeça a qual eu não tinha saída para onde correr. Voltei a olhar a folha de exercícios na minha frente, como se fosse algo desconhecido.

Minha garganta fechou, não pude segurar a primeira lágrima que deslizou pelo meu rosto e muito menos as outras que vieram a seguir. Comecei a chorar ao ponto de soluçar, desabando na minha cadeira em total desespero.

- Filha! - ouvi a voz da minha mãe, que ao me ver naquela situação, correu até a mim - O que aconteceu, meu anjo?

Eu não respondi, apenas continuei a chorar.

- Meu amor, calma! Levanta, vem aqui comigo - e pegou na minha mão, me levando até a minha cama, onde nos sentamos - Tenta se acalmar. Conta pra mim. O que houve? - Com toda ternura do mundo que só ela tinha, minha mãe segurou meu rosto e limpou as minhas lágrimas, olhando nos meus olhos.
- Eu comecei a sentir uma angústia diferente de todas que já tinha sentido antes. Coração acelerou, meu corpo arrepiou todo. Era uma sensação muito ruim. - falei em meio ao soluçar das lágrimas. - E comecei a pensar em um monte de coisa ao mesmo tempo se eu não fizesse uma boa prova.
- Você teve uma crise de ansiedade, minha vida. - suas mãos repousaram no meu pescoço e depois uma delas na minha testa - E estou te sentindo um pouco febril. Tenta ficar tranquila - me deu um abraço apertado, acolhedor que realmente me tranquilizou aos poucos - Agora me olha.

Nos encaramos e o lindo par de olhos azuis que eu herdei dela foi um verdadeiro alento.

- Vamos juntas fazer um exercício de respiração - pôs a mão no meu peito - Você vai inspirar lentamente e expirar da mesma forma, tá bom?

Fiz que sim com a cabeça.

- Então vamos. Inspira... Isso... Agora solta devagar... - me orientou e a serenidade da sua voz ajudou e muito - De novo... - inspirei e soltei o ar - Muito bom... Mais uma vez... - repeti o exercício - Isso mesmo...

Enquanto uma das suas mãos estava no meu peito, peguei na sua outra mão e segurei com firmeza. Estranhamente ou por algum milagre, meu coração desacelerou, após repetir o que ela me orientou.

- Como está se sentindo?
- Um pouco melhor... Como fez isso?
- Lembra da vez que eu te contei que pratiquei Yoga durante a minha licença-maternidade?
- Lembro.
- Uma das técnicas da filosofia é a respiração. Infelizmente parei de praticar de forma completa mas a respiração eu mantive comigo durante esses anos todos. Antes de começar o meu dia na clínica, eu sempre faço este exercício. Ajuda bastante.
- E você parou com a Yoga por causa do trabalho?
- Por causa do trabalho, porque queria ficar mais tempo com o meu bebê anjinho... - ela me beliscou de leve na barriga e me arrancou um sorriso, algo inimaginável para aquela situação - Claro que existem os momentos de estresse durante o dia mas com essa técnica que eu uso, consigo resolver tudo de forma mais tranquila.
- Obrigada, mãe. Me ajudou muito - e abracei de volta - Te amo mais que tudo.
- Estarei sempre aqui, minha vida. Sempre. Ainda que ausente, meu amor estará aqui pra você.

Nossa troca de olhares em cumplicidade era o que eu precisava para que todas aquelas sensações ruins fossem dissipadas feito névoa. E um beijo seu no meu rosto foi mais uma demonstração da sua ternura.

- Tive uma ideia.
- Qual?
- Amanhã você não vai à aula!
- O quê? Como assim, mãe? Eu não posso faltar!
- Pode sim. Amanhã é sexta-feira e suas aulas são de Artes, cultura francesa e educação física, não é isso?
- Isso.
- Portanto, não vai ter problema nenhum em faltar.
- Você tem certeza?
- Tenho e assunto encerrado. Você vai ficar quietinha em casa ou se quiser pode ir comigo para a clínica, meu expediente será na filial do campus.
- Prefiro ficar em casa.

''E correr o risco de dar de cara com o Eric ou a Luciana por lá? Nunca!''

- Que seja. E pelo tempo dessa nossa conversa, a comida já deve ter esfriado, vamos ter que esquentar de novo para jantar.
- Não tô sentindo fome, mãe.
- Ah, mas vai comer sim, nem que seja um pouco. E desta vez, não tem a desculpa da ressaca de domingo.

Sentados os três à mesa, meu pai me observava com um olhar sério e pensativo pois não gostou nem um pouco da ideia que a minha mãe teve, mesmo após conversarmos sobre a crise de ansiedade que tive no quarto.

- Será apenas um dia, meu amor - ela o tranquilizou apoiando sua mão por cima da mão dele - A Nívea precisa de um tempo longe de toda essa pressão que está sentindo no último ano.
- Eu entendo, mas não sei se faltar aula é uma solução.
- Se isso te chateia, papa, eu não falto.
- Filha, está tudo bem. - e virou-se para o meu pai - Jacques, a Nívea a vida inteira foi um exemplo de dedicação e disciplina quando o assunto são os estudos. Um dia em que ela faltar, não será o fim do mundo.
- Está certo - ele enfim, se conformou - Amanhã irei ao Saint Vincent conversar com a Jacqueline.
- E você, minha linda, não vai chegar perto dos seus cadernos e materiais da escola, combinado?
- Combinado.
- Perfeito. - e sorriu, piscando pra mim enquanto deu uma garfada na beterraba ralada, levando-a à boca.

***

Acordei na manhã seguinte com o abraço que eu tanto amava da minha mãe, em forma de conchinha, na minha cama junto do seu leve e delicioso perfume.

- Bom dia, meu anjo - senti seus beijos apertados na minha bochecha, que me fizeram sorrir - Já estou indo trabalhar. Dormiu bem?

Me virei para ela, me espreguiçando e bocejando após uma noite tranquila de sono.

- Dormi sim. - a encarei, observando a leve maquiagem no seu rosto - sem o despertador do celular é ótimo.
- Que bom. E está melhor?
- Estou.
- Tem certeza?
- Tenho.
- Deixei a mesa do café da manhã ainda pronta pra você. Mas o pão de queijo você vai ter que fazer na hora.
- Tá bom - e rimos - O papai já saiu?
- Já sim. Pela hora, ele e a Jacqueline já devem ter conversado.
- Ele ficou chateado sobre eu ter faltado à aula hoje...
- Não se preocupa com isso, vai ficar tudo bem. Agora eu preciso ir, tá bom? Nem vou pedir para que se comporte pois eu sei que vai.
- Se eu sair pra algum lugar, te envio uma mensagem.
- E se mudar de ideia, querendo passar o dia comigo na clínica ou apenas almoçarmos juntas estarei lá o dia todo.
- Tá legal.
- Te amo, meu anjo - e me beijou no rosto, saindo da minha cama e deixando o meu quarto.
- Também te amo, mãe. - antes de passar pela porta, me jogou outro beijo.
- Mãe, espera! - saí da cama em um salto e fui até ela.
- O que foi?
- Queria te pedir para não contar pra ninguém o que aconteceu comigo ontem.
- Claro que não, minha vida. Fica despreocupada.
- Obrigada.

Dois mistos quentes, pães de queijo, meu iogurte favorito sabor coco e uma maçã foram o que eu comi no meu café da manhã. E depois disso eu fiquei sem saber o que fazer. A razão é que eu não me lembro de nunca ter faltado à aula na minha vida e quando chegava o último dia antes das férias, eu não ficava em casa por menos de quarenta e oito horas pois era tudo muito corrido. Quando eu percebia, já estava na sala de embarque rumo à França. Era assim desde o meu sexto ano.

Terminei de arrumar a mesa do café, lavando e guardando toda a louça e fui para o quarto. Olhei a minha mesa e as folhas de exercícios da noite anterior ainda estavam ali, como se estivessem esperando por mim para serem resolvidos. Respirei fundo e juntei todas elas, colocando-as de volta no meu fichário.

- Fórmulas nojentas, só volto a enfrentar vocês no domingo.

E guardei tudo como uma forma de amenizar a não pensar mais naquilo. Abri meu laptop e ao visualizar a área de trabalho, vi o meu arquivo de Word salvo com o nome de "roteirodeviagem" no canto superior da tela. Cliquei no documento e em poucos segundos o arquivo abriu.

