Amor probido 4 a chuva de agosto

Por: landa-epta-2 15/07/2026 1236 leituras
Capa do conto

Agosto chegou trazendo chuvas finas que encharcavam os caminhos de terra e deixavam a roça coberta por um verde novo. Antônio gostava daquele tempo. Dizia que a chuva lavava não apenas a terra, mas também as tristezas que insistiam em ficar.

Numa tarde, Miguel apareceu correndo na varanda.

— Pai! A ponte do riacho caiu!

Antônio largou a enxada e foi ver o estrago. A correnteza havia levado parte da passagem de madeira. Sozinho, levaria dias para reconstruí-la.

Como sempre, João apareceu antes mesmo de ser chamado.

— Soube do que aconteceu. Vim ajudar.

Os dois passaram horas serrando tábuas, levantando vigas e prendendo os esteios. Trabalharam quase sem falar. A convivência de tantos anos havia ensinado que nem todo silêncio era vazio.

Quando terminaram, a chuva voltou com força.

Refugiaram-se no pequeno rancho onde Antônio guardava ferramentas. A água batia no telhado de zinco, abafando qualquer som do lado de fora.

João olhou para as próprias mãos, marcadas pelo trabalho.

— Às vezes eu penso que Deus escreve caminhos que a gente nunca entende.

Antônio permaneceu olhando a chuva.

— Eu também.

As palavras ficaram suspensas entre eles, sem que nenhum dos dois ousasse dar o passo seguinte.

Em casa, Helena preparava um caldo quente. Ao ver os dois chegando encharcados, sorriu.

— Vocês parecem dois meninos que esqueceram de voltar antes da tempestade.

Miguel e Davi correram para abraçar o padrinho, felizes por vê-lo mais uma vez.

Helena serviu o jantar enquanto observava a alegria das crianças. Pela primeira vez, percebeu algo diferente.

Não era um gesto, nem uma palavra.

Era o modo como João e Antônio se procuravam com os olhos antes mesmo de falar. Como um entendia o outro sem explicações.

Ela afastou esse pensamento.

"São amigos desde pequenos", repetiu para si mesma.

Mas, naquela noite, enquanto João dormia, Helena permaneceu acordada, olhando a chama fraca do lampião.

Pela primeira vez, uma dúvida silenciosa atravessou seu coração.

E ela não sabia se tinha coragem de buscar a resposta.

Sua imaginação também tem espaço aqui.

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