Fuga, uma solução para questões irremediáveis

Por: carla-55 • 10/07/2026 • 485858 leituras
Capa do conto
Fuga, uma solução para questões irremediáveis

O imenso navio de cruzeiro deslizava devagar para fora do porto de Southampton na confluência dos estuários dos rios Test e Itchen deixando o terminal de passageiros, de onde os acompanhantes dos turistas embarcados ainda acenam numa despedida prolongada, a poucos dias do último dia do ano. Do convés, eu observava e cena desprovido de qualquer emoção, era como se eu as tivesse perdido devido aos últimos acontecimentos. Eu passaria os próximos 29 dias a bordo, no que já considerava um desatino. Nunca fui dado a rompantes, a tomar decisões impensadas, o bom-senso sempre me norteou os passos, o que eu estava fazendo a bordo daquele navio sem ter dado nenhuma explicação a quem quer que fosse? Não havia uma resposta a essa pergunta. Não uma racional, e quem sabe, nem mesmo uma baseada nos sentimentos que estavam me perturbando.
Nem mesmo a reação do Piers quando voltasse da casa dos pais em Doncaster onde foi passar o Natal, e não me encontrasse em casa, era algo que me tiraria daquela catatonia imobilizante. Era como se o ontem já fizesse parte de um passado muito distante, que não despertava mais nenhuma reação ou sentimento. Em meu peito, no lugar do coração, parecia haver um bloco de gelo; quando há questão de duas semanas fervilhava dentro dele um amor incondicional e maior que o próprio universo.
- Achei o Piers tão estranho quando me despedi dele esta manhã. – confidenciei à Zara, uma amiga de infância que estava morando temporariamente conosco.
- Estranho como?
- Não sei! Faz alguns dias que ele está assim, talvez esteja tendo problemas no trabalho e sabe como ele é, quer sempre me poupar de tudo. – respondi. A conversa parecia estar perturbando a Zara.
- É, é bem possível!
- Sempre fazemos amor na véspera de um de nós ficar uns dias longe, mas quando o procurei ontem à noite, ele se esquivou, disse que estava cansado e precisava estar descansado para enfrentar a estrada hoje.
- Sabe como são os homens, difíceis de entender! – retrucou ela.
- Claro que sei, sou homem e não há nada de difícil de entender em nós! – devolvi
- Você entendeu o que eu quis dizer!
- O Piers não é de agir assim! Sei que ele não estava nem um pouco animado para passar o Natal na casa dos pais, isso se tornou um tormento para ele quando não aceitaram o nosso relacionamento, acusando-o de estar se relacionando com um pervertido. Eles ainda são daqueles católicos tradicionalistas fanáticos que enxergam o pecado em tudo aquilo que presenciam fora das pregações dos padres. Para eles, eu sou o diabo personificado que veio atentar o filho deles para conduzi-lo ao inferno através de coitos blasfêmios. Eu nunca os digeri, especialmente o pai, um sujeito asqueroso que dá em cima das mulheres sem o menor pudor, e se faz de devoto fervoroso dos ensinamentos cristãos. Um pulha. – argumentei.
- É vai ver é isso! – devolveu ela.
Eu quase ia mencionar que ela também andava meio esquisita nas últimas semanas, mas me calei porque sabia que era pouco receptiva a críticas, e logo se fazia de vítima encenando um dramalhão. A Zara e eu nos conhecemos na adolescência, estudávamos no mesmo colégio quando eu era o garoto mais tímido da classe por já desconfiar que não era igual aos demais garotos, mas que era gay. Eu só tinha um amigo na escola, o Joey, um garoto que morava a poucos quarteirões da minha casa e era órfão de mãe. Eu sempre desconfiei que ele era meu amigo mais por conta da minha mãe do que propriamente por mim, pois ela o tratava com o mesmo carinho que tratava a mim e ao meu irmão. Isso sem mencionar que ele era tarado por doces e bolos, e minha mãe sempre o chamava quando fazia algum, ou lhe mandava um pedaço através de mim.
- Amo sua mãe, cara! Ela é muito boa nisso, insuperável! – exclamava ele, quando engolia afoitamente algo que ela havia preparado.
Naquela época a Zara era uma garota meio balofa, usava umas roupas largas que a faziam parecer mais gorda do que era na realidade, afora o gosto duvidoso das estampas florais enormes e dos acessórios coloridos que usava. Apelidaram-na de árvore de Natal por conta desses exageros, e nenhuma outra garota queria ser vista ao lado dela, para não espantar os garotões metidos a machos que, movidos pela testosterona recém-adquirida, perseguiam as vaginas como cães farejadores. Para mim pouco importava se uma garota era magra ou gorda, tinha peitos grandes ou pequenos, era insossa ou gostosona, era uma garota e isso já era o suficiente para eu não me interessar. Ao contrário de mim, a Zara era atirada e extrovertida, sabia que a achavam feia, e isso alimentava seu rancor contra tudo e todos. A estrutura familiar desfeita com o divórcio litigioso dos pais também influenciava seu comportamento. Para ela todo homem era um cafajeste e toda mulher uma puta.
Eu era como um bichinho para ela, que podia ser o centro de suas atenções em troca de algum afeto desinteressado. Foi isso que nos tornou amigos. A primeira pessoa para quem contei que era gay fora da minha família foi ela. Isso não a impressionou, na verdade, quem se espantou com a indiferença dela fui eu, pois pensei que deixaríamos de ser amigos depois que contei. E assim fomos crescendo e trocando confidências. Ela me perguntava quando eu deixar de ser virgem, que aos 19 anos já tinha passado do tempo, feito uma maçã apodrecendo no pé.
- As bocetas encruam quando não são usadas, com o cu deve acontecer o mesmo; no dia em que você decidir dar esse rabão privilegiado que Deus te deu, já vai estar feito uma uva passa, nem pinto murcho de velho vai querer entrar aí. – argumentava a safada, especialmente depois que entregou a virgindade a um motorista de caminhão que vinha do interior duas vezes por semana descarregar a carga no supermercado do bairro onde morávamos.
- Você não presta, mente suja! – retrucava eu, incomodado com os disparates que ela proferia, particularmente em relação a minha bunda e ao fato de continuar virgem e com medo de tudo que fosse rapaz ou homem que me encarava cheio de tesão.
- Você devia ser padre! Não gosta de mulher, não usa o pinto, e não sabe o que fazer com o cu. Melhor rezar ao lado das beatas, ao menos estaria fazendo algo de útil. – sentenciava ela, quando queria implicar comigo, o que era um de seus passatempos preferidos.
Não sei porque eu a amava e a deixava falar essas barbaridades sem me deixar melindrar. Eu já havia assimilado que a Zara era assim, e ponto. Não demorou muito para a mãe a expulsar de casa depois que enfiou um novo macho no lugar do pai dela dentro de casa. O convívio entre ambas se tornou insustentável, ela foi morar com uma amiga solteira um pouco mais velha e começou a trabalhar numa empresa de importação e exportação, o que bancava seus gastos. Enquanto eu seguia meu caminho perseguindo uma formação acadêmica e uma carreira sólida, ela flutuava ao sabor da maré sem um objetivo definido. Estava sempre endividada, estava sempre metida num relacionamento tumultuado, estava sempre precisando da ajuda dos amigos para seguir em frente. Por sorte, se é que se pode chamar assim, ao se tornar adulta adquiriu um corpo esguio e sedutor que, não como na adolescência afugentava os garotos, mas atraía os machos como moscas no mel. As amizades dela vinham e iam na mesma velocidade de seus atos impensados, que deixavam um rastro de pessoas magoadas pelo caminho. Eu continuava o único amigo fiel no qual ela podia confiar nos eternos momentos difíceis pelos quais passava, fosse para apenas choramingar suas mágoas nos meus ombros, fosse para me pedir dinheiro emprestado, ou fosse para saber que ao menos alguém ainda se importava com ela.