Sete dias em Paris

Dia 01: Segunda-feira
Torre Eiffel (subida), Trocadéro, Arc de Triomphe, Passeio na Champs-Élysées.

Dia 02: Terça-feira
Musée d'Orsay, Opéra Garnier (visita interior), Compras/Vista nas Galeries Lafayette

Dia 03: Quarta-feira
Museu do Louvre, Jardim das Tulherias, Place de la Concorde.

Dia 04: Quinta-feira
Île de la Cité (Sainte-Chapelle e exterior de Notre-Dame), Quartier Latin (Panthéon). Fim do dia: Montmartre e Sacré-Cœur (pôr do sol).

Dia 05: Sexta-feira
Palácio de Versalhes (Palácio e Jardins).

Dia 06: Sábado
Manhã: Musée Rodin, Centre Pompidou.
Tarde: Explorar o bairro de Le Marais (Place des Vosges, Rue des Rosiers).

Dia 7: Domingo
Mercado de Rua ( Marché Bastille ou Marché aux Puces de Saint-Ouen), Jardim de Luxemburgo ou Les Invalides.
Noite: Cruzeiro no Rio Sena

Uma semana na capital francesa não seria o suficiente, por isso montei o roteiro encaixando apenas os principais pontos turísticos. O importante para a Melissa seria, com toda certeza, um roteiro gastronômico e em cada dia iríamos comer em um local diferente.

Após revisar e encaixar uma lanchonete e restaurante, fechei o laptop e fui tomar um banho. Era uma sensação diferente ter este dia em modo "desligada", fazer tudo de forma desacelerada mas ao mesmo tempo era bom.
Um vestido leve com alças finas foi o que eu escolhi para passar o dia e chegando na sala, decidi passar aquela manhã maratonando filmes no streaming, pois fazer isso com séries não combinava com a minha rotina. Elas eram contínuas, possuíam temporadas e não adiantava muita coisa começar a acompanhar uma vez que eu não teria tempo para ver os episódios.

Fiquei tão imersa que não vi a hora passar. Senti meu estômago roncar e, ao pausar o terceiro filme daquela maratona para buscar meu celular que ficou no quarto, já eram quase meio dia e meia. No entanto, o que chamou a minha atenção na tela foram duas chamadas perdidas do Frederik de alguns minutos atrás.

Cliquei no WhatsApp e chamei o contato dele por vídeo. Imediatamente ele me retornou, aceitando a chamada.

- Oi, Nívea! - seu rosto apareceu na tela e pude perceber que ele estava em um local ao ar livre, com certeza no pátio do colégio.
- Oi.
- Seu pai veio hoje aqui na sala, um pouco antes da primeira aula começar e conversou comigo, o Patrick e a Gabi. Você tá bem?
- Tô sim, obrigada. Ele foi conversar com a Dona Jacqueline e explicar pra ela a minha falta.
- Muito triste o que aconteceu com você...
- Sim, e por isso minha mãe achou melhor eu faltar ao colégio. Mas só por hoje também.
- Entendi. Mas você tá melhor mesmo?
- Estou. Só vou voltar a estudar física no fim de tarde no domingo.
- É uma boa. Nívea...
- O que foi?
- É que eu pensei em uma coisa.
- Em quê?
- Que tal se nós quatro estudássemos física aqui em casa na tarde de domingo? Assim a gente tenta te ajudar.

Fiquei parada olhando para a imagem dele na tela, pensando se poderia ser uma boa.

- Não sei... Teria que ser depois do almoço, pra tudo o que a gente estudar render bem.
- Vem pra cá e almoça com a gente, você sabe muito bem que já é de casa. Depois começamos a estudar.
- Eu posso te dar uma resposta no domingo pela manhã?
- Pode sim.
- Eu só não quero ficar pensando muito nisso.
- Sim, de boa. No domingo você me responde.
- Tá bom. Obrigada por ter me ligado.
- É, eu fiquei preocupado. Não me lembro de você ter faltado nenhuma vez.
- Sim - dei um sorriso - Espero que não aconteça de novo.
- Se cuida, tá bom?
- Tá, eu vou almoçar agora. E dá um beijo na Gabi e no Patrick por mim.
- Dou sim. Um beijo.
- Outro.

E encerramos a vídeo chamada.

A amizade do Frederik era um presente, ainda que ele sonhasse em ter algo mais intenso comigo. Era gentil, compreensivo e sempre disposto a fazer o que pudesse por mim. Não precisava pensar muito para saber que era amor.

Suspirei enquanto mantinha o meu olhar na tela do celular e voltei à realidade ao ouvir meu estômago roncar de fome. Enviei uma mensagem para a minha mãe dizendo que estava bem e iria almoçar fora apenas para deixá-la despreocupada. Fiz uma rápida pesquisa sobre restaurantes no bairro e achei um que ficava há alguns minutos de casa. Era chato sair pra comer sozinha mas se eu convidasse a Melissa, ela iria me bombardear de perguntas sobre os motivos que me fizeram faltar à aula e eu não queria conversar sobre o assunto. Não que ela não merecesse saber, afinal éramos melhores amigas. Mas eu precisava daquele momento só para mim.

E ainda tinha o Eric. Contar para ele ou não?

O meu dia em que eu desacelerei passou de forma tranquila. Consegui descansar e não pensar nas coisas que me preocupavam. Seria perfeito se toda a pressão do ano letivo acabasse em um estalar de dedos mas não podia desejar tudo.

Meus pais e eu estávamos na sala, o som da TV estava baixo, sintonizado no noticiário da noite em que os pais do meus amigos apresentavam as principais notícias do dia. Não prestei muita atenção no que era falado pois a conversa em família era o foco.

- Pense com carinho no convite do Frederik, mon chère. É um gesto muito bonito te ajudar a estudar.
- Eu sei, mas...
- Além disso, que outro garoto da idade dele está disposto a fazer isso em pleno domingo? - ele questionou.

Se acontecesse de eu anunciar o meu namoro com o Frederik, jamais conseguiria imaginar o tamanho da felicidade do meu pai diante de tal notícia.

- Olha filha, às vezes esse tipo de ajuda é importante e por mais que você seja uma garota inteligente. - minha mãe ponderou - Nem sempre é possível dar conta disso tudo sozinha.
- Sua mãe tem razão. Nós iríamos sair pra comemorar o dia dos namorados mas podemos desmarcar e ficar com você.
- Não! Por favor, não façam isso! Eu combinei com a Meli de irmos pra Ipanema amanhã mais cedo para passearmos pelo bairro.

Na verdade nós duas combinamos de sair para eu comprar um vestido novo e usá-lo na noite que o Eric estava preparando.

- Tem algum problema se eu ficar lá?
- Não meu amor, claro que não. Vai ser bom para você.
- Obrigada.
- Mas pense no Frederik - meu pai sutilmente insistiu.
- Vou dar a resposta a ele no domingo de manhã.

Ele sorriu de forma fechada mas percebi que não era a resposta esperada da minha parte.

***

Era início de noite em Ipanema.

O vestido que eu usava era rosa bebê, curto acima do joelho e a saia em forma de A estilo evasê, ajustado no corpo que realçava a minha cintura. O decote era quadrado que valorizava o meu colo com mangas curtas e discretas. Quando o vi na vitrine, me apaixonei. No instante que experimentei, era como se ele tivesse sido feito para mim.

No entanto, naquele momento de espera, era como se ele estivesse me sufocando, mesmo eu tendo a certeza de que não se tratava do vestido.

- Ní, tá tudo bem? - Melissa perguntou tendo em mãos uma lata de batata pringles vermelha sabor natural - Tô te achando nervosa...
- Eu? Impressão sua - dei um meio sorriso.
- Não é como se fosse a primeira vez, Nívea - Felipe analisou enquanto assistia alguma coisa na televisão.
- Só estou um pouquinho ansiosa sobre o que o Eric preparou pra hoje.
- Tem certeza de que é só isso?
- Tenho! - respondi rapidamente.
- Eu não quis comentar nada mas quando a gente estava passeando, achei você um pouco longe, tipo distraída sabe?
- Sim, é essa coisa de expectativa.
- Se você diz...

Neste instante, vimos o celular do Felipe vibrar na pequena mesa de centro da sala. Ao olhar a tela, imediatamente ele atendeu.

