Sinopse: Final de mais um ano letivo e o nosso professor é surpreendido por algo que o faz repensar sobre sua importante - e triste - decisão. De férias e ao lado dos pais ele se esforça para evitar pensar na sua doce aluna, não sendo bem sucedido.
E no último capítulo desta temporada eu pergunto: até aonde você seria capaz de ir em nome do verdadeiro amor?
***
Era início da noite de domingo quando terminei de arrumar tranquilamente o enorme bloco empilhado de provas corrigidas, as quais eu separei por turmas nos envelopes, e com isso desafoguei a minha mesa de trabalho obtendo mais espaço. No dia seguinte, eu iria até a faculdade e deixá-las no setor do Arquivo Geral. Com as provas das minhas três turmas do Ensino Médio eu faria o mesmo. Todas as notas dos alunos estavam lançadas no modo tradicional e virtual, mais um semestre se finalizava, eles entrariam de férias e eu também iria respirar e descansar.
Pus todos os envelopes dentro da minha mochila para enviá-los de uma vez e após fechar o zíper, deixando a embaixo da mesa, voltei a me sentar na cadeira, circulando meus ombros para trás e relaxei, apoiando os meus braços em cima da minha cabeça. Olhei na direção de algum ponto do teto, respirando fundo onde era evidente o cansaço.
Fisicamente eu teria um longo período de descanso, no entanto o mesmo eu não podia dizer emocionalmente.
Eu estava completamente fodido.
Ainda mirando para o alto, girei a cadeira para o lado na direção da minha estante de madeira escura, cujo tamanho era maior do que a minha altura, onde eu mantinha os meus livros e fitei em dois específicos.
Me levantei e fiquei de frente para o móvel, olhando na direção de onde estavam.
"Foram da turma sim, Gabi! Todos os presentes."
Observava as capas e o título, me lembrando da frase dita se referindo a eles. Mas eu sabia que não eram presentes da turma e sim, apenas dela pois o enredo dos pequenos volumes era dedicado à uma cidade francesa em específico, localizada quase ao Sul do país e que para mim se tornou normal ouvir sobre ela com maior frequência quando o período de férias se aproximava.
No dia do meu aniversário, ao chegar em casa tarde da noite, eu os deixei na estante posicionados em pé com as capas viradas para frente, mas desde então não abri e não li uma página nem ao menos por curiosidade. Manteria ambos fechados porque eu não teria o mínimo prazer em começar a leitura sem tê-la do meu lado, deitada na minha cama, envolvida nos meus braços.
Os livros ali seriam uma lembrança.
Soltei uma bufada de ar e fui para a minha cama, me deitando ao lado de outra lembrança dela que permanecia intacta bem no meio da cabeceira. Não tive coragem de fazer o que ela havia me pedido e todas as noites antes de ir dormir, olhar para aquela coelha de pelúcia cor de rosa me serviria de conforto em relembrar os poucos meses que ficamos juntos naquele ano. A gaveta do meu guarda-roupa com alguns objetos pessoais estava trancada sem nada ter sido mudado de lugar ou ter ido parar no lixo.
De fato, eu não gostaria que nada tivesse mudado.
Nívea e eu erramos muito em vários momentos pois a nossa diferença de idade foi um fator que pesou nesses erros, fazendo com que nossas perspectivas e visões de mundo não se encaixassem e assim começando a surgir os conflitos da nossa relação.
Eu precisava admitir que, para ela, o aumento da minha rotina de trabalho, afetando nosso tempo em que ficávamos juntos e a relação de irmãos que eu possuía com a Luciana foram coisas difíceis de lidar e eu não consegui encontrar uma forma de contornar o sentimento de insegurança que fincou com força no seu coração puro e tão cheio de amor.
E mesmo ela errando, mostrando ser imatura e agindo feito uma menina mimada, culminando na nossa briga na faculdade, o que mais me entristeceu foi ela não reconhecer o quanto que havia errado e eu não ter paciência o bastante para me manter no controle da situação, conversar e apontar onde estavam estes erros.
Nosso combinado em confiarmos um no outro e dizer sempre a verdade poderiam ser lindas rosas que exalavam o nosso amor. Entretanto, essas diferentes perspectivas e erros dos dois lados eram os espinhos que nos machucaram aos poucos e foram cruciais para o nosso rompimento.
O distanciamento que comecei a manter da Nívea, após a noite do aniversário de casamento dos seus pais e por exigência dela, teve resultados. A prova disso era que depois de várias semanas voltei a ter acesso às suas redes sociais que apareciam bloqueadas para o meu perfil. Me mantive quieto, não interagindo em nada. Sua última postagem foi a foto de toda a turma no dia da festa surpresa que os alunos realizaram para mim, mas durante o período desta tática em que lhe dei um "gelo", tratá-la com total desprezo dois dias atrás me arrebentou totalmente por dentro. Seus olhos azuis me encaravam repletos de tristeza e mágoa, mas me mantive firme me despedindo dela e dos pais desejando que fizessem uma boa viagem de férias e tivessem uma ótima comemoração de Natal e Ano Novo.
***
Eu já estava deitado, conectado no Instagram e visualizando as fotos daquele perfil que eu mais amava com o intuito de driblar a saudade quando recebi uma notificação do meu aplicativo do banco informando um depósito via Pix no valor de pouco mais de mil reais.
- Tô te vendo online ô manézão! Conecta o Skype aí que o pai e a mãe querem falar com vc! - era a mensagem do meu irmão segundos depois.
Nem respondi de volta, deixando o aparelho de lado e, dando um salto da cama quase até a minha mesa, liguei o notebook. Enquanto ele ligava, peguei os fones de ouvido na minha mochila e vesti uma camiseta regata que estava pendurada na grade da cabeceira da cama. Conectei os fones e o Skype, ajeitei a webcam e minutos depois a tela abriu, mostrando os meus pais juntos.
- Mãe! Pai! Boa noite!
- Gute Nacht, Sohn!
- Aconteceu alguma coisa? Vocês estão bem?
- Estamos bem sim, meu filho. Não se preocupe e desculpe pela hora.
- Não tem problema.
- Recebeu a mensagem agora?
- Recebi sim, que dinheiro é esse?
- É uma parte do presente de Natal meu e da sua mãe. Para que não precise gastar do seu dinheiro com as passagens aéreas quando estiver vindo para cá.
- Pai, não precisava fazer isso...
- Aceite filho, será um assunto a menos para se preocupar.
- Sabemos que você não está nada bem, Eric. - meu pai falou firme - Você e o Thomas conversaram durante esses últimos meses e ele comentou conosco.
- Quando eu chegar aí nós conversamos melhor.
- É claro. Ficaremos lhe esperando.
- Sabe quando virá para Lages?
- Talvez mais cedo do que eu imagine. Vou finalizar algumas coisas na Universidade e depois irei no colégio para... - respirei fundo e massageei a nuca pois pensar naquela difícil decisão ainda me incomodava - Enfim, creio que vocês sabem.
- Ja e estou totalmente de acordo. É o melhor a ser feito.
- Eu fico tranquila, meu querido, que você voltará a ter um dia a mais na semana para descansar.
- Sim, vai ser bom. - afirmei, mesmo sabendo que no fundo não seria tão bom assim.
- Era isso. Queríamos falar com você para que não se assustasse com esse dinheiro que apareceu.
- Tudo bem pai, eu agradeço.
- Se cuida, meu filho. Vamos ficar te esperando.
- Obrigado, mãe. Vocês também se cuidem. Um beijo e um abraço em vocês. - enviei um beijo com a mão na direção da tela e desconectei a chamada.
Mesmo que eu tivesse responsabilidade desde jovem com as minhas finanças, não poderia negar que aquele dinheiro a mais veio em uma boa hora.
Eu não estava no clima para participar das confraternizações de fim de ano, então quanto mais tempo eu ficasse longe de tudo que poderia me lembrar a Nívea, mais fácil seria começar o processo em arrancá-la de dentro de mim.
***
- Animado para as férias, professor? - uma das funcionárias me perguntou amigavelmente enquanto eu lhe entregava os envelopes com as provas.
- É sempre bom dormir até um pouco mais tarde.
- Isso com certeza! - ela recolhia um a um, colocando os pacotes na parte de baixo do balcão do setor em que trabalhava - As provas são apenas deste semestre?
- São sim.