A Zara veio me pedir asilo havia uns quatro meses, depois que o último namorado, um personal trainer de academia bombadão que tinha mais músculos do que cérebro a trocou por uma cliente e a colocou para fora do muquifo onde moravam. O Piers torceu o nariz quando lhe dei a notícia, a nossa amizade era algo que ele não via com bons olhos, mas para não me contrariar aceitou que ela viesse se alojar no quarto de hóspedes.
- Você a avisou que é por pouco tempo, Edric? Se não avisou, avise; sabe que ela gosta de se encostar nas pessoas sem a menor cerimônia. – disse ele quando lhe comuniquei.
- Sim, eu disse que seria temporário! Coitada, que custa dar uma força? Ela está sem emprego outra vez e, sem aquele cafajeste, não deve estar sendo fácil para ela. – retruquei.
- Não sei se você já percebeu, mas ela sempre está sem emprego e sem ter para onde ir depois que um malandro qualquer dá um pé da bunda dela. Sabendo que você é um bom samaritano, toda vez ela vem choramingar as desgraças dela no seu ombro e você se deixa comover e resolve os problemas que ela deveria resolver, afinal é uma mulher adulta e sabe o que está fazendo. – eu já previa esse sermão do Piers, e sabia que bastava deixá-lo excitado e gozar algumas vezes no meu cuzinho para ele se esquecer de tudo. – Caralho, Edric, com essa mulher aqui dentro de casa perdemos toda a liberdade. Vou ter que ficar me policiando toda vez que quiser te dar uma enrabada, que saco! – eu ri, fui até ele, acariciei seu rosto hirsuto e o beijei, enquanto acariciava o benga dele sob a calça. – Está vendo, é disso que estou falando! Quando vai poder fazer isso se ela estiver aqui dentro?
- Juro que não vou deixar você e esse pauzão sem meus devidos cuidados. Eu te amo, seu bobão carente! – ele riu e me deu um tapa estalado na bunda. Era sua maneira de concordar com a vinda da Zara para a nossa casa.
Como o Piers foi passar o Natal com os pais e eu ia para a casa dos meus num bairro próximo, resolvi não montar uma árvore da Natal naquele ano. Propositalmente não perguntei à Zara onde ela passaria o Natal, e nem fiz menção de convidá-la para vir comigo à casa da minha família. O Piers estava certo, ela era uma mulher adulta e precisava dar um rumo na vida sem a constante ajuda dos outros.
O Piers só estaria de volta para o Réveillon, tínhamos combinado com uns amigos de festejar a passagem do ano num hotel em Londres mesmo. Com o Natal se aproximando, dava para perceber que a Zara queria me falar alguma coisa, mas estava ensaiando há dias. Eu nem tocava no assunto, pelo motivo que já expus.
- Preciso te contar uma coisa! – começou ela, numa manhã durante o café, antes de eu seguir para o trabalho. Eu já esperava pela ladainha de – vou ficar sozinha e abandonada na noite de Natal e, mais isso e mais aquilo – quando ela despejou a novidade. – Estou grávida! – soltou, me encarando.
- Que maravilha, Zara! Uau, é fantástico! Quero ser o padrinho, nem me venha com desculpas! De quantos meses está? Não se percebe nada! Zara, minha amiga, vem cá deixa eu te dar um abraço! Parabéns! – eu fiquei tão feliz como se o pai fosse eu. Era a primeira vez que alguém tão próximo e querido ia ter um filho.
- É, é bem legal! Entrei no quarto mês. – respondeu ela
- Por que não me disse nada antes? Sabe que eu sempre torci pela sua felicidade! Então foi pouco antes de você se mudar para cá, pois está fazendo mais ou menos quatro meses que você veio morar conosco. Você já contou para o ..., como é mesmo o nome do bombadão, o mister músculos sem cérebro?
- Já, já falei com ele!
- E como foi que ele reagiu? Não me diga que ele se fez de sonso e não vai assumir essa criança, que eu mesmo vou lá e dou uns cascudos naquele troglodita. – afirmei
- Não, foi numa boa! Ele não disse muita coisa, ficou feliz, eu acho.
- É bom mesmo ele nem pensar em cair fora. Ele precisa te ajudar a criar essa criança, Zara! Não dá moleza não! Esses caras acham que é só ir metendo o pinto em tudo que é buraco e não se responsabilizar pelas consequências. – proferi naquele dia, como se coubesse a mim julgar as atitudes alheias.
- Sim, sim! Ele vai ajudar.
- Não te sinto tão animada, você devia estar nas nuvens! Ter um filho é uma das melhores coisas que podem acontecer em nossas vidas, não acha? Por que não parece feliz? – questionei.
Ela olhou para mim, as lágrimas começaram a descer pelo rosto dela e eu fui abraçá-la, pois sabia de seu histórico e de que nunca teve um lar onde se sentisse segura.
- Você é a melhor pessoa que existe, Edric! Eu não queria, mas você vai me odiar. Eu juro que não queria que isso acontecesse, Edric! – balbuciava ela no meio do choro.
- Quem te odiaria, Zara? Estar grávida não faz as pessoas gostarem menos de você!
- O Piers também pode ser o pai dessa criança! – o copo que estava na minha mão cheio de suco se espatifou no chão.
Olhei fixamente para a Zara imaginando que não tinha ouvido o que entrou pelos meus ouvidos. Ela olhava para mim com uma expressão imparcial. Ela deve ter trocado o nome do Piers pelo do bombadão, foi o que pensei, enquanto reinava aquele silêncio perturbador. Por alguma razão meus pés não se moviam, pareciam estar colados no chão. Começava a me faltar o ar, a saliva que eu tentava engolir não passava pela garganta que ia se fechando como se estivessem me estrangulando.
- Como é, o Piers? O que você quer dizer com isso? O Piers, pai dessa criança? Nem brinca com um assunto sério desses, Zara! – ela continuava me encarando, aquela expressão imutável em seu rosto, e a dor crescendo dentro de mim.
- Naquela semana em que você foi para Bruxelas a trabalho, e o Piers e eu ficamos sozinhos aqui, foi quando aconteceu. – confessou ela.
- Eu viajei poucos dias depois de você ter deixado o bombadão e se mudado para cá, não pode ser! – exclamei, caminhando feito um louco de um lado para outro tentando juntar acontecimentos com datas num emaranhado que revolvia toda minha cabeça.
- Tive uma discussão com o John por telefone, ele me devia um dinheiro e disse que não ia devolver por conta do tempo que morei com ele sem dividir as despesas do aluguel. Ele me ameaçou, disse que ia me dar uma surra se eu voltasse a cobrar a dívida, o Piers ouviu parte da discussão e quando desliguei, estava chorando e fui me atirar no ombro dele. Eu precisava de alguém naquele momento, entende, Edric? Eu estava desnorteada, sem grana e sem emprego, e aquele desgraçado se recusando a me devolver o pouco que eu tinha juntado. O Piers disse que vocês dariam um jeito de me ajudar, se mostrou carinhoso, e eu ... – não a deixei terminar.
- E você quis se assegurar dessa ajuda se enfiando na cama com ele e o fazendo meter a pica na sua boceta, não foi assim, Zara? Diga! Não foi assim, Zara? – berrei a plenos pumões.
- Desculpe, Edric! Desculpe! Eu não queria, juro, não queria! – repetia ela, vendo minha angústia arrancando tudo que eu sentia pelo Piers do meu peito.
- Como não queria, sua ... sua puta do caralho! Se você não quisesse não abria as pernas para o meu marido dentro da minha casa, da casa onde eu te acolhi com todo carinho, sua vagabunda desgraçada! Você sabe o que fez comigo, você acabou com o meu relacionamento com o Piers! – gritei colérico. – Justo eu que sempre te ajudei! Você me apunhalou pelas costas, entrou aqui e fez meu homem te engravidar, como você pode, Zara? Me explica como você pode ser tão miserável, ingrata e ... e ... e... Vá à merda, Zara! Vá à merda! Saia da minha casa agora, sua vagabunda! Sai daqui, Zara! – gritei, esmurrando a mesa e tudo que encontrava pela frente.