- Alô! Tá bom... Eu falo com ela... - e desligou colocando o aparelho de volta à mesa - O Eric chegou, disse que não vai subir e está te esperando lá embaixo.
- Entendi - peguei a minha mochila que estava em um dos sofás, coloquei nos ombros e me despedi dos meus amigos.
- Depois me conta tudo! - Melissa pediu animada.

Eu precisava disfarçar ao máximo a angústia que estava em forma de bolo na minha garganta, mas infelizmente o exercício de respiração não funcionaria muito no curto espaço de tempo que durava enquanto eu descia o elevador.

E não foi necessário.

Ao sair do hall do prédio em direção à portaria, Eric estava ali mais lindo do que nunca, me deixando hipnotizada como sempre acontecia. Usando blusa e calça social ambas na cor preta e o seu perfume amadeirado perfeito para homens que sabiam como chamar a atenção. Tipicamente ele. Seus lindos olhos azuis eram apenas para mim e o meu coração batia acelerado só para ele.

- Você não cansa de ficar cada dia mais linda? - disse no instante em que eu me aproximei.

Trocamos um beijo apertado e na mesma hora, sempre atencioso, ele tirou as alças da mochila dos meus ombros, abrindo a porta traseira do carro e colocando no assento.

Suas mãos voltaram a acariciar o meu rosto e um outro beijo aconteceu iniciando a nossa noite especial.

***

Com os olhos fechados a pedido dele, ouvi o ruído da porta sendo aberta e ele me conduziu para dentro com uma de suas mãos.

- Vem - tirou novamente a mochila das minhas costas - E não abra os olhos até eu falar que pode.
- Tá bom - mordi de leve o lábio inferior, fui conduzida mais alguns passos e senti que não estávamos mais no pequeno corredor que levava até o cômodo.

Suas mãos envolveram os meus braços por cima e senti um beijo seu no topo da minha cabeça.

- Pode abrir.

Era como uma cena de cinema...

A luz estava apagada e havia velas aromáticas acesas em ambos os lados da cama. O lençol branco coberto por inúmeras pétalas de rosas vermelhas me deixou em choque formando uma letra o nos meus lábios.

O confortável divã verde escuro estava encostado na parede ao lado da varanda dando lugar a uma mesa redonda de jantar pronta para dois. A toalha de mesa era na cor vermelha que combinava perfeitamente com os pratos de cor branca junto de um castiçal e uma vela, em formato espiral e longo da mesma cor. No centro dela havia um espaço vazio que com certeza seria ocupado para o que ele havia preparado para nós dois.

- Eric... Eu...
- Não precisa dizer nada - suas mãos continuavam a deslizar de leve pelos meus braços - Vamos apenas aproveitar cada minuto da nossa noite.

Estava tudo perfeito. Fui tomada pelo sentimento de emoção pois ele havia pensado em cada detalhe. No entanto, a lembrança do que havia acontecido comigo naquela semana me tomou os pensamentos e a angústia insuportável me fez sentir sufocada.

''Ele não pode ficar sem saber o que aconteceu...'' foi o que eu pensei diante de todo aquele momento em que ele havia preparado.

O bolo na minha garganta se converteu em lágrimas as quais eu não consegui controlar e o choro foi tão intenso da mesma forma que aconteceu com a minha mãe.

- Nívea! – Eric imediatamente me virou de frente pra ele e fez com que eu olhasse nos seus olhos – O que foi? – suas mãos seguraram o meu rosto e seu olhar estava aflito.

Não consegui fazer mais nada além de abraçá-lo e continuar chorando.

- Tudo o que eu preparei ficou tão ruim assim? – senti seus braços correspondendo ao meu abraço e uma de suas mãos alisar o meu cabelo.
- Não é isso! – respondi em meio às lágrimas – Está tudo perfeito.
- Então, o que houve? – Ele continuava a me abraçar com firmeza.

Me afastei para encará-lo novamente sentindo o meu rosto úmido e suas mãos secando minhas lágrimas. Seus lindos olhos azuis e sua expressão preocupada esperavam por uma explicação.

- Ontem eu faltei à aula.
- Como assim, faltou?
- Por favor, não briga comigo!
- Eu não vou brigar. Mas o que foi que aconteceu? Por que você faltou?

Abaixei o olhar e o peguei pela mão, levando junto comigo até o divã. Nos sentamos um ao lado do outro e respirei fundo. Sua mão acariciou o meu rosto na tentativa de continuar secando algumas lágrimas.

- Me conta, Nívea.

Contei exatamente tudo, desde o momento em que estava estudando até aquele instante. Eric me ouvia atentamente com nossas mãos entrelaçadas. Não me interrompeu, não questionou. Nada. Estava ali ao meu lado. Quieto, me permitindo desabafar.

- E foi isso... – terminei de falar tudo o que me angustiava.
- Está melhor?
- Agora que você já sabe de tudo, sim.
- Que bom. – E aproximou-se de mim, com as mãos na minha cintura e me fez sentar no seu colo, me pegando calmamente pelo queixo e me encarando - Quero que você não fique mais assim e saiba de uma coisa: vai dar tudo certo!
- Mas Eric, e se eu tirar uma nota abaixo da média?
- Se isso acontecer, infelizmente será algo muito triste, meu amor. Mas o seu histórico é impecável, não vai afetar em nada na sua aprovação.

Fiquei calada, pensativa, após ouvir aquelas palavras de apoio.

- Você é inteligente, a minha aluna mais inteligente das três turmas do Saint Vincent. Corrigir as suas provas é uma terapia pra mim pois eu sei que não vou me decepcionar com o resultado.

Dei um meio sorriso e senti o seu beijo na minha bochecha.

- Além disso, o amor da sua vida – falou com sarcasmo – disse que quer te ajudar, não disse?
- Também não precisa debochar!
- Não estou debochando.
- Está sim!
- É, eu estou – e rimos juntos, no que eu senti meu nariz entupido por causa do choro.
- Você vai achar ruim se eu for estudar com o Frederik amanhã?
- Não.
- Tem certeza? Fala a verdade, Eric! – exigi.
- Ele quer te ajudar, é isso que importa.
- Você não me respondeu!
- Eu vou achar ruim, mas não vou te proibir.
- Então, eu não vou!
- Vai sim, agora eu faço questão que você vá! O que está em jogo aqui nesta conversa é a nossa confiança e eu confio você.
- Eu sei. - e nos beijamos sem a mínima pressa, como se tudo o que eu precisasse era da mais quente prova de amor entre duas pessoas apaixonadas.

Acariciei meu rosto junto ao dele igual uma gata manhosa sentindo aquela barba que eu tanto amava. Estava mais curta do que de costume. Mesmo assim, era perfeita. Trocamos pequenos beijos e sua boca deslizou pelo meu rosto e pescoço no que meus olhos voltaram-se para a mesa de jantar cuidadosamente preparada.

- Eu estraguei tudo, não foi? Toda a nossa noite.
- Não – ele cheirava o meu pescoço para sentir o meu suave perfume de frutas vermelhas – A noite só está começando.

Eric me tirou do seu colo, levantou-se e me pegou pela mão, em direção à mesa.

- Por favor, mademoiselle - afastou uma das cadeiras para que eu me sentasse e ficasse à vontade.
- Tenho que confessar que este romantismo todo não combina com você.
- Exato. Por isso, eu repito: precisamos aproveitar cada momento desta noite. Já volto. - e saiu em direção à cozinha.

Cada prato era acompanhado por uma taça de vinho. Os talheres e os macios guardanapos brancos estavam posicionados de uma forma não tão correta como eu conhecia mas pude perceber o quanto o Eric se esforçou.
Ouvi um pequeno ruído vindo da cozinha que parecia ser de um pequeno sino de balcão. Minutos depois, ele voltou com um cloche de prata, colocando-o no centro da mesa.

- Voilà ! Espero que goste.

E, ao abrir, veio a surpresa. Fumegante, o aroma estava delicioso e com ótima aparência. Todas devidamente colocadas na travessa de cerâmica vermelha, cobertas com molho de tomate e queijo.

- Panquecas? - ainda sentindo os meus olhos e o rosto inchados, não consegui segurar uma pequena risada.
- Sim, são de carne e eu preparei tudo, viu? Desde a massa até o molho para jogar por cima. – ele me respondeu, observando a mesa com atenção - Espera, esqueci de uma coisa - Voltou até a cozinha, abriu a geladeira, trouxe uma garrafa de suco de uva, servindo as duas taças e refez o caminho, guardando-a na geladeira - Agora sim, não falta mais nada.