- Certo. - ela pegou uma folha de papel e uma caneta - Só preciso que assine aqui junto com o número da sua matrícula para que eu possa registrar no sistema.
- Claro - Fiz o que me pediu e pousei a caneta em cima da folha lhe devolvendo - Obrigado. Sabe me dizer se a cantina está funcionando? - perguntei enquanto pegava a minha mochila que deixei no chão, por entre as minhas pernas, e a coloquei nas minhas costas, ajeitando as duas alças nos ombros.
- Está sim, normalmente. São nove horas, acho que você ainda consegue pegar um café fresco - e sorriu.
- Ótimo. É só isso?
- Sim. Agora é com a gente aqui.
- Certo, obrigado. - e deixei o Arquivo Geral indo até a cantina.
Caminhei por alguns corredores e a maioria das salas estavam vazias e quando cheguei na cantina, não foi diferente. Havia poucas pessoas sentadas nas mesas lanchando e conversando. Realmente era possível sentir o cheiro de café no ambiente e o ruído do liquidificador ligado vindo da direção da cozinha no fundo da cantina.
Observei todos ali com discrição e não a encontrei. Peguei meu celular do bolso e desbloqueei, digitando nos contatos as três primeiras letras do seu nome. Fiz a chamada e esperei até ela atender.
- Fala!
- Tá no Campus?
- Não, tô em casa. Só devo ir para faculdade depois do almoço.
- Hum... Pensei de te encontrar agora de manhã. Deixei as minhas provas no Arquivo e tô aqui na cantina.
- Se você tivesse me ligado ontem combinando, a gente se encontrava.
- Não, tudo bem, eu decidi ontem de noite mesmo. Me conformo em tomar café sem companhia. Terminando aqui eu vou até a sala dos professores e tirar as minhas coisas de lá do meu armário.
- Entendi. Almoça comigo então. Uma hora lá no restaurante de sempre, pode ser?
- Tudo bem.
- Show. Te encontro lá. Beijão.
- Outro.
***
- Fiquei chateada em não ter ido ao menos dar um abraço no Felipe - Luciana lamentava sentada de frente pra mim enquanto cortava seu pedaço de frango à parmegiana, colocando-o na boca e mastigando, voltando a falar após engolir - Foram três defesas de monografia para assistir e a última só foi acabar depois das dez da noite. Eu só queria a minha cama de tão cansada que eu estava.
- Eu também fui falar com ele rapidamente apenas para dar os parabéns, depois que terminei de passar a prova pra minha última turma - suspirei - Ele mereceu essa conquista, se esforçou demais o ano todo.
- Sei... - ela passou a me fitar deixando os talheres no prato - E o que mais?
- Que mais o quê?
- Você e a Nívea se encontraram?
- Ela estava com os pais, nos falamos pouco...
- Entendi... - ela continuava a me observar me deixando desconfortável - Sinto que aconteceu mais alguma coisa maaas não vou insistir, afinal você está disposto a virar esta página.
Continuei calado e depois de terminar o mesmo frango com algumas batatas fritas, dei um último gole na minha coca-cola com gelo e limão. Eu não estava com muita fome e não comi quase nada. A última coisa que precisava era ouvir mais um de seus sermões se eu contasse como havia tratado a Nívea naquela noite.
- Quando você vai conversar com a Jacqueline?
- Vou esperar ela entrar em contato. Seria bom se fosse hoje, quanto antes melhor.
- Foi uma boa experiência pra você.
- É... Foi. - Encarei o meu prato vazio - Luciana...
- O quê?
- Quando você começa a montar a grade de horários de cada semestre?
- Logo depois da reunião da coordenação com os professores marcada pela reitoria, geralmente na última semana de Janeiro como sempre. Por quê?
- Se você puder, coloque outro professor no meu lugar no turno da noite. O meu objetivo perdeu todo o sentido pra mim. Não vale mais a pena.
- Tem certeza? E se você mudar de ideia?
- Não vou mudar.
- Tá, na dúvida vou manter o seu nome no período noturno. Caso você queira sair mesmo do horário, eu encaixo algum professor que concluiu o Mestrado.
- Tudo bem.
E mais uma vez os meus pensamentos se fixaram nela.
Será que a Nívea havia feito uma boa viagem? Que estava bem? Era algo maior dentro de mim que eu não conseguia controlar.
Definitivamente sair do colégio era o mais correto a se fazer.
***
Encarava o meu reflexo no espelho do armário do banheiro enquanto eu escovava os meus dentes. Me preparando para ir dormir e usando apenas uma cueca boxer preta, terminei o que fazia e lavei o meu rosto, pegando a pequena toalha no aro de metal preso à parede, para secar os pêlos úmidos da minha barba. Paralisei com a toalha no rosto ao ouvir a porta bater.
Quem poderia ser aquela hora? O vizinho do andar de baixo com quem eu quase nunca falo?
- Já vai!
Ajeitei tudo na pia, vesti uma bermuda qualquer que estava pendurada em um canto e deixei o banheiro, indo até a porta.
Quando abri, era ela. Estava diante de mim.
A dona daqueles olhos azuis perfeitos e inchados de tantas lágrimas que deveria ter derramado, usando apenas um vestido amarelo de tecido fino marcando os seus seios e sua mochila cujas alças ela segurava com força.
- Ní-Nívea? - a encarei dos pés à cabeça ainda sem acreditar - Você não viajou??
E me abraçou apertado pela minha cintura, colando o seu rosto no meu peitoral, chorosa e soluçando.
- Me perdoa, Eric... Por favor!
Embora nos últimos meses eu tenha me blindado contra ela, odiava desde sempre ver a Nívea chorando daquele jeito. Como continuaria sendo frio vendo a assim? Triste e fragilizada.
Correspondi ao abraço e apertei ainda mais o seu corpo junto do meu, deixando um beijo nos seus cabelos.
- Fica calma, não chora... - pedi sussurrando, alisando os fios tão macios - Como você veio...
- Não fala nada! - ela me encarou ainda abraçada - Só faz amor comigo! - implorou.
- Eric...
Aquela doce voz gemia baixinho o meu nome em meio aos beijos e chupões que eu deixava na sua bochecha e na boca. Sua pele macia estava quente, úmida e eu podia sentir suas pequenas mãos deslizando e arranhando lentamente pelas minhas costas enquanto eu enlouquecia de tesão, enfiado no meio das suas pernas. Era tão apertada como se fosse sempre a primeira vez.
- Fala que você é só minha, ma petite... Fala...
- Sou sua...
E eu sorria ao ouvir o que tinha lhe pedido, acariciando o meu rosto no seu, buscando pela sua boca para um beijo lento e cálido. Nossas línguas dançavam e brincavam, minhas mãos se emaranhavam pelos seus cabelos e sabia que não iria demorar muito tempo até gozar dentro dela.
Deixei seus cabelos e os meus toques passearam pela lateral do seu corpo até chegar nas suas coxas, fechando em torno da minha cintura e me enterrei o quanto pude, sentindo meu pau sendo esmagado. Ela também iria gozar a qualquer momento e que fosse antes de mim porque tudo o que eu mais amava nos nossos momentos de intimidade era vê-la se entregando ao prazer do seu jeito tímido, mas verdadeiro.
O som de uma buzina escandalosa de algum carro na rua causou um estalo no meu cérebro e me acordou me fazendo piscar os olhos com o susto. Meu coração batia acelerado e, com a respiração ofegante, permaneci totalmente enrijecido deitado na cama.
Era um sonho. A porra de um maldito sonho.
Que deixou o meu pau duro e dolorido de tesão embaixo do lençol implorando por alívio e tudo o que eu podia fazer era agir feito um adolescente, correr até o chuveiro e gozar para o ralo. Foi o que eu fiz.
Me levantei da cama, me livrando da minha cueca e, nu, caminhei a passos largos para o box, abrindo o registro com uma das mãos, deixando a água cair bem em cima de mim enquanto a outra segurava o meu membro rígido. Iniciando uma punheta lenta, que aos poucos foram ficando ligeiras, na minha mente eu imaginava aquela boquinha perfeita com lábios vermelhos e macios me sugando sem pressa.
- Aaaahh, Nívea... - ergui minha cabeça e me encostei na parede fria de azulejos, sentindo o meu corpo inteiro reagir até sentir os jatos de esperma se misturarem com a água escorrendo pelo ralo.
Nos últimos meses bater punheta era o que me restava, sempre que lembrava e sonhava com as nossas transas.