- Eu não sei quem é o pai desse filho, Edric. Juro que não sei! Pode não ser do Piers. – argumentou ela.
- Não me importa quem é o pai, Zara! Você trepou com o meu marido pelas minhas costas, se aproveitou da minha ausência para seduzir meu homem. Você acabou com oito anos de uma vida feliz que eu tinha com o Piers! Você consegue entender que acabou com a minha vida? Eu nunca mais quero olhar para a cara dele, nem ouvir qualquer desculpa que ele quiser me dar, o mesmo vale para você! Fora da minha casa, desgraçada!
- Eu não tenho para onde ir, Edric! Perdão! Perdão, Edric! Não me jogue na rua! – suplicou ela. Foi quando meu coração foi substituído pelo bloco de gelo.
- Foda-se, Zara! Foda-se! Suma da minha frente, agora! – berrei, indo até o quarto de hóspedes e arrancando tudo das gavetas e lançando pela janela. Eu precisava jogar fora toda aquela dor que estava esmagando meu peito, e as roupas voando pela janela pareciam ter esse efeito.
Ela suplicou até o último momento, até se arrastando aos meus pés quando a coloquei porta afora. Eu não sentia nada, só um enorme vazio, um vácuo. Não fui trabalhar naquele dia, não conseguiria me concentrar em nada. Voltei para o quarto e me joguei na cama chorando sem parar. De repente, me levantei e comecei a arrancar as roupas de cama, um asco profundo parecia me fazer vomitar, só de pensar que o Piers e ela fizeram aquela criança naquela cama onde eu o amei e me entreguei de corpo e alma aos desejos e vontades dele. Saí da casa e fui caminhar, pensei em me jogar da plataforma sobre os trilhos quando a composição do metrô chegasse à estação East Putney, a mais próxima da Cambalt Road onde morávamos, pensei em saltar da Putney Bridge para dentro do Tâmisa, pensei como acabar com a minha vida agora que não me restava mais nada além da dor da traição e do vazio que seria continuar vivendo sem o Piers. Nada mais faria sentido. Quando estava atravessando a Putney Bridge sem um rumo definido, um barco passou sob os arcos da ponte e foi quando decidi comprar a passagem do mais longo cruzeiro que encontrasse. Eu só precisava sumir, sumir de tudo e de todos, curar aquela dor longe de tudo que me cercava, nem que fosse no fundo do mar em qualquer lugar desse planeta.
A moça da agência de viagens estava se empenhando ao máximo para me mostrar as opções de cruzeiro disponíveis para aquela época do ano, colocando uma porção de folders na minha frente e tagarelando sem parar. Eu nem prestava atenção nela, apenas olhava para as ilustrações nos folders e para encerar a questão, apontei o dedo sobre um navio aleatório.
- Este! – exclamei, sem mais nem menos. – MS Queen Victoria! 29 noites! Este serve. – afirmei, empurrando o folder na direção dela.
- Boa escolha! O itinerário é ....
- Tanto faz o itinerário! Como escolho a cabine, qual é o valor?
- Para o período que o senhor escolheu e por estar próximo da partida, só as cabines mais caras estão disponíveis, mas o senhor não vai se arrepender seja lá qual for a sua preferência. Temos estas aqui com ...
- Pode ser qualquer uma! – respondi, sem nem olhar para as cabines disponibilizadas no folder do navio. – Como faço o pagamento? – perguntei. Ela começava a me olhar de modo estranho, devia achar que eu era algum lunático fugido de algum hospício, pois ao contrário dos demais turistas que procuravam a agência e faziam zilhões de perguntas, eu não estava interessado em nada daquilo.
- Temos todas estas possibilidades! – respondeu ela. Sendo a primeira o pagamento integral à vista. Foi para onde apontei o dedo, uma vez que ainda não sabia se voltaria dessa viagem ou, se a enceraria prematuramente saltando para dentro do mar num lugar qualquer.
- Faço um cheque ou transfiro o valor? – ela estava cada vez mais intrigada.
- Como preferir!
- Me passe os dados para a transferência, faço imediatamente!
- Pois não, vou conversar um momento com o dono da agência, só um minuto, por favor! – minutos depois ela volta acompanhada de um senhor de meia idade que me sorria feito uma hiena com uns dentes tortos e multicoloridos. Creio que para garantir que o louco, no caso eu, não estava cometendo alguma irregularidade.
- A que horas devo estar no porto? – perguntei, depois que ela me entregou uma papelada que nem conferi.
- Depois de amanhã, às 10:00h, o navio zarpa às 14h30m, às 12h30m o check-in é encerrado. – respondeu ela.
- Ok! Obrigado!
- Boa viagem, senhor! E tenha um Feliz Ano Novo a bordo! – desejou ela as minhas costas, mas eu não respondi, só queria sair dali e voltar para casa para fazer as malas.
Enquanto fazia as malas, também aproveitei para arrancar todas as roupas do Piers do closet e socá-las dentro de malas que fui empilhando na garagem. A casa já era minha quando decidimos morar juntos, portanto, era ele quem deveria sair. Quando olhei para o closet vazio comecei a chorar, meus últimos maravilhosos oito anos ao lado dele tinham findado.
Eu já estava no terminal de passageiros fazendo o check-in quando o Piers me ligou, a carinha sorridente dele fazendo careta para mim no dia em que comemoramos cinco anos de união num restaurante e depois trepamos até o amanhecer era o plano de fundo da tela do celular cada vez que ele me ligava.
- Preciso apagar essa porra! – murmurei comigo mesmo.
- Como, senhor? – perguntou-me o rapaz que fazia o check-in quando me ouviu balbuciar.
Sempre imaginei um cruzeiro com cenas românticas, pessoas se beijando e se abraçando, choros e promessas de reencontro enquanto uma multidão se agitava num cais ensolarado antes de o navio apitar anunciando a partida. Nada daquilo correspondia ao que eu presenciava do balcão da minha cabine. Para variar chovia em Southampton, o céu estava carregado de nuvens cinzas e fazia frio, os passageiros embarcavam apressados, se houve beijos, abraços e juras de qualquer coisa, elas já haviam sido feitas dentro do terminal de passageiros climatizado, o cais tinha pouco movimento à exceção de um ou outro funcionário fazendo as últimas inspeções, ao longe avistavam-se as águas escuras do estuário e lembro-me de ter pensado – é uma boa sepultura, talvez um pouco gelada, mas para um morto isso já não fazia diferença. Não saí da cabine pelo restante do dia, nem mesmo para jantar, e não sei quando foi que adormeci.
O clima não havia mudado muito desde o dia anterior, não chovia, mas o céu continuava nublado. Apesar de faminto, fiquei me espreguiçando na cama. Para tomar o café teria que enfrentar aqueles quase dois mil turistas falantes e risonhos, e a última coisa que eu queria era ver e ter pessoas ao meu lado; essas criaturas abomináveis que não hesitam em pisar nos sentimentos dos outros apenas para obterem alguma vantagem. Cerrei os punhos num ato reflexo inconsciente quando me vieram à mente a imagem da Zara e do Piers.
Com a barriga protestando com veemência, me dirigi para o almoço. Sentei-me ao lado de um grupo tagarela que logo quis puxar conversa, mas que acabou desistindo depois que dei algumas respostas monossilábicas e lhes dirigi uma cara pouco amistosa. Estava me arrependendo de ter comprado a merda do cruzeiro, aquele ir e vir de turistas num espaço confinado estava me deixando irritado, especialmente porque eles riam, falavam alto como se fossem crianças soltas num parque de diversões. Comprei um livro e fui até o deque superior aberto onde ficavam as piscinas; como apenas uma era aquecida, havia pouca gente circulando e a maioria dos que se dirigiram para lá, também se entretinham com alguma leitura nas espreguiçadeiras. Contudo, alguns corajosos se aventuravam na piscina e quando saíam da água corriam rápido agarrar e se enrolar numa toalha para se proteger o ar frio que soprava no Canal da Mancha.