Ainda de pé, pegou na minha mão, dando um beijo no dorso.

- Está tudo perfeito, Eric.
- Foi a única coisa que eu pensei. Avisei que não seria nada sofisticado. Culinária francesa é o meu ponto fraco a respeito dos anos que vivi em Paris e quando descobri um restaurante brasileiro, sempre que podia eu comia por lá. Agora, me deixa te servir.

Cuidadosamente com uma colher um pouco maior, ele retirou uma panqueca da travessa, cujo queijo derretido esticava mais, conforme se aproximava do meu prato.

- Agora prova. – pediu após sentar-se de frente pra mim.

Peguei os talheres e cortei o primeiro pedaço observando o molho e o quanto ela estava com uma ótima aparência. Após assoprar um bocado, dei a primeira garfada.

- E aí? – ele quis saber – Ficou boa?
- Hum... – mastiguei com prazer cada pedacinho daquela massa fina tão macia – Eric... Isso tá delicioso! – respondi, com a mão cobrindo levemente a boca.
- Que bom – ele relaxou na cadeira – Fiquei com medo de errar em algum ponto do tempero da carne.
- Nossa, eu amei – cortei o segundo pedaço, querendo mais – Então morar sozinho te fez ficar bom na cozinha?
- É – ele sorriu de lado – Você tem um ponto. Tive que me virar com isso. Quando me fixei aqui no Rio e durante o recesso na universidade, além de colocar algumas leituras em dia, eu me aventurava na cozinha. Mas quando eu era adolescente, já sabia fazer arroz.
- Pelo menos é o básico.
- Exato – e, em seguida, ele serviu-se com uma panqueca.
- Quando ficarmos juntos pra valer, assumirmos o nosso namoro, eu vou cozinhar pra você!

Ele parou de cortar sua fatia e me observou pensativo, como se não esperasse ouvir o que eu havia dito.

- O que foi? Eu também sei cozinhar o básico. Aprendi e sempre aprendo algumas coisas com a minha avó durante as férias de fim de ano.
- Eu sei... Eu não duvido.

***
(Eric)

Tudo aconteceu de forma muito tranquila durante o jantar que eu preparei para nós dois. Conversávamos e ríamos entre uma garfada na panqueca e acabamos por comer todas elas. E no momento da sobremesa, onde eu comprei duas fatias de torta de chocolate, a mesma coisa: éramos um casal em um momento especial.

Mas eu percebi que a Nívea não estava totalmente ali. Seus lindos olhos não mostravam todo o brilho de algo que a deixaria emocionada.

- Eu te ajudo a levar os pratos para a cozinha – ela sugeriu após terminarmos.
- Não precisa. Eu levo e amanhã eu limpo tudo.
- Tá bom. Vou ficar na varanda – e levantou-se calmamente indo até lá.

Ela precisava ficar um pouco sozinha e eu respeitei.

Retirei tudo da mesa, levando para a pia da cozinha e ao terminar, fui até onde ela estava, me aproximei por trás e envolvi a sua cintura sentindo novamente aquele perfume que me deixava louco de prazer. Prazer que não demorou nada em me deixar com a minha calça social apertada ao encostar na perfeição que era o seu corpo.

- Vem comigo pra cama? – sussurrei na ponta do seu ouvido - Quero esse seu corpinho lindo somente coberto por aquelas pétalas.
- Vamos – ela fez um leve carinho no meu antebraço.

Fechei a varanda e o ambiente ficou iluminado apenas pelas luzes das velas.

E por conhecê-la em detalhes, aquele corpo não estava entregue como normalmente está em cada toque ou beijo da minha parte. Senti a tensão quando, de mãos dadas, a trouxe para dentro e a levei para ao lado da nossa cama. Nívea sorria de forma carinhosa porém fechada. Tentava demonstrar que estava bem quando no fundo, eu sabia que não estava.

Toquei em seu rosto com as duas mãos, hipnotizado pela sua beleza e mergulhei minha boca na sua de forma feroz e faminta. Eu precisava de cada centímetro daqueles lábios vermelhos, doces e macios, trazer o seu corpo para o mais perto do meu e esquecer qualquer coisa ao meu redor. Minhas mãos a exploravam me deixando ansioso, implorando por querer senti-la dentro de mim.

Era um beijo selvagem e desesperado que esmagavam os nossos lábios a ponto de ficarem dormentes, que me deixava cada vez mais desesperado por ela. Suas mãos pequenas apertavam os meus ombros por cima da minha blusa social e senti seu corpo tentando se afastar do meu.

- Eric... – ouvi meu nome em meios aos seus gemidos.

Respirei fundo, ainda com nossas bocas coladas e o balde de água fria caindo na minha cabeça. Eu ofegava, com as mãos no seu pescoço não querendo me afastar e sim ir além daquele beijo que me deixou a ponto de explodir no meio das pernas.

- O que foi? – comecei a lhe dar inúmeros selinhos na tentativa de não perder a minha conexão com ela naquele momento.

No entanto, eu a perdi quando a Nívea se afastou de leve. Sua boca completamente inchada, resultado do nosso beijo, e seus olhos aflitos, tensos. As mãos macias que só ela possuía acariciavam novamente o meu rosto. Os lábios se comprimiam um contra o outro como se estivesse procurando as palavras certas para dizer algo que eu já sabia o que era.

- É que eu... – ela respirava fundo.
- Você... – lhe dei mais um beijo apertado.
- Eu... – a respiração dela acelerou - Eu não queria hoje – e afastou-se em definitivo, virando de costas para mim e voltando a chorar.

Precisei também respirar fundo por mais uma vez. O som daquele choro foi o suficiente para cada célula do meu corpo esfriar em definitivo.

- Tá bom... – apenas assenti não desviando o meu olhar dela.

Aquele ano não estava sendo fácil para a Nívea, essa era a verdade. Era nítido o quanto ela estava fragilizada emocionalmente por conta de toda pressão que vivia em seu ano letivo e essa fragilidade atingiu a nós dois. Enfiei o sentimento de frustração daquela noite perdida no canto mais remoto da minha mente e dar todo acolhimento que ela precisava.

Acolhimento e principalmente, amor.

- Me desculpa... – ela pedia em meio aos soluços do choro.
- Tá tudo bem, meu amor... – me aproximei dela novamente e fiz ficar de frente pra mim, dando à ela o mais compreensivo dos abraços junto de vários beijos no topo da sua cabeça.
- Não está, não! – ela continuava a chorar – Eu te disse que tinha estragado a nossa noite.

Continuei abraçando o seu corpo, sentindo o doce perfume dos seus cabelos e permitindo que ela chorasse tudo o precisava chorar, o que durou alguns minutos.

Peguei na sua mão e a fiz deitar na cama. Em silêncio, retirei os seus sapatos e fiz uma leve massagem em cada um dos seus pés tão pequenos. Nívea aos poucos conseguiu se acalmar, me aproximei dela para limpar suas lágrimas e admirar mais sua beleza ainda que estivesse tomada pela tristeza. Ajeitei os travesseiros atrás dela e a afastei um pouco deles para que eu fosse o seu melhor conforto.

- Deita aqui comigo do jeito que você gosta – pedi, me deitando e a abraçando calorosamente, pousando sua cabeça no meu peitoral, dando um beijo nos seus cabelos. Lembrei de tirar os sapatos e o fiz isso com a ajuda de um pé e depois do outro, jogando ambos para longe da cama.

E fiquei ali. Sentindo toda aquela fragilidade nos meus braços. Sem dizer uma única palavra. Acariciando a linha da sua coluna e lhe dando mais uma sequência de beijos naqueles fios tão macios e perfumados.

- A gente vai ficar assim a noite toda? – por fim, ela perguntou voltando a me encarar.
- Se você quiser, eu fico – limpei um fio de lágrima que corria pelo seu rosto, perto da bochecha avermelhada.
- Eu sinto muito, Eric... – ela engoliu em seco, tentando não chorar mais – Você preparou tudo com tanto carinho pra não acontecer nada...
- Quem disse que não aconteceu?
- Você sabe o que eu quero dizer!
- Não, eu não sei – eu sabia que estava sendo cínico – Você veio para cá, eu preparei um jantar para nós dois, você experimentou a panqueca de carne mais deliciosa do mundo, – ela riu de lado – Nós comemos torta de chocolate. Conversamos, rimos, eu provei o sabor destes lábios perfeitos e agora estamos aqui, deitados e juntinhos em meio à todas estas pétalas de rosas.