Saí do banheiro com uma toalha branca enrolada na cintura, ainda me sentindo um pouco zonzo. Me joguei na cama com o corpo molhado e fui relaxando aos poucos.
"A verdade é que eu não tenho ninguém. E se eu não tenho ninguém, eu estou livre pra me esfregar e abrir as minhas pernas para o Frederik e para quem eu quiser! Você não é mais nada meu! Não é meu dono, entendeu? Apenas o professor em sala de aula."
Depois do sonho que eu tive, aquelas duras palavras cresceram na minha cabeça e pareciam badalos de sino que não tinham outra função a não ser me torturar. Pensar na Nívea permitindo que outro cara encostasse nela era o suficiente para que eu perdesse o meu juízo. Eu amei cada parte daquele corpo e jurava mentalmente que o amaria até o meu último suspiro em todas as vezes que eu a possuía, gemendo debaixo de mim.
Felizmente aquele momento durou pouco porque o meu celular começou a tocar na minha mesa.
Fiquei com os cotovelos apoiados na cama e continuei a fitar o aparelho que vibrava e tocava sem parar. Antes que ele parasse, me levantei rapidamente para atendê-lo. Ao ver de quem se tratava, suspirei de alívio. ''Ótimo'', pensei lendo o nome. Aceitei a ligação de imediato.
- Alô?
- Bom dia, professor. Como vai?
- Bom dia Jacqueline, vou bem obrigado.
- Que bom. Podemos ter nossa reunião hoje?
- Claro, que horas?
- Venha no último horário, às cinco, pode ser?
- Pode sim, sem problemas.
- Ótimo. Está marcado.
Em poucas horas, eu iria fechar um ciclo na minha vida. E restariam apenas as memórias das segundas-feiras ao lado de uma turma a qual aprendi a ter um enorme carinho por serem tão dedicados.
***
Cheguei no colégio minutos antes do horário combinado. Usando uma roupa adequada para a ocasião, sapato, blusa e calça social, eu aguardava sentado na antesala da direção onde as duas secretárias trabalhavam concentradas e à elas entreguei as provas das minhas turmas assim que fui atendido falando sobre a minha reunião marcada com a Diretora.
Eu estava decidido e, por mais que estivesse também entristecido, não iria voltar atrás.
- Professeur? - Jacqueline apareceu na porta da sua sala sorrindo e me levantei de prontidão - Venha, espero que não tenha esperado muito. Eu estava em uma ligação importante com a embaixada da Bélgica.
- De jeito nenhum! - segui até onde estava e entrei. Ela deu a volta, sentando-se em sua enorme cadeira de couro e fiz o mesmo, me sentando em frente à sua mesa.
- Aceita uma água ou café?
- Não, obrigado.
- E então? - ela se inclinou para frente, apoiando os cotovelos na mesa e cruzando os braços - Mais um ano letivo finalizado.
- Pois é... Foi gratificante como sempre.
- Gratificante a ponto de continuar por mais um?
- Bom... - abaixei a cabeça e achei melhor não procurar por palavras - A reunião com você também foi por esse motivo. Eu gostaria de pedir o meu desligamento do colégio. - falei de forma direta.
- Entendo... - ela suspirou, mantendo o seu semblante inalterado e me observando - E qual o motivo para querer deixar de trabalhar conosco? Você teve algum aborrecimento?
- Não, absolutamente! - neguei com a cabeça - A minha sobrecarga de trabalho na Universidade aumentou esse ano e isso começou a refletir na minha saúde. Então me vi obrigado a fazer determinadas escolhas. - não era totalmente mentira.
- Certo... - ela assentiu com a cabeça e a sua calma diante das minhas justificativas me deixaram intrigado - Eu iria lhe oferecer um reajuste de salário maior mas percebo que a questão não é o dinheiro.
- Não Jacqueline, não se trata de dinheiro. É algo pessoal.
- Não há nada que poderia fazer você mudar de ideia? Eu estou muito satisfeita com o seu trabalho e a postura amigável que adotou em sala de aula parece que deu resultado pois até uma festa surpresa de aniversário você ganhou.
- Eles me surpreenderam naquele dia e fiquei muito grato. Mas essa minha decisão eu já venho amadurecendo há alguns meses bem antes da festa.
Ela se acomodou na cadeira continuando a me fitar.
- E se eu te mostrar algo que poderia te fazer repensar essa decisão?
- Como assim? - franzi o cenho sem entender.
Ainda sentada, ela se inclinou até a sua gaveta mais abaixo da mesa e eu ouvi um ruído que parecia ser um clique de uma chave. Em suas mãos havia uma pasta transparente com apenas uma folha dentro. Seus olhos percorreram o conteúdo por alguns segundos e em seguida voltaram-se para mim.
- Leia isso. - e me entregou.
Custei a acreditar do que se tratava o documento enquanto lia o que estava escrito.
- Isso é.
- Um abaixo-assinado feito pela turma 2A pedindo para que continue a dar aula aqui. Você confidenciou apenas a eles sobre a sua saída depois que terminaram a prova final.
Eu desabei no encosto da cadeira lendo cada detalhe do que eles estavam pedindo e logo abaixo do parágrafo principal, a assinatura de todos os alunos da turma. Incluindo a assinatura dela. O nome completo de uma verdadeira princesa, me forçando a engolir em seco.
- Eu leio e ainda não consigo acreditar - ri, apoiando o meu cotovelo no descanso da cadeira onde estava sentado, massageando minha testa de lado e passeando com os olhos pelas assinaturas.
- Frederik e Patrick vieram até a minha sala dois dias depois e me entregaram o documento - ela explicou - Confesso que fiquei muito comovida com o gesto pois, nestes anos todos que dirijo este colégio, nunca vi algo parecido dedicado a um professor.
Permaneci calado, sentindo minha cabeça dar um nó. Eu já estava com a decisão tomada e não podia negar que fiquei balançado com aquela demonstração de carinho.
- Eu não sei o que fazer... - balancei a cabeça ainda assimilando o que estava diante dos meus olhos.
- Posso te dar no máximo dez dias para que pense a respeito. Estamos no dia sete e o colégio encerrará as atividades administrativas no fim deste prazo, retornando em Janeiro no dia dois.
- Sim, eu entendo. - suspirei e lhe entreguei o documento de volta - Mas vou precisar menos do que isso.
- Está certo. - ela sorriu - Eles não cansam de te surpreender, não é mesmo?
- É...
- Pense com calma e retorne, mas caso mantenha a sua decisão eu vou respeitar. Apenas ficarei triste pensando nos vinte alunos que querem muito que você os veja se formarem no próximo ano.
- Eu volto aqui na sexta-feira neste mesmo horário.
- Perfeito. Está marcado.
Me levantei da cadeira, lhe estendendo a mão e ela retribuiu o cumprimento. Deixei a sala da Diretoria distraído, processando mais aquela surpresa dos meus alunos.
Me vi obrigado a repensar no que havia decidido e desta vez colocando um pedido tão especial naquela equação.
Ainda no carro e dentro do estacionamento do colégio, antes de dar a partida, fiquei pensando por alguns minutos no que deveria fazer. Meu celular vibrou dentro do bolso e aceitei a ligação pois já sabia que era ela.
- Oi.
- E aí, como foi?
- Você não vai acreditar no que aconteceu...
- Mudança de planos?
- É... Pode se dizer que sim.
- Tá legal, eu não moro em Gotham e o Charada nunca foi o meu personagem favorito, então vem aqui pra casa e me conta tudo.
- Tô saindo do colégio agora.
- Beleza. Vou ficar te esperando.
E desligamos.
***
Recostada, usando mais um dos seus blusões de mangas curtas quase do tamanho de vestidos e com as pernas esticadas em seu sofá cinza convertido em cama, Luciana me observava com uma tranquilidade perturbadora. Após ter contado à ela tudo o que aconteceu na reunião, eu fazia o mesmo esperando dela por uma resposta, um conselho ou até mesmo uma possível bronca.
Nada. Ela permanecia em silêncio abraçada a uma pequena almofada redonda da mesma cor do sofá.
- Você não tem nada pra me falar?
- Eu não tive um relacionamento amoroso com um aluno, Schneider...
- Isso não tem nada a ver com a Nívea!