Ao meu lado havia uma meia dúzia de espreguiçadeiras vazias e, quando um grupo de quatro homens saiu da piscina veio se sentar nelas. Eram todos jovens, com idades semelhantes à minha. Mesmo desolado e frustrado com os homens, não pude deixar de reparar como eram atléticos e atraentes dentro daquelas sungas recheadas com falos condizentes ao tamanho avantajado de seus corpos. Pronto, acabou o meu sossego, pensei comigo quando começaram a conversar animadamente, ignorando que eu estava entretido numa leitura e, portanto, desejando um pouco de silêncio e privacidade. O pior foi quando um deles, que estava se secando, resolveu sacudir a cabeça molhada e os pingos respingaram sobre o livro que eu lia. Dirigi-lhe um olhar feroz que, mesmo assim, não lhe provocou reação alguma. Foi como se eu não estivesse ali e o que acabou de fazer não exigisse um pedido de desculpas. Bufei e tentei me concentrar na leitura, mas estava tão irritado com aquele falatório que já pensava em mandá-los à merda; até me lembrar que o problemático, o traído, o fodido, o desiludido com a vida ali era eu. Me mudei para uma espreguiçadeira mais adiante, enquanto um deles passou a me observar com mais atenção. Da espreguiçadeira para onde me mudei, prestei um pouco mais de atenção nele por uns breves instantes. O danado era um tesão, grande, maçudo, ombros fortes, um tronco trapezoidal sólido, braços e coxas musculosos e revestidos com uma quantidade de pelos não exagerada, mas que lhe conferiam uma virilidade latente, uma cabeleira vasta e uma barba por fazer de cor acastanhada o faziam sexy, e isso me levou a dirigir o olhar para a sunga preta que estava usando, um pacote volumoso se alojava dentro dela completando seu aspecto másculo. Este deve ser outro desgraçado infiel que à primeira fenda que encontrar pela frente vai metendo esse volumão dentro dela, remoí em meus pensamentos, e parei de olhar para ele.
O navio estava em festa na noite do Réveillon, os salões decorados, a música tocando, as pessoas agitadas num frenesi incomum esperavam a passagem do ano como se depois da meia-noite suas vidas fossem totalmente transformadas numa eterna festa. Não sei porque deixei a minha cabine, talvez a alegria daqueles passageiros fosse contagiosa e eu pudesse ser infectado com um pouco dela. Vesti o smoking e circulei entre o povaréu excitado. Começaram a me observar, mulheres me lançavam olhares libidinosos e sorriam, alguns homens tinham uma expressão de inveja estampada na cara, outros me acompanhavam com o olhar fixo nas coxas grossas e bunda que preenchia a calça, os membros da tripulação em serviço se derramavam sorridentes me perguntando se estava precisando de alguma coisa. O que não mudava era a minha cara de poucos amigos, de um sujeito revoltado com o mundo.
Meu celular tocou uma dezena de vezes durante todo o dia, era o Piers. A caixa de mensagens recebia uma a cada ligação não atendida. Ele tinha chegado em casa há dois dias conforme planejado, após passar o Natal com os pais, e devia ter pirado quando encontrou suas coisas amontoadas numa pilha de malas e caixotes na garagem com o bilhete – Não se atreva a estar em casa quando eu voltar – escrito numa letra carregada de raiva. Não tenho dúvida de que a Zara entrou em contato com ele após a nossa conversa e de eu a ter expulsado de casa, contando qual foi a minha reação ao descobrir a sacanagem deles. Por mais dor e sofrimento que estivesse sentindo eu não ia perdoar nenhum dos dois fossem lá as desculpas e justificativas que apresentassem. Descartar a Zara da minha vida era como tirar uma carga pesada dos ombros, já o Piers, depois de tudo que tivemos juntos, era algo com o que eu não conseguia lidar. Ele estava definitivamente fora da minha vida, mas fazer meu coração aceitar isso não estava sendo fácil.
Os dois salões de festa do navio estavam apinhados, num deles uma orquestra tocava clássicos eternizados enquanto os casais, em sua maioria de meia idade, dançavam com os rostos colados; no outro, onde fiquei, uma banda também trazia alguns clássicos da música popular e lançamentos que ainda estavam tocando nas rádios. Ali os jovens se contorciam ao ritmo dos poucos compassos que compunham as músicas, ora com os rapazes se esfregando nas moças, ora rodopiando sem cadência agarrados a elas enquanto suas mãos percorriam seus corpos enfiados em vestidos com generosas fendas. Eu acompanhava tudo encostado num canto do salão, como faziam outros caras solteiros tentando caçar entre o plantel disponível aquela que valeria levar para a cabine para um foda descompromissada quando a noite acabasse. Minha intenção estava longe disso, nem sei porque me enfiei naquele smoking, e já começava a sentir o enfado de estar ali. De repente, a música parou e em coro as pessoas começaram a gritar a contagem regressiva para a meia-noite, iniciando pelo dez. Só então reparei, no lado oposto do salão, aqueles caras que me obrigaram a deixar a espreguiçadeira naquela tarde. No um, a gritaria se generalizou, as pessoas se abraçavam e desejavam – Feliz Ano Novo – para quem estivesse a sua volta, como se fossem velhos conhecidos. Não consegui segurar as lágrimas. Foi na noite de um Réveillon há oito anos que o Piers, numa praia de Savusavu na ilha Vanua Levu em Fidji, tirou do bolso da bermuda um par de alianças em ouro amarelo e branco me encarou, e gritou alto para se sobrepor aos fogos de artifício que enfeitavam o céu estrelado – Eu te amo, meu amor – colocando uma das alianças no meu dedo e depois me erguendo em seus braços e rodopiando comigo durante o demorado beijo que trocamos. Saímos correndo dali em direção ao bangalô onde estávamos hospedados e começamos a fazer amor como dois coelhos ensandecidos pelo tesão.
Saí apressado do salão pela primeira porta que encontrei e comecei a correr pelo costado até chegar ao deque deserto daquele andar. Soprava um vento frio, o navio deslizava sobre as águas escuras deixando um rastro de espuma branca e brilhante para trás. Encostei-me num balaústre e deixei o choro fluir copioso, eu soluçava tão forte que todo meu corpo sacudia, enquanto eu socava o corrimão da balaustrada e repetia rancoroso – Zara, sua puta, por que você fodeu minha vida? Zara, sua puta, por que você fodeu minha vida? – diante dos meus olhos eu a via com o ventre crescendo feito um bolo no forno.
Rapidamente me demovi de saltar sobre a balaustrada, a única coisa que conseguiria com isso era me espatifar no deque das piscinas dois andares abaixo, não ia morrer, só quebrar alguns ossos e promover um escândalo a bordo. Não, não valia à pena. Qualquer ação teria que ser definitiva, sem volta, e daquele deque isso seria impossível. Eu não o havia notado até então, do outro lado do deque, num canto pouco iluminado, andando em círculos e pisando forte enquanto berrava com alguém ao telefone, o parrudão da sunga preta, agora também metido num smoking só que de paletó branco. Cheguei à conclusão que fosse lá o que aquele cara estivesse trajando continuaria sendo um tesão de macho e, mesmo sem nada, e principalmente por isso, devia ser um macho estonteante. De onde eu estava, com o vento soprando na direção dele, só consegui ouvir o sonoro – filho da puta – que ele pronunciou antes de enfiar o celular no bolso e desferir um soco contra o armário onde se encontravam as mangueiras de incêndio. Só então ele notou minha presença. Ficou me olhando, ainda caminhando em círculos, depois parou. Notei que hesitava vir na minha direção, e torci para que não viesse, virando-lhe as costas para contemplar o rastro de espuma do navio que se abria num leque.