Seu olhar abaixou, ela deitou a cabeça no meu peitoral, ficando em silêncio.

- Nívea, o sexo não é o único combustível de um relacionamento.
- Nem você acredita no que acabou de falar, Eric! – disparou sem me olhar de volta e não segurei uma leve risada.

No meu caso, tive que concordar em pensamento. Mas não era o que importava naquela situação e ela precisava sentir-se tranquila e acolhida nos meus braços.

- Eu falo sério. – fechei o meu tom de voz – Estou te demonstrando isso agora. Se é para ficarmos juntos aqui abraçados pelo resto da noite, nós vamos ficar e você não precisa se preocupar.

Apertei mais o meu abraço e Nívea se aninhou no meu peitoral. De tão pequena que ela era, o encaixe foi perfeito.

- Eric... – seus olhos encontraram os meus e deslizei o meu dedo indicador pelos seus lábios.
- O que foi?

A imensidão azul daqueles olhos me deixava desconcertado e me deixaria para sempre.

- Je t’aime.
- Je t’aime aussi, ma petite.
- Você promete nunca duvidar do que eu sinto?
- Prometo.

Trocamos um longo e apertado beijo, até ela finalmente deitar-se e deixar sua pequena mão no meu rosto e acariciando a minha barba. Foram alguns minutos para que eu pudesse sentir o carinho cessar, sua respiração pesar e perceber que ela finalmente havia dormido.

Situações iguais à desta noite poderiam acontecer com mais frequência enquanto o ano não terminasse para ela. E não era apenas o ano em questão. Se o que eu estava planejando fosse alcançado, eu teria que estar ali pronto para acolhê-la em todos os instantes que o seu emocional fosse atingido.

Eu seria o porto seguro em sua vida.

***

Acordei na manhã seguinte, ainda usando as roupas sociais da noite anterior. Sabia que havia dormido o suficiente e passado do horário habitual em que eu costumo acordar todos os dias às cinco da manhã. A sensação de bem estar por ter dormido uma noite inteira sem o despertador.

E quase de forma instantânea, me senti invadido por um doce perfume o que me arrancou um leve sorriso. Olhei para o lado e, além da porta da varanda ainda fechada, vi a minha pequena também dormindo tranquilamente.

Porém, algo nela havia chamado a minha atenção.

Nívea não usava o seu lindo vestido da noite anterior e sim uma leve camisola de cetim de cor branca. Os cabelos úmidos como se estivessem recém saídos de um banho. E não era uma suposição e sim um fato.

''Ela acordou, tomou um banho e não me chamou?'', pensei. Meu sono sempre foi pesado eu sabia disso, mas eu teria percebido alguma movimentação ao meu redor. Com certeza, ela fez tudo sem causar nenhum barulho.

Continuei a observá-la e o seu corpo cheio de curvas não passou despercebido. O bico dos seios apontando no leve tecido me fez engolir em seco e respirar fundo. Desejei tanto tocá-los com a minha boca enquanto me perdia de prazer por entre aquelas coxas e a boceta deliciosa que amassava o meu pau de uma forma que sempre me deixava maluco. Desejei dar à ela quantos orgasmos quisesse até que esquecesse o próprio nome.

As pétalas vermelhas ainda estavam no lençol branco, em volta do seu corpo. Me deitei de lado, apoiando minha cabeça com a mão e o cotovelo, peguei uma delas e deslizei suavemente pelo seu rosto, chegando até o seu colo. Nívea se remexeu um pouco mas não acordou e eu esbocei um leve sorriso de canto de boca.

Varri para longe da minha mente tudo o que eu gostaria de ter feito com ela por uma noite inteira e me restou apenas lamentar. Deixei um beijo na sua testa e saí da cama, me livrando das minhas roupas indo direto para o banheiro. Tive a certeza do que ela havia feito ao ver o piso e uma toalha de banho ainda úmidos. Fiquei debaixo do chuveiro e abri a torneira, deixando a água gelada cair por todo o meu corpo, permanecendo ali por um bom tempo com o intuito de esfriar minha cabeça e abaixar o meu pau que insistia em dar sinal de vida após meus olhos flagrarem a Nívea deitada.

Saí do box e enrolei uma toalha branca na cintura e usando outra de rosto para secar os meus cabelos e a minha barba enquanto encarava o meu reflexo no espelho. Ao sair do banheiro, tomei um susto: Nívea estava sentada na beira da cama, brincando com uma pétala por entre os dedos.

- Bom dia.
- Bom dia – ela me respondeu ao desviar os olhos da pétala para mim. Linda, mesmo sem nenhum traço de maquiagem no rosto após o banho.

Me aproximei e me sentei ao seu lado, tirando uma mecha do seu cabelo para colocar atrás da orelha esquerda.

- Por que você não me acordou?
- Eu sempre fico com pena de te acordar. Por isso fiz tudo quietinha.

Sorri, toquei no seu rosto e lhe dei um selinho.

- Ainda tá chateado comigo? – ela quis saber.
- Quem disse que estou chateado?
- Eu sei que você está, Eric.
- O que interessa nesse momento é como você está. Mais tranquila?
- Mais ou menos. Acho que sim – e abaixou a cabeça, voltando sua atenção para a pequena pétala. – Eu olhei a hora no meu celular e ainda é cedo. Posso ficar mais um pouco? – e tornou a me olhar.
- Por mim, ficaria para sempre.

Nívea sorriu mas ainda pude ver um pouco de tristeza em seus olhos. Tristeza essa que se eu tivesse o poder, moveria o universo inteiro para arrancar do fundo daquele azul perfeito.

- O que eu mais quero é te ver melhor, ma petite.
- Vai passar. Depois que as provas terminarem, vou ficar aliviada.
- Eu tenho certeza que sim. Decidiu se vai encontrar os seus amigos hoje?
- Ainda tô pensando.
- Tudo bem. Vou trocar de roupa e ir à padaria comprar nosso café da manhã. Quer alguma coisa?
- O que você comprar, eu como.
- Pode pedir, meu amor... O que você quiser. – e fiz um carinho no seu rosto.
- Pães de queijo.
- Vou trazer todos eles.

Beijei o seu rosto e me levantei da cama, deixando a toalha em um canto qualquer e trocando de roupa rapidamente. Uma blusa regata branca e uma calça de moleton preta foi o que eu vesti para comprar pão e tudo mais o que a Nívea iria gostar de comer. Não demorei mais do que quinze minutos e quando voltei, a mesa da noite anterior estava com a toalha, dois pequenos pratos de sobremesa e copos para acompanhar. Ela fez questão de me ajudar a preparar tudo. Preferiu ficar quieta, falar pouco e comer o que eu havia comprado. O que não aconteceu na noite do dia dos namorados ainda a incomodava.

***

A manhã estava um pouco fria quando nos despedimos. Felipe e Melissa esperavam por ela dentro do carro na esquina do meu prédio. Em frente à minha portaria, beijei o seu rosto e os seus lábios incontáveis vezes para ficar com eles na memória pois no sábado seguinte, eu e ela não ficaríamos juntos. Embora eu soubesse que ainda a encontraria na segunda-feira próxima em sala de aula.

- Tem certeza de que não está chateado comigo? – mais uma vez ela me perguntou.

Frustrado talvez seria a palavra correta. Mas eu jamais deixaria a Nívea saber.

- Tenho. Eu não quero que você fique preocupada e triste com a nossa noite. – pedi à Nívea com uma das mãos no seu rosto e a outra acariciando os seus ombros por cima do moleton azul claro que ela usava junto de uma calça jeans, o tênis branco e a mochila nas costas.
- Tá bom. Você foi tão compreensivo... – sua mão acariciou o meu rosto.
- É isso que os namorados são quando estão apaixonados e se apaixonam mais todos os dias pela mesma pessoa. – e a segurei de leve, beijando a palma.

Vi que ela respirou fundo e tentou segurar o choro. E quando eu a abracei, acariciando os seus cabelos, senti uma lágrima molhar minha blusa.

- Eu te amo, Eric.
- E eu amo mais – falei, fazendo a sorrir de forma mais natural pela primeira vez em horas.