- Sério mesmo que tu vai meter essa? Pra cima de mim? - mantendo o seu semblante sereno, ela disparou de forma ácida e eu bufei, tirando os meus óculos e esfregando os meus olhos em seguida - Se você está balançado por esse lindo gesto que os seus alunos fizeram, tudo bem, eu acredito. Agora fazer com que eu acredite que é APENAS por isso que você cogita voltar atrás é querer me tirar como idiota, né?
- Ela assinou o documento...
- Claro que assinou. Se não assinasse, ficaria feio pra ela perante a turma.
- É, eu também pensei nisso.
- Tudo bem, vamos lá - ela se ajeitou no sofá, ficando sentada em posição de borboleta ainda segurando a almofada - Vocês ficaram esse semestre inteiro separados, se vendo apenas em sala de aula e em ocasiões especiais entre os amigos em comum e os pais dela, certo?
- Certo.
- E está disposto a continuar assim por mais um ano letivo inteiro? Faça essa pergunta a si mesmo.
- Eu não consigo mais enxergar a Nívea apenas como minha aluna.
- Então admita o óbvio. Que você a ama e vai assinar a renovação do contrato por mais um ano, pensando nos seus alunos e nela.
- E ficar tão próximo sem poder tocá-la?
- Não se pode ter tudo, não é mesmo? Coloque um peso a mais nessa balança que são os seus alunos. Que o querem como professor deles principalmente por ser o ano da formatura. E estando consciente de que a Nívea fará parte disso.
Fiquei calado e refletindo por alguns minutos chegando à conclusão de que eu não poderia menosprezar o que os meus alunos fizeram após a minha conversa com eles sobre encerrar os trabalhos no colégio.
Nossas aulas se tornaram mais descontraídas depois do fim da postura que eu havia adotado no primeiro ano, eles se esforçaram e estudaram para tirarem excelentes notas nas provas... Por fim, me surpreenderam no dia que completei 36 anos e dias depois realizaram um pedido formal para que eu continuasse.
- Não acredito que vou voltar atrás em uma decisão - recostei minha cabeça no sofá, pensativo e olhando para o alto.
- Sempre tem uma primeira vez.
- E vou me preparando melhor pro dia em que eu irei vê-la pela última vez.
- Pense como uma forma de alento. Apenas ficar perto da Nívea.
- Não posso negar que também estou fazendo isso por ela...
- Não, não pode. - Luciana continuou a me olhar, negando com a cabeça, eu a encarei e acabamos por rir juntos.
Descobri que amar a Nívea também significava torcer para que, sendo minha aluna, ela fizesse um último ano escolar incrível e repleto de conquistas. Perto de mim fisicamente, porém, me via obrigado a deixar de lado o que eu sentia. Testemunhar a sua formatura seria o mínimo o qual o meu amor por ela teria o direito de receber.
***
- Fico feliz que tenha decidido continuar conosco, professor, mesmo que o próximo ano seja o seu último. Os alunos ficarão felizes.
Jacqueline e eu caminhávamos pelo corredor do colégio até a portaria onde o marido já a aguardava dentro do carro estacionado na calçada. A rua estava deserta e a maioria dos funcionários já tinha ido embora.
- Foi por causa deles que decidi continuar.
- E que tal se fosse a nossa vez em fazer uma surpresa? - segurando a sua bolsa, ela me propôs essa ideia - Vamos deixar para que eles descubram quando receberem os horários.
- Concordo. Vai ser divertido.
- Uma pena que este ano não estará no nosso almoço. Mas entendo que queira passar mais tempo perto da família.
- Consegui comprar as passagens para amanhã, então... Preciso aproveitar. - Paramos na calçada. - Mas volto na primeira semana de Janeiro.
- Aproveite bem! Nossa reunião será na primeira semana de Fevereiro, não se preocupe.
- Isso é ótimo.
- Mais uma vez eu agradeço. E como não vamos mais nos ver esse ano, lhe desejo um Feliz Natal e um Ano Novo de muitas conquistas.
- Obrigado. Eu desejo o mesmo a você.
Nos despedimos e esperei até ela entrar no carro e vê-lo descer a ladeira. Mesmo dirigindo aquele colégio com punhos de ferro, Jacqueline era uma boa mulher. E enquanto seguia para o meu carro no estacionamento fiquei me questionando como ela iria reagir se descobrisse que eu me relacionei com uma de suas alunas. No início, Luciana foi enfática dizendo que não perdoaria. Mas daquele dia em diante, eu não vivia em meio ao perigo porque não havia mais romance.
Suspirei e fui para casa. Precisava terminar de arrumar a minha bagagem e tentar dormir bem pois no dia seguinte eu teria uma motorista especial para me levar até o aeroporto.
***
A movimentação no saguão estava tranquila. Meu vôo estava programado para as onze e dez da manhã e, após despachar minha mala, Luciana e eu tomamos nosso café em uma das lanchonetes.
- Combinei com o Thomas que iria comprar os presentes de Natal em Florianópolis antes de pegarmos a estrada até Lages. - expliquei após dar um gole no meu achocolatado - Almoçamos por lá e fazemos tudo de uma vez.
- Isso é bom. Vou dar uma geral no seu apartamento antes do dia 24 - ela mordeu o seu sanduíche de atum e pôs a mão na boca enquanto mastigava - Combinei um valor com a minha faxineira e ela aceitou ir comigo pra me ajudar.
- Não quer mesmo o meu reembolso?
- Se perguntar isso mais uma vez, eu vou me ofender sério com você. Aceite como um presente a mais de Natal além daquele que já vou deixar embrulhado na sua mesa.
- E o meu presente, você vai receber em casa. Só te peço para ter cuidado com os meus livros e... - fiz uma pausa - Com a pelúcia em cima da cama.
- Eu sei. A coelha cor de rosa intocável.
- Foi o único presente que dei à Nívea até hoje...
- Tenta não pensar tanto nela. Eu sei que é difícil, mas todos esses dias ao lado dos seus pais e do seu irmão serão bons pra você.
- Eles pensam que eu me demiti do colégio.
- Não contou pra eles?
- Não.
- Uau... - ela arregalou os olhos e respirou fundo.
- Não temo pela reação mas sei que eles não vão gostar.
- Entendo... Bom. - ela olhou na tela do seu celular - São dez e meia, vamos?
- Vamos.
Terminamos de comer, pedimos a conta e fui para a área de embarque.
Havia uma fila de passageiros grande o suficiente para dar tempo de me despedir.
- Me promete que vai descansar? - Luciana me pediu abraçada à mim pelo pescoço.
- Prometo - mantive o abraço, acariciando a sua coluna e nos afastamos para então encaramos um ao outro.
- E que vai comer direitinho?
- Sim, Frau Marjorie - debochei, adotando o idioma da terra natal do meu pai.
- Seu bobo! - ela me deu um tapa no braço - Eu me preocupo com você, só isso!
- Eu sei. Pode não ser a minha mãe mas é a irmã mais velha que eu não tive.
- Exatamente. Quando desembarcar me avisa.
- Aviso sim. E obrigado por tudo.
- Serei grata se conseguir descansar. E nem pense que vai se livrar de mim totalmente, ouviu bem? Vou te ligar no Natal e no Ano Novo.
- Vou ficar esperando.
Dei um beijo no topo da sua cabeça e entrei na fila de embarque. Antes de passar pelo detector de metais, acenamos um para o outro uma última vez e pus minha mochila na mesa ao lado para vistoria. Não havia muita coisa, apenas o meu notebook, a bateria e um casaco de frio. Além é claro, da bateria do meu celular pois hoje em dia ninguém mais vive sem.
O vôo até Florianópolis foi tranquilo como sempre. Desembarquei bem na hora do almoço e meu irmão já me aguardava. Era sempre uma alegria reencontrá-lo.
Enviei uma mensagem para a Luciana dizendo que havia chegado e telefonei para os meus pais para avisar do desembarque e que estaria com eles em poucas horas. Escolhemos por comer no Macarronada Italiana, um restaurante localizado no centro da cidade. Mesmo estando cheio, conseguimos uma mesa e fizemos nossos pedidos.
- Vou querer espaguete ao molho branco - Thomas pediu e o garçom anotava - E um suco de abacaxi. Pode ser Eric?
- Pode. Te acompanho no suco e também vou de espaguete mas com o molho à bolonhesa.
- Certo - ele terminou de anotar - Com licença - E saiu. Meu irmão começou a me fitar com atenção.