- Tendo uma noite de merda também? – perguntou, alguns minutos depois, quando estava postado atrás de mim.
- Com certeza! – respondi lacônico. Ele se debruçou ao meu lado na balaustrada e olhou na mesma direção que eu.
- Estou fodido e sem chão! – exclamou após um silêncio
- Ao que parece é o mal da noite! – devolvi
- E todos lá dentro comemorando o novo ano! Vou ter um ano de merda, não tenho o que comemorar! – afirmou, após outro longo silêncio
- Se serve de consolo, não estará sozinho! Eu ainda estou decidindo se vou ter esse ano de merda ou se o encerro já nas primeiras horas do primeiro dia nessas águas. – devolvi, o que o fez se virar na minha direção com um olhar de espanto.
- Acabo de ser notificado de que meu sócio fugiu para a Austrália com a minha noiva e todo o dinheiro da conta bancária da nossa empresa, traidores filhos da puta do caralho! Esta era para ser a nossa viagem de lua-de-mel. Uma semana atrás eu estava no altar, a igreja cheia de convidados, esperando pela entrada dela. Ela simplesmente não apareceu, o casamento não aconteceu e eu fiquei com cara de palhaço. Desde então estou à procura do paradeiro dela. Há pouco a irmã dela me ligou e me contou tudo. – revelou ele.
- Benvindo ao clube! Meu marido fez um filho na barriga da minha melhor amiga a quem dei suporte a vida toda. – revelei.
Por quase meia hora não falamos mais nada. Creio que ambos estavam se perguntando por que raios eu, por que comigo, devo ser um monte de bosta para todo mundo achar que pode cagar em cima.
- Também fugiram? – perguntou ele
- Não! Ela contou na minha cara, é mole? Contou como se estivesse me contando que foi até a esquina fazer compras no supermercado, e não como se falasse sobre uma tragédia. Fodeu com a minha vida, fodeu com oito anos de um relacionamento maravilhoso, fodeu, apenas fodeu e pronto. – despejei.
Ele começou a rir, teve um surto e não parava de rir. Senti tanta raiva que quis acertar um soco na cara dele, mas ele me encarava sem parar de rir até eu me sentir contagiado e também desatar num riso idiota sem sentido. Ele apoiou as pesadas mãos sobre os meus ombros e me olhava diretamente nos olhos.
- Bela dupla formamos! Dois fodidos na noite do Réveillon em pleno Atlântico. Não é hilário, patético, uma desgraça que só pode acontecer com desgraçados? – inquiriu, antes de parar de rir e continuar me encarando, sem soltar meus ombros. Eu não respondi, apenas continuei olhando fixamente para ele.
Sem eu esperar, ele me puxou contra si, cobriu minha boca com a dele e não se desgrudou enquanto eu não comecei a retribuir o beijo, o que fiz envolvendo seu tronco em meus braços. Ele era grande e quente, os lábios fortes capturavam os meus, a língua era enfiada na minha boca e a vasculhava durante os beijos que se seguiram. Ele me prensou contra a balaustrada jogando o corpão contra o meu, enquanto suas mãos tateavam sobre mim. Em meio a um beijo devasso, ele amassou minhas nádegas e apertou sua virilha contra a minha. Eu estava quase me pendurando em seu pescoço largo e musculoso, quando ele me ergueu pelas ancas e eu circundei minhas pernas ao redor dele.
- Você é um tesudo do caralho! – grunhiu com os lábios me beijando. – Estou com o pau estourando de tão duro! – acrescentou.
Olhamos ao redor, tudo deserto, ele já estava arrancando minha camisa pelo cós da calça, descendo o paletó pelos ombros e procurando me despir afoitamente. Podíamos ser vistos por algum outro passageiro querendo tomar ar fresco. Ele me puxou pela mão e corremos ao largo do costado tentando abrir alguma das portas de vidro que porventura estivesse destrancada. Fomos parar do outro lado do convés, até que uma porta deslizou para o lado e corremos para dentro. Era a área de fitness, imersa na escuridão e fechada excepcionalmente naquela noite. Enquanto ele arrancava as minhas roupas eu arrancava as dele do corpo. O meu estava pegando fogo, a qualquer toque dele sobre a minha pele o ardor aumentava. Quando estava completamente nu ele me empurrou para cima de uma prancha de supino, de bruços e com cada perna pendendo para um lado, ele afastou minhas nádegas abrindo o rego profundo e liso, feito um leão esfomeado meteu a cara barbuda no meio dos glúteos e começou a mordiscá-los. Eu rebolava e gemia, agarrado à prancha e olhando para céu através dos enormes painéis de vidro. Quando olhei para trás, ele estava em pé, o caralhão grosso em riste, as mãos começando a envolver a minha cintura, ele se ajeitando ajustando a virilha às curvas da minha bunda. Cacetão e saco deslizavam ao longo do meu reguinho, ele arfava forte soltando o ar acumulado nos pulmões por entre os lábios cerrados. Guiando a chapeleta melada ele a posicionou sobre a entrada da minha fendinha que ele, devido a escuridão, não via, apenas sentia na ponta sensível da pica. Ele deu uma forçada, senti dor e rebolei, a cabeçorra se deslocou. Ele voltou a apontá-la sobre as preguinhas do cu e forçou ao mesmo tempo em que impedia de eu me movimentar. O cacetão entrou no meu cuzinho e eu gritei, ele estava me rasgando todo.
- Para, para, está me machucando, caralho! – gani protestando. Ele não parou, deu outra estocada bruta. – Ai, meu cu! Para, cara! Para, está me arrebentando! Me solta! – berrei, sem ele me dar ouvidos e socar aquele caralhão grosso até o talo no meu cuzinho.
Ele não dizia nada, só gemia e bombava meu cu com força, arregaçando meu buraquinho apertado, como se estivesse tendo um surto. Lançando todo o peso do corpo sobre o meu, ele movia suas ancas vigorosa e freneticamente, socando o cacetão fundo nas minhas entranhas. Eu me debatia debaixo dele, implorando para que me soltasse, mas quanto mais eu me agitava e gania, mais ele se agarrava a mim, mordia minha nuca, esmagava meus peitinhos salientes em suas mãos. A dor que eu sentia era tanta que meu corpo se contraía todo, o ânus repentinamente travou, apertando ainda mais aquela rola enorme entalada nele. Comecei a temer que ele me arrancasse as entranhas pelo cu, tão vorazmente ele me fodia. Eu sabia que não ia gozar, o prazer não se manifestava, apenas aquela dor excruciante ia se apoderando do meu baixo ventre. No entanto, à medida que a cadência das estocadas se intensificava, ele grunhia mais alto e mais forte, até sobrevir o urro e com ele o gozo que encheu meu cuzinho com seu leite viril. Jatos e jatos se sucediam, com ele se estremecendo todo e agarrando minhas ancas com tanta força que seus dedos marcaram minha pele clara. Ao arrancar o caralhão do meu cuzinho e a saliência com a cabeçorra distender minhas preguinhas eu soltei outro grito. Olhei para ele, estava parado com as pernas ligeiramente afastadas o cacetão ainda dando pinotes, ele arfando feito um touro, olhava para as minhas nádegas carnudas cujo rego se fechou assim que o pauzão dele foi sacado, e sobre as quais escorria um pouco do esperma denso e leitoso que ele ejaculou em mim. Parecia não estar atinando com o que aconteceu, suas mãos deslizavam entre a cabeleira, e seus olhos não se desviavam de mim, nu, ali debruçado gemendo com o cu encharcado de porra.
- O que deu em você, seu maluco? Estraçalhou todo meu cuzinho! Estou tão machucado que mal consigo me mexer, que porra foi essa? – reclamei, exaurido e sentindo fortes cólicas abdominais.