O beijo foi o nosso último contato. Acompanhei Nívea com o olhar caminhando até o carro, cabisbaixa, com as mãos em ambas as alças da mochila e vê-la entrar pela porta traseira.

Amar é entender, reconhecer e respeitar os limites da pessoa a qual o seu coração escolheu.

***

- Poxa vida, Ní. Eu sinceramente nem sei o que te dizer - Melissa me abraçava de lado, me permitindo repousar a minha cabeça no seu ombro. Estávamos as duas no sofá sendo observadas por um Felipe quieto, sentado no sofá ao lado, após meu desabafo – Mas eu disse que você não estava bem, sabia que tinha alguma coisa errada.
- Nesse tempo todo que estamos juntos, foi a primeira vez que eu não quis transar com ele, Meli. Tenho certeza que foi. Porque quando ficamos separados no ano passado não conta.
- Não, claro que não! Vocês brigaram feio, isso sim!
- Nívea, presta atenção – Felipe quebrou o próprio silêncio e o encarei – Eu sei que não está sendo fácil pra você mas tente fazer disso uma espécie de motivação.
- Motivação? – questionei.
- Isso. Você tem todo o apoio dos seus pais, o Eric demonstrou ser um homem de verdade no momento que te respeitou e o seu amigo Frederik quer te ajudar de forma prática com as questões das aulas de Física. Pegue tudo isso e vá em frente. Reverta isso ao seu favor.
- Desde quando você virou psicólogo???? – a ruiva questionou com sarcasmo.
- Não é psicologia, Mel. Você é o exemplo disso lá em casa.
- Eu?
- Exato. Desde o início do ano, você está estudando todos os dias a tarde inteira, menos nos dias do seu curso de inglês, mas ainda assim está estudando quando chega em casa.
- Sim, e daí?
- E qual foi o resultado da sua dedicação toda?
- Minhas notas melhoraram. Estou acima de oito em todas elas. Algumas cheguei a tirar nove.
- E o que mais? Não foram apenas as notas.
- É verdade... – Melissa virou-se pra mim sorridente – Ganhei um aumento na minha mesada. Era o que eu mais queria.
- É isso. Você teve um objetivo. – ele continuou – E você, Nívea? Qual a sua motivação?

Me peguei pensativa com tudo o que acabei de ouvir. E o Felipe estava certo. Eu precisava reverter o meu desespero em força. Com todo o suporte que eu estava recebendo, não seria difícil.

- Eu preciso manter as minhas notas do primeiro bimestre como elas estão até agora.
- Então vá em frente. Repito, não deve ser fácil. O seu colégio é bastante rigoroso quanto a isso mas faz parte. Se o medo e o desespero continuarem a te paralisar, nada vai dar certo.

Respirei fundo e o mesmo alívio que eu senti com a minha mãe após o exercício de respiração, eu o senti naquele momento. As palavras do Felipe foram como uma luz. A luz do Sol após uma tempestade.

- Obrigada, Felipe. Suas palavras somaram ao suporte que eu estava recebendo de todos os lados.
- Os verdadeiros amigos fazem isso. E eu já estive no terceirão também. Sei exatamente o que está passando.

Melissa me abraçou de lado com força e o meu coração esquentou por inteiro.

- Mas e agora, Ní? – ela quis saber – Você vai para casa do Frederik hoje ou não?

***

A mesa quadrada e de vidro com quatro cadeiras da pequena sala de estudos da família Bertrand estava com estojos, apostilas e folhas de fichário espalhados. Eram pouco mais de seis horas da tarde quando finalmente eu e meus três amigos terminamos de estudar todo o conteúdo de física daquele bimestre. Mentalmente eu estava esgotada. No entanto, com o sentimento de dever cumprido.

- Conseguiu entender tudo, Nívea? – Frederik perguntou, sentado de frente pra mim – Ficou alguma dúvida?
- Não. – sorri de lado – Se não fosse por vocês, todas essas fórmulas continuariam sendo um filme de terror. Obrigada mesmo, amigos.
- Obrigado, nada. Você ainda está me devendo a revanche no banco imobiliário – Patrick ironizou sentado ao lado do amigo – Não pense que eu esqueci.
- Vamos combinar o seguinte? Vou ficar uma semana em Paris no apartamento dos meus avós e marcamos então uma noite para jogar, fechado?
- Fechou.
- Pessoal, olhem para cá – Gabriele em pé na direção da mesa, posicionou o seu Iphone para o alto – Vamos mostrar para todo mundo os estudantes dedicados que nós somos em pleno domingo!
- Por que pra você tudo tem que ter curtidas e visualizações, hein? – o irmão disparou.
- Porque eu cheguei na casa de dois milhões de seguidores e mais do que nunca não posso deixar de postar a minha rotina. Vai logo, Patrick. Melhora essa cara!

Eu apenas sorri e Frederik fez um sinal de positivo com a mão e sorrindo. Também sorridente, Gabriele disparou várias fotos e voltou a sentar-se à mesa analisando cada foto, deslizando o dedo na tela do celular.

- Amigos, o papo está bom mas eu preciso ir. – levantei da cadeira, colocando pequenas mechas dos meus cabelos atrás das orelhas e comecei a recolher o meu material.

Era a primeira vez que eu me sentia realmente tranquila após dias de aflição. Todo o conteúdo da matéria eu havia entendido e a esperança de fazer uma boa prova era cada vez maior.

- Como você vai para casa? – Gabriele perguntou, tirando os olhos da tela e virando-se pra mim.
- Combinei de telefonar para o meu pai assim que eu terminasse tudo.

Guardei meus pertences na minha mochila, colocando-a nos meus ombros e saímos os quatro adentrando o longo corredor da cobertura, cujos livros expostos em prateleiras nos dois lados da parede sempre me chamavam a atenção, até chegarmos na sala. Logo que cheguei, um pouco antes do almoço e a doce Norma estava de saída. Ficou feliz ao me ver mas ela e a avó Raquel combinaram um compromisso juntas. Além disso, Frederik me contou que os pais estariam fora toda a tarde para que ficássemos a vontade para almoçar e estudar.

- Com certeza eles estão no bar lá da piscina.
- Eu queria me despedir deles mas tudo bem. Dá um abraço neles por mim – pedi com o meu celular nas mãos e busquei o número do meu pai. Após dois toques, ele atendeu:

- Salut, mon chère !
- Pode vir me buscar, papa! Terminamos tudo aqui.
- Certo, estou saindo de casa!

Quando percebi, Frederik estava saindo da cozinha com o pote transparente e barulhento com duas grandes fatias de mousse de maracujá que fora servido no almoço antes de começarmos a estudar.

- Pra você e pra Melissa – e me entregou.
- Tenho certeza de que ela vai amar. Obrigada, Frederik.

Descemos nós quatro até o hall da luxuosa portaria para esperarmos o meu pai e ficamos conversando até ele chegar.

A última semana de aulas antes das provas iria começar e, definitivamente, o medo deu lugar a um sentimento de esperança.

***

Faltavam alguns minutos para a aula de Literatura Francesa terminar. A turma permanecia em silêncio pois o Eric falava sobre o que cairia na prova. Conversava em português pois o conteúdo de aula daquele dia, feito em língua francesa, fora finalizado.

- Portanto turma, peço que realizem a prova com calma. Eu sei, eu sempre digo isso mas nunca é o bastante para reforçar. Como a nossa disciplina é a última do dia, vocês poderão avançar além do horário até as seis da noite que é quando o colégio encerra o expediente. A Jacqueline está ciente e ela autorizou esse tempo a mais. Para vocês e as outras turmas.
- Tem algo de diferente na prova desta vez, professor? – uma aluna ao fundo quis saber.
- Além do número de páginas que vocês tanto amam? – ele debochou – Sim, como vocês também sabem, desde o primeiro ano eu divido a prova em duas partes sendo a segunda somente com questões do livro de cada bimestre. E desta vez teremos um diferencial.
- Lá vem bomba – Patrick lamentou de um jeito engraçado fazendo todos rirem.
- Você acertou, Senhor Fernandes.

O silêncio novamente ocupou o lugar das risadas.

- Como assim, professor?
- Na prova do livro, teremos duas questões discursivas e cada uma delas valendo meio ponto. E por isso eu peço: muita atenção na hora de respondê-las pois caso vocês errem, isso pode ser crucial na nota final.

