Depois do beijo

Por: felipe-363 • 09/07/2026 • 489297 leituras
Capa do conto
A cidade ainda vibrava lá fora, com os ecos abafados de motores e vozes que se perdiam nas ruas molhadas. Lara subiu devagar as escadas do prédio antigo onde morava, com o corpo ainda leve do riso que havia compartilhado com ele. O namoro era novo — cheio de hesitação e promessas. No portão, o beijo fora rápido, mas deixara nela uma vertigem que parecia pulsar sob a pele.
No apartamento silencioso, a penumbra do quarto a envolveu como um lençol morno. Havia no ar o perfume do perfume dele, ainda impregnado no casaco. Ela o pendurou distraída, e o gesto simples pareceu abrir dentro dela um vazio cheio de presença — a lembrança do toque, o som abafado da respiração dele quando se despediram.

Lara foi até a janela. As luzes dos prédios refletiam-se no vidro, e ela se viu dupla: a estudante comum, cansada de uma sexta-feira longa, e a outra, desconhecida, que a observava do reflexo com um olhar que não costumava ter. Um olhar faminto.

Encostou a testa no vidro frio e fechou os olhos. Era como se o corpo tivesse aprendido outra língua, feita de lembranças recentes — o toque acidental dos dedos dele, o calor que ficara nos lábios. Sentia-se desperta e ao mesmo tempo perdida.

Foi até a cama, sentou-se, e o silêncio pareceu engrossar. Cada ruído da rua — um carro distante, o riso de alguém — vinha como um lembrete do mundo que continuava lá fora, indiferente à sua inquietude. O relógio piscava 2h47.

Lara deitou-se, as mãos entre os lençóis, e deixou que a mente vagueasse. Não havia pressa, nem culpa, apenas uma onda lenta de sensações, um diálogo mudo com o próprio corpo. O desejo não era mais dele, era dela — inteiro, solitário e luminoso.

Quando finalmente o sono veio, trazia um resquício de sorriso. Lá fora, a cidade já preparava o amanhecer.

Sua imaginação também tem espaço aqui.

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