- Não vai contar para eles? Sobre ter decidido ficar no colégio?
- Ainda não. Por enquanto...
- Papai não vai gostar nada em saber.
- Decidi continuar, pensando nos meus alunos também, Thomas.
- Eu sei, irmão, vendo por este lado eu não te condeno, foi louvável mas... Vai ser uma tortura pra você.
- Me conformo em ficar perto dela.
- Ela já viajou, não é?
- Sim, logo depois que as provas acabaram. Mas eu não quero pensar muito nisso.
- Faz bem - ele sorriu - Até porque você vai enfrentar o nariz torto do Herr Manfred. Se for mesmo contar.
- Vou esperar por alguns dias. Mas então? Como você e a Fernanda estão?
- Estamos bem. Juntando dinheiro e vendo sem pressa algumas casas pela cidade.
- Vão mesmo ficar em Lages?
- Vai ser melhor. Pra mim e pra ela.
- Que bom.
Não demorou muito até os nossos pedidos chegarem e o aroma das duas massas despertou a minha fome pois o café da manhã que eu tomei antes do embarque fora bem simples. Continuamos a comer e a conversar outros assuntos. Thomas me falava sobre o seu trabalho e uma possível chance de promoção no próximo ano.
Se acontecesse, o casamento dele aconteceria mais cedo do que o previsto.
Terminamos de comer e logo que deixamos o restaurante, fomos direto comprar os presentes. A capital já estava em clima natalino e dar um passeio por ela serviu para matar a saudade de quando éramos crianças e nossos pais nos levavam para a praia no Verão.
***
Era quase início da noite quando finalmente cheguei e fui recebido pelos meus pais. Ainda que estivesse cansado após quatro horas de estrada até a serra, procurei dar atenção a eles falando sobre a capital.
- Que bom que ficará mais tempo aqui, meu filho! - minha mãe não conseguia conter a alegria.
- Vai ser bom pra você, Sohn - meu pai sorrindo, do seu jeito contido de ser, concordava com uma das mãos no meu ombro - E depois de todos esses dias aqui, voltará para o Rio e tudo será como antes.
- É... - eu e o meu irmão nos entreolhamos rapidamente - Vai sim, Vati... Bom, vou desfazer a minha mala.
Peguei minha bagagem e fui para o meu quarto que estava limpo e arrumado. Dona Marjorie, como toda mãe, sempre pensando em tudo. Comecei a desfazê-la, colocando as roupas no armário. Só então quando terminei e relaxei, me deitando na cama, senti o quanto realmente estava cansado da viagem.
- Posso entrar, filho? - ouvi a voz da minha mãe junto das batidas na porta.
- Claro mãe, entra.
Ao me ver deitado, não conseguiu conter o sorriso de satisfação.
- Precisa de alguma coisa? - perguntou, se sentando na beira da minha cama.
- Não, obrigado. Estou bem.
- Seu pai e o seu irmão saíram e vão aproveitar para comprarem pizzas para o lanche agora de noite. Mas não vão demorar.
- Legal. Tô tentando me alimentar melhor mas por hoje eu aceito.
- Está mais tranquilo? - ela pegou na minha mão, fazendo um leve carinho e seus olhos azuis me fitavam com ternura.
- Pretendo ficar.
Mesmo quieta após ouvir minha resposta, tinha certeza de que a minha mãe queria perguntar algo sobre a Nívea mas talvez para me poupar, preferiu o silêncio sobre o assunto.
- Já sabe onde vamos passar as festas de fim de ano, não sabe?
- Na casa da Tia Mirtes como sempre.
- Exato! Já compramos alguns presentes.
- Eu comprei apenas o de vocês três mas depois eu compro o dela e o das minhas primas.
- Agora você tem tempo de sobra. - ela se levantou - Quando eles chegarem, eu te aviso.
- Quer ajuda na cozinha?
- Não, meu querido, obrigada. - e saiu, me deixando sozinho novamente - Apenas descanse.
A tranquilidade de passar os dias em uma cidade pequena possuía vantagens. Me dei a chance de me desligar de tudo o que podia lembrar da minha vida no Rio e isso incluia ficar pouco conectado no celular, mesmo tendo acesso à internet na casa dos meus pais.
Com uma semana naquela que seria para sempre a minha casa, além do descanso, procurei ocupar minha cabeça com outras coisas. Visitei parentes, comprei o restante dos presentes, passeava pelo centro da cidade e ajudava minha mãe com as tarefas domésticas. Tudo isso tendo a trilha sonora do cantor Eric Clapton no período da tarde. Isso me fez lembrar com saudade da minha vida antes de ir morar fora.
- Terminei de podar os arbustos no quintal - avisei entrando na cozinha pelos fundos da casa, com o corpo levemente suado, mesmo a temperatura daquela manhã estando agradável - Thomas está terminando de aparar o gramado.
- Tome um banho que o almoço já vai sair - minha mãe pediu enquanto estava atenta no fogão.
Fui direto para o banheiro e me livrei das minhas roupas, entrando debaixo do chuveiro morno.
Era impossível nesses instantes em que eu estava a sós comigo mesmo, não pensar na Nívea. Seriam dias e mais dias para me preparar em lidar com ela somente em sala de aula no próximo ano. Embora arriscada, foi uma boa decisão permanecer perto dela, mesmo que fosse uma vez na semana. O mais difícil seria saber e flagrá-la namorando com outra pessoa. Sentindo a água cair, bati de leve com a cabeça na parede para que aquela possibilidade saísse de dentro dela.
Não estávamos mais juntos. A partir de fevereiro ela será apenas a minha aluna e vou prepará-la para o vestibular.
Era esse o pensamento que eu precisava converter em um muro de proteção para o meu emocional.
Terminei o meu banho e, ao sair do banheiro enrolado na toalha, meu irmão entrou em seguida. Depois de trocar de roupa e voltar para a cozinha, meu pai já estava sentado à mesa esperando o almoço. Com os pratos, copos e talheres já postos, o aroma da comida chamou minha atenção.
- Com esse cheiro tão bom, os meus planos para o próximo ano de voltar a me alimentar bem, serão mais fáceis de se executar - brinquei ao puxar uma cadeira para me sentar.
- A costela assada com batatas sempre foi uma especialidade da sua mãe.
- Combina perfeitamente com o domingo, meus queridos. - ela pôs uma travessa de arroz no meio da mesa e logo em seguida uma menor com farofa - Thomas iria com a Fernanda para a casa da avó dela mas preferiu almoçar primeiro antes de ir encontrá-la.
- Ela podia ter almoçado aqui com a gente - comentei.
- É o aniversário da avó, Sohn.
- Ah sim. Faz sentido.
- Depois que almoçarmos eles vão se encontrar.
- Voltei, família! - meu irmão apareceu na cozinha com os cabelos molhados e enfim, se juntando a nós - Pode servir, mãe.
- Só estava esperando você.
Todos comiam tranquilamente. A comida da minha mãe estava tão deliciosa que fiz algo que não costumava fazer que era repetir o prato.
O comentário feito logo que me sentei à mesa seria uma resolução para o próximo ano: voltar a me alimentar melhor. Em toda essa rotina puxada de trabalho que adquiri, acabei me descuidando da alimentação e com o término do namoro com a Nívea ficou tudo ainda pior.
- Estava ótimo, mãe. - elogiei após deixar o garfo no prato vazio - Se eu repetir a terceira vez, vou passar mal.
- Sabia que iria gostar.
- Deixei a sobremesa no freezer, mãe. - Thomas comentou enquanto terminava de comer.
- Vou esperar vocês terminarem e trago pra cá.
Me levantei e tirei o meu prato, indo até a cozinha para lavá-lo. Não demorou muito e meus pais e meu irmão também terminaram e ajudaram a minha mãe a retirar a mesa, deixando espaço para a sobremesa. Me distraí enquanto Thomas trazia os potes e colheres para sobremesa e tomei um susto quando aquele pote quase retangular de sorvete de flocos congelado foi posto na minha frente.
- Aproveitei que o sorvete estava na promoção e comprei logo dois potes de dois litros.
Suspirei fundo, observando e me lembrando que aquele era o sorvete favorito da Nívea. Depois que reatamos após a nossa crise no início do ano, fazia questão de ter sempre no meu pequeno congelador.
Nas nossas noites de sábado juntos, era esse sorvete que adoçava ainda mais o nosso amor. Seja tomando juntos após algum lanche ou até mesmo lambuzando ainda mais os seus doces lábios antes de beijá-los.