Não deixei o medo e o receio me dominarem ao ouvir o que o Eric tinha acabado de falar. Minhas notas nas provas dele eram excelentes, por que dessa vez seria diferente?

O sinal tocou e ele foi até a porta para abri-la e fez uma careta ao ver a correria dos alunos em direção até a saída. Aos poucos, a turma foi deixando a sala sem afobação e calmamente, coloquei minha mochila nas costas para, enfim, sair junto dos alunos.

- Nívea... – me virei ao sentir um toque no meu braço.
- Oi, Nicole. – sorri.
- Será que eu poderia falar com você?
- Claro, o que foi?
- Você vem, Nívea? – Gabriele me chamou ao lado do irmão e do Frederik já na porta.
- Vão indo na frente, já estou descendo – voltei minha atenção para ela – Pode falar.
- Eu queria falar mesmo a sós...
- Aconteceu alguma coisa?
- Bom, é que ontem eu vi que você repostou um story da Gabriele. Vocês estavam estudando, não é?
- Isso. Eu fui para a casa do Frederik, almocei lá e depois estudamos a tarde toda. Mas por quê?
- Eu sei que não somos muito próximas mas você é a aluna mais inteligente e queria saber se pode me ajudar.
- Meninas – desta vez foi o Eric quem nos chamou da porta – A aula já terminou.
- Vamos para o corredor – ela pediu.

Saímos nós duas e nos sentamos em um dos bancos de madeira ao lado da porta da sala.

- Não demorem aqui em cima! – ele falou, fechando a porta da sala, saindo pelo corredor e eu revirei os olhos mentalmente.

Chato. Mas eu o amava.

- Como você quer que eu te ajude? – perguntei curiosa.
- Será que podíamos estudar biologia juntas? Eu estou com dificuldade em decorar os conteúdos.
- Claro! Mas só nós duas? Podemos estudar em grupo como eu fiz ontem.
- Eu prefiro que seja apenas com você. Eu e a Celine somos muito amigas mas ela não vai estudar no próximo fim de semana pois vai ao aniversário de um primo, então... E eu não queria que mais ninguém soubesse.
- Entendi. Quer estudar lá em casa? No sábado eu não vou sair e nem no domingo pra me dedicar às matérias.
- Eu posso ir mesmo? Seus pais não se incomodam?
- Claro que não, eles vão adorar te receber, minha mãe principalmente.
Que horas você pode ir?
- Às duas horas fica bom? Minha dificuldade é apenas com Biologia mesmo, não vamos precisar de tanto tempo.
- Ótimo – peguei o meu celular, desbloqueando a tela e abri o campo de busca – vou te enviar o meu endereço no WhatsApp – digitei a minha rua no Google maps e direcionei o compartilhamento para o contato dela – Você mora aqui em Laranjeiras?
- Eu moro em São Conrado.
- Legal.
- Se acontecer alguma coisa e eu não puder ir, te envio uma mensagem.
- Tá certo. Combinado, então.

Descemos juntas até a saída e me despedi dela, observando-a seguir de encontro com o seu motorista. Ainda havia a movimentação normal da saída e ao avistar o Evandro, ele e a Gabriele estavam do outro lado da rua. E junto deles, estava o Eric sendo alvo dos olhos da minha amiga que não parava de falar de forma eufórica.

''A paixonite dela pelo Eric nunca vai acabar'', pensei.

Atravessei a rua e seus olhos imediatamente voltaram-se para mim.

- Cheguei! Podemos ir.
- O que a Nicole queria com você? – a curiosidade da Gabriele falou mais alto, como sempre.
- Ah, ela queria conversar comigo sobre uma dúvida da aula da manhã. Era só isso. – menti, sorrindo sem jeito e o Eric viu a mentira colada na minha testa.
- Ah, tá. Estou aqui tentando convencer o nosso querido professor a passar um sábado lá em casa depois da nossa viagem de férias.
- Vai ser legal. Se tiver banho de piscina, melhor ainda.

A Nívea versão provocadora estava de volta.

- Com certeza!
- Eu prometo pensar a respeito senhorita, agora eu preciso ir.
- Já está ficando tarde – Evandro anunciou.
- Tchau, professor – me despedi formalmente.
- Tchau, senhorita Martin. Nos vemos na prova semana que vem, crianças.
- U - Hul – Patrick falou pausadamente.

Frederik que estava encostado na porta do carona e com os olhos no seu celular, foi o primeiro a entrar. Entramos nós três no carro e mais um dia se encerrava.

***

Eu ainda estava com o meu uniforme da escola quando conversei e pedi aos meus pais sobre a ajuda da Nicole. Ao entrar em casa, eles já haviam chegado e então toquei no assunto de imediato.

- Eu não poderia ficar mais orgulhosa de você, filha! – minha mãe disse, me abraçando de lado – é claro que ela pode vir estudar aqui.
- Eu passei por momentos tensos na semana passada e, agora que estou bem, posso ajudar uma colega de turma.
- Com toda certeza, mon chère! – meu pai concordou – Se o Frederik e os seus amigos te ajudaram é justo que você faça o mesmo por alguém.

Sempre o Frederik, não é papa?

- Sim, biologia é uma matéria mais fácil pra mim. E estou curiosa também para entender quais são as dificuldades dela.
- Não vai ser difícil, meu amor. Vocês terão uma tarde inteira somente para isso.
- Ela vai chegar por volta das duas horas, podemos preparar um lanche pra nós duas quando terminarmos tudo!
- Ótima ideia! – minha mãe me beijou no topo da cabeça – Agora vou trocar de roupa e ajeitar tudo para o jantar e você faça o mesmo com esse uniforme!

***

Já deitada e pronta para dormir após ter estudado um pouco de cada disciplina do dia, visitei o perfil da Nicole no Instagram e não havia nada de novo postado no feed, apenas um story de horas atrás em que ela postou um vídeo do jardim do Saint Vincent na hora do intervalo.

Busquei o contato dela no WhatsApp para falar sobre o sábado.

Oi Nicole, ainda tá acordada?

Esperei por poucos minutos o retorno dela.

Oi Nívea, to sim.

Ah, então. Pode me passar quais assuntos de biologia vc está com dificuldade ?

Olha, é basicamente tudo deste bimestre kkkkkkk Teorias Evolutivas, Evidências e Especiação. São muitas coisas pra decorar e eu não sei se dou conta.


Entendi. Eu tive uma ideia e vamos conversar sobre ela no sábado tá bom?

Td bem. Obrigada mesmo pela ajuda. Se na 4 feira, dia da aula eu n conseguir entender nd acho que sou um caso perdido kkkkkkkkk

Que isso, vc vai conseguir.

Tomara que sim. Vou dormir agora, Nívea. A gente se vê amanhã. Bjs

Bjs ??

Quando estava perto de colocar o meu celular de volta no criado-mudo, o senti vibrar na minha mão. Ao olhar a tela, sorri com o coração na chamada e deslizei o dedo para aceitar na mesma hora.

- Oi, meu amor.
- Que bom que você ainda não dormiu.

Aquela voz deliciosa que só ele tinha.

- Eu ia dormir agora. Tá tudo bem?
- Comigo está sim. E com você?
- Tudo normal. Por quê?
- Você pode ter mentido pra Gabriele hoje mais cedo mas não para mim. O que aconteceu com a Nicole?
- Eu sabia que você tinha percebido – e ri.
- Tudo sobre você eu percebo, ma petite.
- Eu sei. Eu e a Nicole vamos estudar biologia no sábado. Ela vem aqui pra casa e vamos passar a tarde estudando.
- Isso é muito bom. Mas por que a Gabriele não pode saber?
- A Nicole pediu segredo. Acho que ela tá com vergonha de estar mal em alguma matéria e não quer que ninguém fique sabendo.
- Entendi. E você? Está bem para ajudá-la?
- Estou. A ajuda de ontem e mais a conversa com o Felipe, que eu contei pra você ontem de noite por áudio, me deixaram mais confiante.
- Verdade. Hoje na aula, seus olhinhos estavam mais tranquilos.
- E essa semana acho que vai ser desse jeito também.
- Você assim com o coração aliviado, eu também fico, meu amor.
- Tenho certeza que sim. Eu vou dormir agora, Eric. Te amo.
- Também vou e também te amo, princesse. Um beijo nessa sua boca deliciosa e em outros lugares.