- Cacete! Rabão tesudo do caralho! Vem cá, levanta! Consegue levantar, eu te ajudo! – retrucou, me puxando para seus braços e encostando meu peito em seu torso todo suado, enquanto eu me agarrava nele tentando juntar as pernas e ficar de pé. Em seguida ele me beijou intensa e demoradamente.
Fomos catando as roupas espalhadas pelo chão e nos recompondo. Eu não sabia o que dizer, estava tão perplexo por ter deixado isso tudo acontecer, sentia revolta por ter transado com um cara quando ainda nem tinha conseguido digerir direito a traição do Piers, que comecei a sentir raiva de mim mesmo.
- Preciso ir! – exclamei, quando me achei em condições de sair dali.
- É, eu também! Meus amigos devem estar me procurando. – respondeu ele quando eu já saía correndo pela porta.
Cheguei à cabine sem forças, corri para a ducha, meu cu sangrava e as cólicas pioraram. Joguei-me na cama com a toalha enrolada na cintura, tomei uns analgésicos para ver se conseguia controlar aquela dor. A madrugada corria e eu rolava sobre a cama segurando o ventre entre as mãos. O que deu em mim, perguntei-me. Nem o nome do sujeito eu sei, e deixei-o me arregaçar inteiro, cazzo que idiotice sem tamanho você fez, Edric? Com a vida toda fodida você deixa um sujeito bruto como esse rasgar todo seu cu, que porra! E a dor aumentando, os espasmos abdominais eram tão fortes que parecia que eu ia parir. Só me faltava ir parar no ambulatório por conta dessas dores, o que eu ia dizer para o médico, como ia explicar o cu todo arregaçado e sangrando? Edric, seu imbecil, você embarcou nesse cruzeiro para se jogar no mar, não para se jogar nos braços do primeiro aventureiro caralhudo que aparece.
No meio da manhã me vi obrigado a seguir para o ambulatório do navio, cambaleando e receoso de que minhas vísceras escoassem pelo cu, queixei-me de cólicas, omitindo que o brutamontes tinha arrebentado meu cuzinho. Só abri um pouco a calça quando o médico me mandou deitar na maca para me examinar, temia estar com sangue na cueca ou nas pernas. Ele palpou meu abdômen, fazia uma pergunta atrás da outra tentando fechar um diagnóstico, enquanto eu escondia as respostas e torcia pelo fim daquele exame.
- Já sentiu essas dores antes?
- Não!
- Começaram de repente ou sentiu algum incomodo prévio?
- De repente! Acho que comi algo durante o jantar que não me caiu bem! – sugeri, para abreviar os questionamentos.
- Não me parece um distúrbio gastrointestinal, seu abdômen está muito rijo. – retrucou o médico.
- São as cólicas! – eu devia estar mesmo muito transtornado querendo induzir um médico a um diagnóstico só para me fornecer analgésicos mais potentes, ou outra merda qualquer que aliviasse aquela dor insuportável.
- Vou mantê-lo por umas horas em observação! Vamos ver como reage às medicações que vou lhe aplicar! – sentenciou o médico.
Pronto, lá estava eu olhando para o teto do ambulatório no dia primeiro de janeiro, com o cuzinho rasgado e toda aquela porra daquele macho formigando no meu rabo. O que mais falta acontecer, Edric, me perguntei.
Não vi mais o sujeito nos quatro dias seguintes em parte alguma do navio, embora eu também não tivesse o menor interesse em procurá-lo. Quando o navio aportou em Palma de Maiorca resolvi dar um passeio por Palma com a leva de passageiros que desceu do navio. Foi a primeira vez que deixei o navio desde a partida em Southampton, nas atracações em Sevilla e Málaga eu não me animei a descer, até porque com o cu naquele estado deplorável não me sentia seguro para encarar caminhadas mais longas que não as da cabine para os restaurantes de bordo e vice-versa. O médico também havia me aconselhado a descansar o máximo possível quando me liberou do ambulatório.
Num café da Av. Gabriel de Roca no badalado bairro de Portopi eu resolvi ligar para os meus pais explicando meu sumiço repentino, mas sem lhes colocar a par da causa, isso precisava ser feito pessoalmente quando, e se, eu voltasse. Havia outros passageiros do cruzeiro nas mesas da calçada quando o sujeito apareceu com os amigos. Sentaram-se no extremo oposto de onde eu estava, não sei se ele não me viu, ou se o fez de propósito para não ter que me encarar. Se eu já estava tomando birra do sujeitinho, ao vê-lo rindo animadamente com os amigos fiquei ainda mais puto. Cafajeste desgraçado, pensei comigo mesmo.
Pouco depois, ele entrou no café para ir ao banheiro, precisando invariavelmente passar a poucos metros de onde eu estava sentado, observei-o de soslaio quando passou por mim sem ao menos se dignar a um aceno. Precisa ser muito cara-de-pau para me foder daquele jeito feito, um animal, não pedir desculpas e fingir que não está me vendo. Quando regressou para se juntar aos amigos eu o interpelei.
- Qual é a sua para fazer aquilo comigo e fingir que não me conhece? – perguntei
- Fazer o quê? Não fiz nada que você também não quisesse!
- Você agiu como um animal, seu cretino! Me machucou todo com esse bagulho enorme e acha que vou te parabenizar por isso?
- Não sabia que você era tão sensível! Só falta me dizer que era virgem! Talvez seu marido tinha um pinto tão pequeno que nunca abriu seu cu. – revidou ele
- Filho da puta! Saiba que meu marido é muito bem-dotado, mas não é uma besta animalesca durante o sexo. Ele é gentil e cuidadoso, coisa que você nem deve saber o que é. Já se vangloriou com seus amigos da façanha, ou teve medo de contar a eles que trepou com um gay para que não duvidem da sua masculinidade?
- Não tenho problemas com a minha masculinidade, nem preciso provar nada a ninguém. Teu marido é tão gentil e cuidadoso que fez um filho na sua amiga! Sujeito fantástico, ele! – tripudiou.
- Veja só quem fala, o macho autoconfiante que a noiva deixou à beira do altar para fugir com o sócio que deve ser um homem muito mais interessante. Ela foi esperta descobriu que ia se casar com um cafajeste e caiu fora. Você tem mesmo do que se gabar! Babaca, cretino! – revidei. Ele perdeu a pose quando mencionei a noiva fujona, e foi se juntar aos amigos, que passaram a lançar olhares na minha direção quando ele voltou à mesa.
Era mais que certo que ele tinha contado que me fodeu na academia do navio, e feito disso um ato de bravura e demonstração de sua virilidade. Eu não podia estar mais puto comigo mesmo. Onde eu estava com a cabeça quando me entreguei para aquele completo desconhecido deixando ele me arregaçar barbaramente, quando ainda nem tinha resolvido as minhas pendências com o Piers? Onde ficou o meu bom-senso?
Encontrei-o novamente à noite durante o jantar, haviam escolhido o mesmo restaurante que eu, o Princess Grill no deque 11. Antes que eu pudesse dar meia volta para escolher outro lugar para jantar, um dos amigos dele me convidou a sentar à mesa com eles. É uma cilada, vão zoar comigo por conta da foda, imaginei, e recusei o convite.
No segundo dia, em alto mar, depois que deixamos o porto de Civitavecchia em Roma e o navio seguia para a ilha de Rhodes na Grécia sob um sol ameno e mar calmo, eu acabei cochilando na espreguiçadeira das piscinas de popa do deque 9, após ter folheado sem muito interesse uma revista que havia comprado em Roma. Ao despertar, o sujeitinho estava tomando sol na espreguiçadeira ao lado.
- Zangado? – perguntou quando me levantei para deixar o local
- Babaca!
Era óbvio que nos odiávamos. Com todos os precedentes com os quais estávamos lidando aquela noite de Réveillon só veio acrescentar mais aborrecimentos. Eu o queria longe de mim, não precisava de mais um patife na minha vida, mesmo ele sendo um tesão de macho.