- Não vai comer?
- O quê? - a voz do meu irmão fez com que as minhas lembranças com ela evaporassem - Vou sim - E comecei a me servir com a concha.
- Você ficou sério de repente...
- Impressão sua, mãe.
Me servi com duas bolas e comecei a comer me mantendo sério.
- Esse é o sabor de sorvete que ela gostava?
Não respondi à pergunta do meu irmão. O meu silêncio era a resposta.
- Ah, Eric, eu sinto muito... - a mão da minha mãe acariciou o meu pulso.
- Apenas me lembrei dela, só isso.
- Claro! - meu pai começou a se servir e entrou na conversa - Mas isso logo passa. Você teve várias namoradas, filho. Essa mocinha foi só mais uma.
- A Nívea não foi só mais uma, vati! - soltei o pote na mesa, sentindo o meu sangue ferver de raiva com aquele comentário - Não fale mais dela desse jeito. Estou te pedindo.
- Bom, até onde sabemos, foi ela quem terminou, não foi? Apesar de nova, ela teve sensatez e colocou um fim em algo que não tinha futuro.
- Manfred, por favor...
- O senhor não pensava assim no ano passado quando revelei pra vocês o meu namoro com ela. Seus receios eram sobre o risco de ela ser minha aluna.
- Digamos que as coisas mudaram.
- E o que mudou?
- Filho, não importa.
- Não, mãe! - rebati - Agora eu quero saber - olhava firme para ele. Meu irmão permanecia calado - O que mudou? Você fala como se a conhecesse.
- Conheço o suficiente para saber que jamais dariam certo. Ou será que mesmo sendo um homem adulto e estabilizado profissionalmente, você teria condições de pagar por todas aquelas viagens que essa jovem já fez pela Europa?
- É o quê? - o fitava incrédulo - Como sabe disso??
- Eu mostrei o Instagram dela para os nossos pais, Eric... - Thomas tomou a palavra - Perfil aberto de rede social... Não foi difícil... - E deu de ombros.
- E daí? Só porque a Nívea é rica, acha que ela é apegada a essas futilidades? Ou ela tem alguma culpa de ser bem nascida?
- Não, nenhuma. Apenas digo que ela jamais conseguiria viver ao seu lado depois de uma vida rodeada de viagens, luxo e conforto.
- O senhor não sabe o que está dizendo...
- Estou dizendo o que eu sei, a partir de tudo o que eu vi. E com certeza você também viu e de perto, frequentando a casa da família no papel de professor. O valor da mensalidade daquele colégio, o seu irmão havia comentado comigo e com a sua mãe. É praticamente uma faculdade particular de Medicina. Admita Eric, que você nunca iria conseguir dar à ela o mesmo que os pais são capazes de dar.
Tudo o que pude fazer foi ficar mudo após todas aquelas duras verdades que meu pai havia despejado. A primeira impressão de que a Nívea poderia ser uma patricinha fútil fora completamente descartada depois que eu conheci o seu jeito tão meigo e doce. Seu coração era tomado pela bondade.
No entanto, mesmo sendo de mundos diferentes, o nosso amor era tão intenso e verdadeiro que não havia espaço para esse tipo de questionamento entre nós. Nívea nunca se importou com o lugar onde eu vivia, com a profissão que escolhi... Muito pelo contrário. Se eu não tivesse aceito a proposta de trabalhar naquele colégio, jamais a teria conhecido. Era grato ao meu trabalho por ele ter a colocado no meu caminho.
- Não concordo com a dureza das palavras mas eu não tiro a razão do seu pai, filho.
- Você também? - encarei a minha mãe - Acha que a Nívea e eu não daríamos certo? - questionei e ela soltou um suspiro.
- Ela é uma jovem muito bonita, isso é inegável. Mas esse relacionamento foi uma insensatez.
- É óbvio que foi. - meu pai continuou com o sermão - Mas isso está devidamente corrigido. Eric não vai mais encontrá-la.
Thomas soltou um riso abafado.
- Acho melhor contar logo.
- Contar o quê? - meu pai olhava para nós dois.
- Vou continuar a dar aula no colégio.
- Como???
- Meu Deus...
- É isso mesmo o que vocês dois ouviram. Eu tive as minhas razões para continuar.
- Foi por uma boa causa, acreditem - meu irmão justificou, saindo em minha defesa - A turma da Nívea criou um abaixo-assinado pedindo para que o digníssimo filho de vocês continuasse a dar aula no próximo ano.
- Não acredito... - o semblante tenso da minha mãe se amenizou - É sério?
- É, mãe. E eu não podia deixar de retribuir o que eles fizeram.
- Eu gostei - meu irmão sorriu na árdua tentativa de afastar a nuvem negra que estava instaurada naquele fim de almoço.
- E você acha que foi uma boa ideia? - meu pai me perguntou firme mas sem o tom autoritário de minutos atrás.
- Pensei nos meus alunos.
- E isso inclui ela.
- Que seja.
- Se pensa mesmo em esquecer essa jovem, nós sabemos muito bem se isso foi ou não uma boa ideia, mas você é adulto... Saberá lidar com as consequências disso.
Olhei para algum ponto da mesa e senti a minha garganta e o meu peito apertarem. O aperto se transformou em lágrimas que rolaram pelo meu rosto sem que eu pudesse controlar. Era um choro que estava gritando para sair de dentro de mim há tempos. Me permiti chorar porque não estava aguentando mais. Ainda que eu estivesse longe, ao lado da minha família, era estúpido pensar que eu a esqueceria em um estalar de dedos.
Minha mãe se levantou vindo até mim e me abraçou, repousando o seu queixo no topo da minha cabeça deixando um beijo em seguida. Meu pai e Thomas apenas me observavam. Não havia nada a ser dito. A minha reação diante de toda aquela tensão já dizia tudo.
Mesmo com o término, eu nunca amaria outra mulher como amei a Nívea.
***
Com a porta aberta, o vento frio da manhã entrava pela cozinha enquanto eu terminava de fazer o café, colocando-o na garrafa térmica e deixando em cima da mesa. Era cedo o bastante para perceber o quanto que eu havia dormido pouco e não adiantaria muita coisa ficar rolando na cama por mais que não tivesse a necessidade em acordar cedo.
Ouvi uma movimentação na casa mas preferi ignorar. Fui para o quintal respirar o ar puro que há muito tempo não sentia, uma vez que morava em uma grande cidade.
- Não dormiu?
A voz do meu pai quebrou aquele silêncio matinal misturada à neblina.
- Dormi pouco. - respondi seco sem me virar - Como sempre.
- Deu pra notar. Ainda não são nem seis horas.
O silêncio novamente se manifestou até sentir sua mão no meu ombro me fazendo virar e o olhar em seus olhos.
Era como se eu estivesse me vendo daqui uns anos.
- Eu não deveria ter falado aquelas coisas. Eu sinto muito.
- Você não mentiu em nada, pai.
- Eu não conheço a jovem, você está certo.
- E tudo o que viu sobre a vida dela é verdade. Por fotos e vídeos, mas real.
- Eu me preocupo com você, mesmo não sendo mais nenhuma criança. E fiquei mais preocupado ainda nesses últimos meses.
- Eu sei - esbocei meio sorriso - Não vai ser fácil pra mim revê-la em sala de aula mas... Os meus alunos querem que eu continue.
- Foi um bonito gesto da parte deles. Mostra que você é bom no que faz - trocamos um profundo abraço - Que tal darmos uma caminhada? Sua mãe e o Thomas ainda estão dormindo.
- Boa ideia.
O clima daquela época do ano era de paz e harmonia então não havia motivo para que surgisse ressentimento entre eu e o meu pai. O que ele fez foi me trazer de volta à uma realidade que me rondava todo o tempo e que eu me recusava a enxergar porque estava ocupado demais desfrutando do paraíso ao lado de um anjo perfeito.
***
Na casa da irmã da minha mãe, tudo correu tranquilamente como sempre. A mesa da ceia de Natal estava repleta e o que chamou a minha atenção foram os queijos franceses geralmente servidos após os pratos principais. Vinhos, sobremesas... Meia noite a ceia fora servida e trocamos os presentes em seguida, deixando-os em volta da árvore de Natal que ficou abarrotada... Era um ambiente familiar incomum para alguém como eu que vivia sozinho há anos. Mas não me sentia mal por isso.