Suspirei fundo, sentindo o latejar entre as pernas.

- Você falando assim, eu não durmo – confessei e ele deu uma gargalhada gostosa do outro lado da linha.
- Pois então durma e sonhe com a minha boca no lugar onde você quiser. Te amo.
- Te amo mais.

Desligamos e pus o celular no criado-mudo, me ajeitando na cama para dormir, querendo sonhar com o que ele havia me falado segundos atrás.

E com isso, a última semana de aula antes das provas foi focada totalmente em revisão de todas as matérias do segundo bimestre. Dúvidas, explicações de conteúdos, simulação de prova oral onde os professores perguntavam de surpresa para algum aluno sobre determinado assunto.

O pesadelo que tive com física era apenas uma vaga lembrança. Durante a aula, fizemos algo parecido com um simulado de prova e acertei todas as vinte questões que foram passadas pelo professor. E estudando em casa, nenhum sinal da crise de ansiedade de dias atrás.

Antes de ir dormir, Eric telefonava todas as noites para saber como eu estava. Nesse tempo todo de namoro, eu e ele não tínhamos muito o hábito de conversar por mensagens ou telefonemas antes de dormir pois acordamos cedo no dia seguinte mas, depois da crise e da noite no dia dos namorados, ele ficou realmente preocupado comigo. Mas é desse modo que os namorados agem, não é? E isso me fazia ficar cada vez mais apaixonada por ele.

Eric era o homem da minha vida. Algo intenso demais a se dizer quando você tem apenas dezessete anos mas era a certeza no meu coração.

A conclusão a qual eu cheguei era de que com todo o apoio recebido e, principalmente, as demonstrações de amor do Eric, nada poderia dar errado.

***

Eram duas e vinte da tarde quando a Nicole chegou. Estava uma tarde agradável de Sol e a mesa de jantar preparada de duas formas: em uma ponta, meu material escolar arrumado incluindo o meu lap top. E na outra, pratos de sobremesa, copos, guardanapos de papel e tudo o que era necessário para um típico lanche da tarde.

Meus pais ficaram encantados por conhecerem uma nova colega da minha turma e a fizeram sentir-se em casa.

- Desculpem por ter me atrasado um pouco, enviei uma mensagem pra Nívea avisando. – ela explicou com a mochila no ombro e as mãos nas duas alças - O meu pai pegou um engarrafamento chato ali na Avenida Niemeyer.
- Não tem problema nenhum, minha querida! – minha mãe a tranquilizou – Isso acontece.
- Tenho certeza de que a Nívea irá te ajudar – disse o meu pai – Fique aqui o tempo que for necessário.
- Obrigada.
- Por acaso já te disseram que você se parece com a...
- Hermione, a personagem da saga Harry Potter, eu sei. – Nicole sorriu sem jeito para a minha mãe.
- Parece muito, principalmente por causa dos cabelos.
- Meu rosto tem os ângulos parecidos com os da Emma Watson então as comparações sempre acontecem.
- Isso não te incomoda? – perguntei.
- Não, nem um pouco. Até acho legal.
- Que bom – disse minha mãe e virou-se para mim - Eu e o seu pai estaremos no escritório, meu anjo. Fiquem à vontade.
- Vamos ficar – e seguimos para a mesa onde nos sentamos uma de frente para a outra. Observei a Nicole retirar seu material da mochila incluindo o estojo rosa com abacaxis. Não consegui conter uma risada.

E nunca mais enxergaria abacaxi como uma simples fruta.

- O que foi?
- Tô rindo do seu estojo e me lembrei daquele dia na aula...
- Ah sim – ela riu – Vou te confessar que fiquei sem entender o que você disse sobre o autor Albert Camus, abacaxis e as amantes dele.

Paralisei levemente chocada.

- Você não entendeu?
- Não. A turma toda surtando e eu fiquei com cara de imbecil igual o meme da Nazaré.

''Ela não entende nada do assunto. Será que a Nicole é virgem?'', foi o meu primeiro pensamento.

- Mas deixa pra lá – ela abriu a apostila de biologia – Por onde vamos começar?
- Bom... – afastei aquilo da cabeça - Eu pensei no seguinte. Vamos começar pelo conteúdo que você tem mais facilidade e estudamos ele. Depois indo para os mais difíceis.
- Nívea, pra mim todos são difíceis.
- Então vou te pedir que escolha um dos três que me passou por mensagem. Por qual deles você quer começar?
- Teorias Evolutivas.
- Certo. Começamos por ele. Depois disso, o que você acha de fazer um simulado com vinte perguntas sobre cada um dos três assuntos?
- Acho ótimo.
- Que bom, porque os três simulados estão prontos!
- Como assim?
- Eu tive essa ideia depois da nossa aula de física. E hoje eu passei a manhã toda montando as perguntas do mesmo jeito de uma prova.
- Nossa, que legal Nívea.
- Vinte perguntas somando um total de sessenta. Não se assuste, vamos estudar um de cada vez e fazer o simulado da mesma forma, tá bom?
- Tá bom.

E tudo fluiu perfeitamente bem durante a tarde. Nós duas estudamos com calma o primeiro assunto que ela escolheu e quando estivesse pronta e sentindo-se segura, entreguei o primeiro simulado de vinte perguntas. Fiz o mesmo com Evidências e Especiação.

Nicole tinha mesmo certa dificuldade em decorar os tópicos mas eu tive toda paciência em explicar cada um deles. Por fim, veio o resultado final. Já passava das sete da noite quando terminamos tudo.

- Você se saiu bem. Em Teorias errou duas e nas outras duas matérias errou apenas uma de cada. No total, cinquenta e sete acertos!
- Custo a acreditar que só errei três. Muito obrigada mesmo, Nívea - ela agradeceu, fechando sua apostila e guardou o material de volta em sua mochila – De coração.
- Foi um prazer em te ajudar. – fiz o mesmo com o meu material e fechando o notebook – Já está tarde para você voltar para casa? Eu deixei a mesa pronta pra lanchar quando a gente acabasse tudo.
- Eu vou telefonar pra minha mãe e avisar que vou ficar mais um pouco – ela pegou seu celular na mochila e foi até a varanda, falando com a mãe e voltou minutos depois – Ela me deixou ficar. O motorista da minha família não trabalha nos finais de semana e aí ou ela ou o meu pai virão me buscar a hora que eu ligar de novo. Ah, e pediu para te agradecer por ter me ajudado. – E deixou seu aparelho na mesa, sentando-se novamente.
- Que bom – sorri – Mas me conta - Ainda sentada à mesa e mais relaxada puxei papo. – Já sabe qual curso vai fazer na faculdade?
- Eu vou fazer psicologia. Foi a carreira a qual eu li muito, me apaixonei e depois do que aconteceu comigo ano passado, a morte da minha avó, a queda das minhas notas, eu e o meu irmão ainda estamos fazendo terapia, e conhecendo a profissional, eu tive a certeza de que era o que eu queria seguir.
- Poxa Nicole, que lindo! Te invejo por isso, pela certeza da sua escolha. Mas é uma inveja boa.
- Por que você me inveja?
- Porque quando eu tive quase a certeza de que estudaria economia, eu vi o panfleto no dia do salão do estudante e foi a minha vez de ter um surto. Descobri que tinha várias áreas da profissão dentro da graduação.
- Isso realmente é chato.
- Demais. Então resolvi deixar de lado por um tempo. Já não basta a pressão do nosso último ano.
- Verdade. Naquele dia do evento, eu fiquei no estande da Bélgica para conhecer mais sobre as universidades de lá, por pura curiosidade, porque o meu intercâmbio já está marcado pro ano que vem.
- Jura? Mas e o BAC?
- Eu vou fazer a prova normalmente, eu viajo na primeira semana de janeiro e só volto no início de abril.
- Claro, e o BAC será em junho.
- Isso. Meu intercâmbio vai ser de trabalho, vou trabalhar em uma sorveteria em Bruxelas durante esses meses.
- Ah, que lindo. Será uma experiência incrível. E admiro você, por ter tudo planejado. Eu ainda estou perdida.
- Em compensação eu fiquei travada em biologia e é nisso que estou focada.
- Concordo. Se os seus planos para o futuro estão traçados, o importante é o agora. Vamos lanchar?
- Claro! Onde é o banheiro? Só vou lavar as mãos!
- Vem – nos levantamo

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