No décimo quarto dia do cruzeiro estávamos passando pelo Estreito de Dardanelos rumo a Istambul, era tarde da noite, eu estava na varanda da minha cabine, sem sono, apreciando as luzes cintilando na margem direita do estreito. No canal de músicas do navio Michael Bublé e Laura Pausini cantavam em dueto You'll never find , o que me fez questionar se eu um dia voltaria a ser tão feliz como fui com o Piers. Subitamente alguém batia com força na porta me tirando dos meus pensamentos.
- O que faz aqui a essa hora? – perguntei irritado quando me deparei com a cara do sujeitinho, encostado ao batente com os braços cruzados.
- Vim em missão de paz!
- É muita petulância sua aparecer na minha cabine a essa hora! Como descobriu qual é a cabine?
- A tripulação do navio é bem solícita quando se coloca algumas cédulas de Euro nas mãos dela.
- Bem típico de um mau-caráter, subornar pessoas! Dá o fora ou aciono a segurança! – ameacei.
- Cara, você é um pé no saco! Porra, eu estou hasteando bandeira branca, é tão difícil de entender? – retrucou ele, recolhendo o sorriso do rosto.
- Um pé no saco é o que eu devia te dar agora!
- Ia estragar seu brinquedinho! – exclamou, voltando a sorrir debochado.
- Idiota! Não tenho o menor interesse nessa coisinha insignificante!
- Há poucos dias você reclamou que era um bagulho enorme. – vangloriou-se
- Cara, eu estou de saco cheio das tuas respostas, da sua cara, de você inteiro! Diga a que veio e me deixe em paz! – intimei
- Vim te convidar a tomar um drinque no pub comigo, para me desculpar!
- Dispenso! Quero distância de você! Se era só isso, tenha uma boa noite! – devolvi fechando a porta na cara dele, o que não consegui porque ele interpôs um pé antes de eu a fechar.
- Você é foda, cara! Não quero deixar uma má impressão em você. Não há motivo para virarmos a cara um para o outro. O lance na noite do Réveillon não foi tão ruim, fala a verdade.
- Não foi ruim? Só pode estar brincando! Eu passei horas em observação no ambulatório pelo que você fez comigo. Se isso não foi ruim, eu não sei que nome dar ao estado em que fiquei.
- Desculpe! Consegue aceitar minhas desculpas sinceras? Posso ter me excedido, estava puto da vida, não sei o que me deu, descontei em você.
- Vamos deixar assim, o dito pelo não dito! Somos apenas dois estranhos com problemas fazendo o mesmo cruzeiro por alguns dias. Em breve voltamos para a rotina e nunca mais nos veremos, não devemos nada um ao outro. – retruquei
- Então, nem o drinque vai rolar?
- Boa noite! – consegui fechar a porta, ele não insistiu mais.
Recostei-me na porta e fiquei pensando na merda que acabei de fazer. Seria assim de agora em diante, brigar e arrumar confusão com todos apenas porque duas pessoas que eu amava me traíram? Eu nunca fui assim, conquistei uma legião de amigos justamente por ser uma pessoa compreensiva, amorosa e me preocupar com as amizades. Abri a porta de supetão para me desculpar caso ele ainda estivesse no longo corredor das cabines. Só que a porta se abriu com muito mais força do que eu esperava e ele caiu aos meus pés, pois também estava encostado nela pelo lado de fora.
- Você sabe mesmo como ser insistente! – exclamei em meio ao susto que levei.
- E você como matar a gente de susto! – revidou ele, enquanto eu o ajudava a se levantar. – Por que abriu a porta tão rápido?
- Pode me explicar o que fazia encostado na porta?
- Vamos ficar aqui nos interrogando ou vamos ao que interessa? – questionou ele. – Não me conformei de você não ter aceito o convite para o drinque, isso só prova que não me perdoou, e eu quis tentar de novo. E você?
- Me arrependi de ter te tratado mal e achei que ainda dava tempo de te encontrar no corredor, por isso abri a porta de supetão. – expliquei, o que o fez sorrir.
- Arrependeu, é? Ia correr atrás de mim? – a cada pergunta o sorriso ficava mais confiante.
- Não comece se achando! Eu apenas ia me desculpar por ter sido rude na resposta que lhe dei, nada mais!
- E o drinque? Vai rolar?
- Talvez outra hora! Como pode ver, já vesti o pijama e pretendo me deitar, é tarde. – respondi, nesse momento ele se deu conta de eu estar usando apenas a bermuda, o torso liso com sua musculatura definida tinha sua pele clara salientada pelos peitinhos protuberantes com seus mamilos acastanhados e biquinhos rosados, enquanto a bermuda estava recheada com a bundona carnuda e as coxas grossas.
- Como um homem consegue ser tão tesudo? – murmurou ele, não me permitindo ouvir a pergunta.
- O quê?
- Nada não! Estava pensando alto. – respondeu disfarçando. – Podemos pedir o drinque na cabine, tomá-lo na varanda. – sugeriu. Eu concordei, ele não ia dar sossego mesmo.
- Tudo bem! – devolvi vencido.
O navio entrava lentamente no Estreito de Bósforo se aproximando do porto para atracar e, permitindo ver as luzes de Istambul, enquanto passava sob a Ponte do Bósforo e ao largo da mesquita de Ortaköy, quando tomávamos um gin fiz refrescante enfeitado com folhas de hortelã e rodelas de limão que ele havia sugerido. Depois do primeiro gole, ele ficou me encarando, me senti nu com aqueles olhos perturbadoramente castanhos me examinando.
- Você foi a primeira pessoa com quem fiz sexo e, para ser mais específico, o primeiro cara, sem saber seu nome. A propósito, me chamo Alton! – revelou.
- Sou o Edric! – devolvi encabulado.
- É esse o momento em que dizemos – muito prazer – ou dispensamos esse detalhe?
- Dado o que já rolou, é melhor dispensarmos! – respondi, sorrindo timidamente
- É, é melhor! – devolveu. Por uns minutos ficamos sem assunto, nenhum dos dois esperava que a situação chegasse a esse ponto, foi embaraçoso.
- Por que escolheu esse cruzeiro? – perguntamos ambos ao mesmo tempo, para quebrar aquele silêncio constrangedor.
- Você primeiro! – disse ele, quando ambos se calaram novamente.
Expliquei que não foi uma escolha propriamente dita, mas apenas uma opção de última hora, enquanto ele afirmou ter sido uma escolha da ex-noiva para a lua de mel, à qual os amigos aderiram para não deixá-lo cair em depressão pelo casamento frustrado e pela fuga da noiva e do sócio.
- E está gostando? Notei que você não costuma deixar o navio quando atraca nos portos pelo caminho. – afirmou
- Não encaro esse cruzeiro como lazer, ou algo prazeroso, é mais uma fuga por não estar conseguindo lidar com a traição do Piers. – revelei
- Então o sortudo se chama Piers? Bosta de nome! Talvez por isso ele também seja um bosta! – exclamou ele.
- Ele não é um bosta! – revidei exasperado. – Nosso relacionamento era maravilhoso, nos amávamos, éramos muito felizes. Foram os melhores oito anos da minha vida! Não fosse eu ter querido ajudar a Zara, ainda seríamos um casal feliz! – afirmei
- Zara é a amiga traíra. A que decidiu experimentar o esperma do Piers e acabou com o bucho cheio. – ele falava em tom de deboche, o que me irritou, ao mesmo tempo em que fazia aquilo tudo soar como uma piada.
- Eu ficaria grato se não se divertisse às minhas custas!
- Desculpe, não estou me divertindo às suas custas. É que você me parece ingênuo demais, ao viajar por uma semana e deixar um macho e uma fêmea livres e soltos na sua casa sem fiscalização. Não podia sair boa coisa disso, concorda? – eu nunca havia encarado a situação sob esse prisma, mas detestei ter que concordar com ele.
- É, talvez!