- Decidi estudar Nutrição, primo! - Maria Clara me contava feliz sobre a sua escolha acadêmica - Vou ter um ano inteiro para me preparar melhor e aí sim farei o vestibular.
- Isso é muito bom - assenti com a cabeça dando um meio sorriso - Que você tenha muita sorte.
Eu e ela estávamos sentados na varanda da casa toda enfeitada com pisca-piscas com vista para o enorme quintal cujo clima frio da noite nos obrigou a se proteger com casacos e blusas de manga longa.
A minha prima caçula estava deitada na rede perto de nós sem se importar com a conversa pois o que devia ter no seu celular era algo bem mais interessante.
- E você, Beatriz? Já pensou no que pretende estudar?
- Ainda acho cedo - Ela me respondeu com os olhos na tela - Vou começar o primeiro ano.
- Claro.
- Ela não tem nada na cabeça - a irmã sussurrou baixinho debochando - Só vive nesse celular.
- Normal. Meus alunos do ensino médio também são assim.
Após aquele considerável tempo de convivência em sala de aula, lidar com adolescentes não era mais um filme de terror pra mim.
- Quer sobremesa? - a mais velha se levantou - Vou pegar rocambole com aquela calda de chocolate.
- Não, prima, obrigado.
- Tá legal. - e seguiu em direção à mesa na sala de jantar.
Observei com certa curiosidade a minha mãe e o meu irmão vindo na direção do portão principal de madeira da casa, conversando algo, de braços dados e sorrindo.
- Por que não vai lá fora, filho? Tem uma pessoa que quer muito rever e falar com você. - podia ver um certo brilho nos olhos da minha mãe que me fez estreitar o olhar.
- Quem?
- Uma amiga da nossa família que se tornou Pediatra - Thomas respondeu - Não é difícil de adivinhar. Esqueceu que os pais dela moram aqui perto da nossa tia?
- Isabela está aqui?
- Seu pai está conversando com ela. Vai lá e não se espante quando vê-la.
- Por que?
- Vai logo! - meu irmão me puxou pelo braço no que eu me levantei - E para de fazer perguntas.
Segui caminhando pelo gramado úmido causado pelo orvalho da noite, sentindo o vento congelante cortando o meu rosto, sem acreditar que iria revê-la após tantos anos. Ao puxar o portão de madeira na minha direção, ela estava ali. Usando um vestido verde escuro de mangas longas, coberto por um poncho em tricô da mesma cor e meia calça preta com sapatos fechados sem salto algum. Embora tivesse a minha idade, o rosto e os belos traços da Isabela não haviam mudado tanto desde a nossa última vez juntos.
Quando nos despedimos dias antes da minha mudança para a França.
Após isso, nosso contato se limitou através das redes sociais. Pude acompanhar de longe por emails e fotos, sua aprovação na faculdade de Medicina que ela tanto sonhava, a formatura e também os momentos de sua vida pessoal.
- Eric? - seus olhos verdes vibrantes se voltaram na minha direção, interrompendo a conversa que estava tendo com o meu pai - Meu Deus... - ela sorria emocionada.
- Vou deixá-los à sós - meu pai me deu um leve tapinha no ombro, voltando para dentro da casa.
Foi impossível conter o sorriso ao vê-la tão radiante. Me aproximei e com certa dificuldade trocamos um longo abraço. O perfume em seus cabelos loiros e lisos, um pouco acima dos ombros, era o mesmo.
- Já tem muito tempo... - depositei um beijo nos fios e nos afastamos para que eu pudesse vê-la melhor, ainda que fosse noite.
- Pois é - ela riu - Tempo demais - Pôs a mão na própria barriga e acabei não resistindo, repetindo o gesto por cima.
Isabela estava grávida. Era a razão para a escolha das roupas tão aparentemente confortáveis que usava.
- Quando nasce? - perguntei mantendo minha mão por cima da dela.
- Em Abril. Descobrimos o sexo no início do mês. Outra menina mas ainda não escolhemos o nome.
- Fernando deve estar contente. A sua filha mais velha também.
- Ah, a Bianca está amando! Entra todo o dia no quarto da irmã querendo saber e ver se compramos algo novo pra decoração.
Ela e o marido se conheceram ainda na faculdade quando estudavam Medicina. Depois de formados, eles se casaram e um tempo depois ela engravidou da filha mais velha, hoje com seis anos.
- Tomei um susto quando descobri a gravidez pois como acontece na maioria das vezes não foi planejada.
- Não vi fotos suas, por isso estou surpreso.
- É, vou postar agora na virada do ano. A minha família e a do Nando e alguns amigos nossos já sabem, por isso evitei fazer alarde em rede social.
- Fez muito bem.
- Mas e você?
- Estou indo. Na medida do possível.
- Meu contato com o Thomas ainda é bastante próximo. Meu consultório fica no mesmo bairro onde ele trabalha.
- Lamento por isso. - rimos - Não bastava ele perturbar a nós dois quando você ia lá para casa e agora também.
- Ele sempre foi mais bem humorado do que você, é diferente.
- Claro, os caçulas sempre são os melhores em tudo - falei em tom de deboche.
- Mas não foi por uma personalidade bem humorada a qual eu me apaixonei aos catorze anos.
- Porque você sempre teve muito bom gosto.
- É, e pelo visto você não mudou nada.
- Acredite, eu mudei. Nesses últimos tempos fiz coisas que jamais pensei que faria. Quebrei tabus.
- Eu sei. Seu irmão conversou comigo.
- E pelo visto as notícias correm rápido.
- Eric, você apenas seguiu o seu coração. Mas um relacionamento nos moldes que viveu está exposto a muitos riscos. E eu sei que já deve ter ouvido o mesmo que está ouvindo agora.
- Um bocado.
- Entretanto, não se arrependeu de nada do que viveu, tenho certeza. Como não se arrependeu de seguir em frente para chegar à Sorbonne, desistindo de nós dois.
- E eu muito menos de te fazer desistir da tão sonhada aprovação na Universidade Federal do estado e ir comigo para a França.
Ela deu de ombros e sorriu.
Éramos adolescentes vivendo um sentimento novo que, apesar de intenso, era imaturo. Quando chegamos na reta final do Ensino Médio, nos vimos diante de caminhos diferentes a serem feitos e que nos levaram a pôr um fim no namoro, sem brigas e ressentimentos.
- Ano Novo vai passar aqui?
- Vou para a casa dos meus sogros. Eles moram em Camboriú e vamos ver a queima de fogos de frente para a praia.
- Mais perfeito impossível.
Vi um homem da minha mesma altura se aproximando de nós e eu o reconheci na hora.
- Como vai, Eric? - ele me cumprimentou com um aperto de mão firme e fiz o mesmo.
- Vou bem Fernando, obrigado.
- Aproveitei que a Bia dormiu e vim te buscar - ele encarou a esposa colocando uma mecha do seu cabelo atrás da orelha.
- Obrigada - ela lhe deu um selinho e se voltou para mim - Preciso ir. Minha vez de descansar.
- Concordo.
- Foi um imenso prazer revê-lo.
- O prazer foi todo meu.
- E caso queira resolver assuntos do coração, converse com este cardiologista aqui - cutucou o marido e nós três rimos - Quem sabe ele te ajuda?
- Na forma física sem dúvidas.
Troquei um último abraço com ela junto de bons votos de virada de Ano e observei os dois indo embora de mãos dadas, virando a esquina.
Um sentimento de bem estar cresceu dentro de mim em saber o quanto ela estava feliz e realizada na vida profissional e pessoal.
Infelizmente eu não desfrutava de tamanha e total felicidade.
***
Eram duas da manhã e de dentro do meu quarto, deitado na cama eu ainda podia ouvir o barulho da queima de fogos de artifício. Alguns mais próximos, outros nem tanto.
Passei a virada de ano no centro da cidade ao lado da minha família vendo o espetáculo dos fogos mas não virei a madrugada pelas ruas.
"Feliz Ano Novo, amigos!"
"Um Ano Novo repleto de realizações para todos vocês!"
"Desejo um novo ano repleto de muita Paz e saúde para todos nós!"
Somente quando voltei para casa que eu finalmente parei para ler por alto todas as mensagens em forma de textos, imagens e gifs coloridos nos grupos da faculdade e do colégio além de outras de modo privado.
Consegui realmente ficar longe de internet por vários dias somente enviando mensagens de Natal para todos de modo geral e fiz o mesmo no Ano Novo entrando em contato direto apenas com a Luciana.
- Feliz Ano Novo Dona Chata! - brinquei no mesmo instante em que ela atendeu e riu.
- Pra você também, meu amigo! Amei o meu presente de Natal, recebi no dia 22. Falei que ia te perturbar mas achei melhor te deixar quietinho. Quase não te via online.
- É, achei melhor.
- Como você está?
- Tô bem, já estou em casa. Descansando como você me pediu.
- Que bom ouvir isso. Você nem imagina, a casa aqui em Búzios tá uma loucura. Dez amigos conseguem fazer uma bagunça das boas.
- Você está se divertindo, isso é o que importa.
- Já estamos planejando voltar para cá no Carnaval, quer se juntar com a gente?
- Pode ser. Vou pensar até lá.
- A casa aqui é boa, muito bem estruturada. Você vai gostar.
- Vamos ver.
- Deixa eu ir lá, tô aqui no meu quarto e vou descer. Tô ouvindo daqui a galera se jogando na piscina.
- Tá bom. Só te liguei pra te desejar o mesmo de sempre entre dois bons amigos. Um Feliz Ano Novo.
- Obrigada. Te desejo o mesmo. Um beijo super apertado nesse seu rosto barbudo - e como sempre me fazendo rir.
- Outro pra você.
Continuei a ler as mensagens e o incômodo aperto no peito já conhecido surgiu. Acabei não resistindo e fui em determinado perfil. Nívea postara uma foto ao lado de toda a sua família na França na noite de Natal e, nos destaques novos, momentos dela em Lyon em especial no Festival das Luzes que sempre acontece no início do mês de Dezembro na cidade. Foram as suas últimas atualizações. Na foto, os avós e a priminha caçula estavam sentados no sofá, seus pais e seus tios em pé atrás deles e ela ao lado dos dois primos sentados no chão. Ao fundo a árvore de Natal grande e repleta de luzes pisca-pisca. Tipicamente uma família no estilo do filme "Esqueceram de Mim."
Tão linda como sempre com o seu sorriso fechado cujos lábios macios e vermelhos sempre se mostravam em evidência. Ela parecia feliz ao lado da família.
Minimizei a tela e busquei o contato do Felipe no Whatsapp. Assim como a maioria, ele estava online.
- Feliz Ano Novo, rapaz!
Imediatamente meu telefone tocou. Era ele me retornando e aceitei a ligação na hora.
- Alô.
- E aí, Eric? Tudo bom? Feliz Ano Novo pra você também!
- Obrigado. Você tá aonde?
- Tô aqui em Curitiba, né. Natal e Ano Novo é de lei passar as festas na casa da irmã da minha madrasta.
- Do meu lado então. Tô na casa dos meus pais em Santa Catarina.
- Legal, cara.
- Você ou a Melissa falaram com a Nívea? - definitivamente eu era um completo imbecil em perguntar tão diretamente. Fiquei parecendo um desesperado atrás de notícias dela.
- Ah, então... Ela... Ela fez uma vídeo chamada pra gente no início da noite do dia 24. Lance de fuso você sabe né? Era meia noite na França.
- Aham, sei como é. Eu vi a foto que ela postou com a família.
- É...
Senti sua voz hesitante após esse meu comentário e um pequeno silêncio constrangedor se formou na ligação.
- Tá tudo bem, Felipe?
- O quê? Tá, tá tudo bem sim! Agora na virada foi a mesma coisa. Também falamos com ela.
- Que bom. Então ela está bem?
- Tá sim... Você volta quando pro Rio?
- Volto no domingo dia nove.
- Ah... Que bom... Quando você voltar, vamos combinar de fazer alguma coisa. Pode ser aquela pizza de sempre lá em Ipanema.
- Claro, combinado.
Mais uma vez se fez o silêncio.
- Está tudo bem mesmo? Você parece estranho...
- Eu tô legal - ele riu - Acho que o champagne meio que tá fazendo efeito.
- Entendi...
- A Mel tá aqui mas não quer falar com você. Tá te desejando um Feliz Ano Novo só não quer falar diretamente.
- Desejo o mesmo pra ela e para os seus pais também.
- Ela também tá falando que por mais que tenha sido estúpido com a Nívea, não consegue sentir raiva de você.
- Fala pra ela que o coração gigante que ela possui impede isso.
- Eu falo, sim. Mas aí é isso. Chegando no Rio, tu me avisa.
- Aviso, pode deixar.
Nos despedimos e encerramos a ligação.
***
Fiquei quase um mês com a minha família. Sem o Thomas em casa, trabalhando e após as festas de fim de ano a rotina se mostrava ainda mais tranquila. Tranquilidade essa que começava a me deixar um pouco incomodado, sinalizando que chegava a hora de voltar para o Rio.
- Não vou te pedir pois sei que não vai ficar mais tempo conosco - minha mãe comentava e me observava enquanto eu colocava algumas roupas na minha mala, adiantando deixá-la pronta antes de embarcar no domingo.
- O ar puro da serra me fez bem, mas já estou sentindo saudade do Rio.
- Eu te entendo. Amanhã é sábado, podíamos sair nós quatro pra jantar como despedida, que tal?
- Como você quiser. - sorri.
- Vou falar com o seu pai - ela me deu um beijo no rosto e saiu do quarto.
Ouvi meu celular tocar e vibrar em cima do meu gaveteiro de madeira e parei o que fazia para ir atender. Fiquei surpreso por ver o nome da Luciana na tela.
- Você disse que ia me deixar quieto - falei com sarcasmo assim que atendi.
- Schneider, desculpa, mas desta vez é sério - a voz dela estava alterada e acelerada - Quando você volta??
- No domingo.
- Tem certeza??
- A passagem está comprada e guardada na minha mochila - respondi calmamente - O quê que você tem? Tá nervosa?
- Graças a Deus você volta a tempo. Recebi o e-mail e o comunicado da Reitoria no grupo. A reunião do semestre foi adiantada pra segunda-feira.
- Sério? Mas não ia ser na última semana do mês?
- Exato! Eu não sei o que deu na cabeça do Reitor pra adiantar. Tá um quebra pau aqui no segundo grupo dos coordenadores, sem ele e o vice-reitor. Pessoal tá cuspindo fogo de ódio. E no nosso grupo da equipe de professores, nem preciso falar nada.
- Eu silenciei os grupos por esses dias por isso não li e não soube. Que merda... Mas eu vou chegar a tempo.
- Ótimo! Entrei em contato com você pra saber e agora fico mais tranquila. A parte boa é que os coordenadores imploraram e ele aceitou marcar as reuniões entre cada coordenação e equipe para três horas da tarde. E vai ser bom porque teremos mais dias pra montar a grade de horários com calma.
- Isso é verdade.
- Era isso. Desculpa te ligar assim mas era importante.
- Sem problemas.
- Tranquilo por aí?
- Até demais. Já estou sentindo falta do Rio.
- Com certeza - Ela começou a rir - Tá ótimo então. Nos vemos segunda-feira no Campus.
- Tá bom, abração.
Despedidas, mais tempo juntos em família incluindo o jantar na noite de sábado. Foi assim os meus dois últimos dias antes de embarcar de volta, chegando em casa pouco depois de uma hora da tarde de domingo.
Sabia que a Luciana havia estado no meu apartamento não apenas por causa do presente deixado na minha mesa mas porque o cheiro de limpeza parecia ser recente.
Deixei minha mochila no lugar de sempre e a minha bagagem pelo chão.
Abri o embrulho e me surpreendi ao ver As Flores do Mal de Baudelaire junto de um cartão de Natal. Era uma edição rara no idioma francês a qual eu já queria comprar há um bom tempo.
Cheguei na cozinha, tudo na mais perfeita ordem e vi um bilhete grudado na porta da geladeira.
Comida pronta no congelador para uns três dias. É só esquentar. Beijos.
Quando abri, eram seis as pequenas marmitas transparentes com saladas coloridas, carne e frango. Suspirei e sorri. Não precisaria ir ao mercado.
***
Cheguei pontualmente no horário e na sala de aula cuja reunião fora marcada. A equipe do curso de Letras era razoavelmente grande pois além de Literatura, englobava as licenciatur
Sua imaginação também tem espaço aqui.
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