- Talvez, não! Se você juntar um macho e uma fêmea de qualquer espécie, é uma questão de tempo para eles treparem. Por que com um homem e uma mulher seria diferente?
- Porque podem fazer suas escolhas de modo racional, porque tem consciência do que é certo e errado, porque sabem que suas atitudes podem magoar outros. – enumerei.
- Tudo isso não se sobrepõe ao tesão. Basta o tesão entrar em jogo para que a racionalidade seja esquecida, o certo e o errado seja ignorado e, magoar os outros seja relegado a um segundo plano. – defendeu ele.
- Você pode até ter razão, mas é uma maneira estranha e egoísta de pensar. – revidei
- Gosto cada vez mais de você, Edric! Ouvindo suas opiniões constato que é um cara legal, de boa índole. – afirmou, me encarando. – E um tesão de gostoso! – emendou ligeiro num tom de voz quase inaudível.
- O que está resmungando aí?
- Nada, não! Só falei que você é um tesão de gostoso! – fiquei constrangido diante da sinceridade dele e corei. Fazia tempo que não corava, e esse sujeito fazia isso comigo o tempo todo.
- Acho melhor pararmos por aqui! Não estou gostando do rumo que a conversa está tomando. – retruquei sincero.
- Edric, cara, não consigo esquecer aquela foda! Tenho tido ereções constantes me lembrando do seu cuzinho apertado encapando minha rola e ando me masturbando para aliviar a pressão dos colhões. Edric, isso nunca aconteceu comigo antes! Nenhuma mulher me deixou tão maluco quanto você com uma única foda, feita às pressas no calor do momento, impensada, movida pelo instinto, e tão, tão prazerosa que não me sai da cabeça. Eu precisava te dizer isso, precisava compartilhar com você o que estou sentindo e, preciso ouvir seu ponto de vista do que aconteceu na noite do Réveillon. – eu estava pasmo quando ele parou de falar.
- Não sei o que dizer!
- Como assim?
- Não sei, simplesmente não sei, Alton! Não era minha intenção transar com outro homem poucos dias depois que descobri que o Piers me traiu. Eu acabei fazendo o mesmo com ele, o traí quando trepamos. – afirmei
- Piers, Piers, Piers, essa porra de Piers! Cara, esquece ele! Naquela noite você estava pensando em se jogar no mar, olha a que ponto você chegou por causa desse sujeito! Você acha que é essa a solução, se suicidar porque ele engravidou sua amiga? Nenhum deles vale a sua vida! – argumentou
- Pelo que me lembro suas condições, seu estado emocional naquela noite também não era dos melhores. – devolvi
- Só que, ao contrário de você, eu não queria acabar com a minha vida, mas com a daqueles dois pulhas que me ferraram. Eu sou mais eu! Por que eu deixaria de viver para que eles usufruam uma vida em comum com parte da minha grana? Não! Definitivamente, não! Eu vou foder com a vida deles mais cedo ou mais tarde, assim que tiver oportunidade. – sentenciou se encolerizando enquanto discursava.
- E acabou me fodendo! – exclamei
- Sim, fodi você! Fodi seu cuzinho, perdi a cabeça, te machuquei, fiz merda, tenho consciência disso e estou arrependido, muito arrependido. Porque depois que nos separamos aquela noite, eu percebi que nunca tinha tido uma foda igual à que tive com você. Quando entrei na cama naquela noite, eu só pensava no seu cuzinho apertado, no calor acolhedor dele, a sua bunda encaixada na minha virilha, em seus gemidos sensuais. Desde então não tenho tido um dia em que não te deseje. – afirmou. Notei que ele estava sendo sincero e que aquela aproximação tinha muito mais escondido por trás do que aquela confissão.
- Eu estou confuso, não me peça nada, nem uma resposta, nem o que acho disso tudo, pois para mim ainda está tudo nebuloso. Acabo de sair de um relacionamento que, em tese, ainda não se encerrou. Não é o momento de eu pensar em nada, de tomar atitudes das quais venha a me arrepender depois. – retruquei
- Só me fala uma coisa! E pode ser, aliás, deve ser bastante sincero; você gostou do que aconteceu naquela noite, apesar de eu ter te machucado, porque eu sei que você também sentiu tesão?
- Senti, não nego! Você é um homem atraente, viril, sendo gay eu não tenho imunidade a homens como você. Também não nego que gostei de sentir você dentro de mim, mas isso foi por uns instantes tão breves que acabaram se apagando da minha memória, onde só a dor e as sequelas acabaram ficando registradas. – revelei
- Não sabe como me dói ouvir isso! Não por você, mas pelo que eu fiz! Eu entendo de você não querer mais nada comigo, principalmente sexo, a experiência foi horrível para você, mas eu estou disposto a tudo para tirar essa impressão de você e poder te sentir em meus braços outra vez.
- Como eu disse, não me cobre nada! Não tenho respostas!
- Sabe que é a primeira vez que passo uma cantada num homem? – perguntou rindo. – Se meus amigos souberem que Alton August Callbeck deu uma cantada num gay, vão me zoar pelo resto da vida. – disse ele
- E isso seria um desastre, uma catástrofe para a sua imagem de machão, não é? – inquiri
- Eu estou pouco me lixando para a minha imagem, Edric! Não depois de conhecer você, e estar sentindo o que estou sentindo! – ele havia tomado a minha mão entre as dele e olhava fixa e profundamente nos meus olhos, deixando minha cabeça ainda mais perturbada.
Nos dois dias que se seguiram me juntei ao Alton e seus amigos durante os passeios por Istambul, depois que ele me apresentou oficialmente a eles. Duas coisas ficaram bem evidentes, eles formavam um grupo coeso cujo senso de amizade era bastante intenso, e o Alton além de ser muito querido por eles, também era o que os liderava. Isso me fez compreender o porquê de o estarem acompanhando naquela viagem que inicialmente tinha um propósito completamente diferente. Não o abandonaram quando precisou dessa amizade.
Eu nunca tinha andado com um grupo assim, composto de machões que basicamente só falavam de mulheres, particularmente as que tinham fodido e que eram sempre muito gostosas, o que era uma evidente maneira de se autoproclamarem desejáveis; de futebol ou outros esportes nos quais eram experts; e de tudo que estava relacionado a máquinas, tanto carrões esportivos quanto motocicletas potentes. Portanto, assuntos dos quais eu estava mais por fora do que bunda de índio. Obviamente que eles logo notaram minha ignorância nesses assuntos e, não tenho dúvida, sacaram que eram os mesmos aos quais gays eram pouco afeitos e, certamente as especulações quanto aminha masculinidade começaram a ser sondadas. Isso não os impediu de serem gentis e engraçados para comigo, sem fazerem insinuações ou me dirigirem indiretas provocativas. De certa forma, parecia que estavam me aceitando como eu era, discreto, comedido, muito mais recatado e tímido do que eles, porém com um papo inteligente e sensato.
Passar mais tempo ao lado do Alton também me fez enxergar suas qualidades e não me refiro apenas às físicas, que são indiscutivelmente um sonho para qualquer mulher ou gay, mas as de sua personalidade. O fato de conseguir estar se divertindo depois de ter sido abandonado aos pés do altar e levado um golpe do sócio nos negócios indicava que ele era um sujeito forte e determinado. E, ao o observar mais de perto, tenho que admitir que começava a gostar dele. Não pensava nele como um substituto para o Piers, isso não. Porém, via-o como um homem com quem um gay como eu podia ser feliz, a despeito dele ser um hétero machão que talvez só precisasse do estímulo certo, ou da pessoa certa para ele se abrir a novas possibilidades.
Durante a estada em Istambul fomos tomar uns drinques no final da noite no 16ROOF bar do Swissotel do lado europeu de onde se tinha uma esplêndida vista do Bósforo e da parte asiática da cidade. Com o luar prateado ao fundo resolveram tirar umas fotografias junto ao parapeito de vidro do décimo sexto andar. Meu pavor doentio de altura me impediu de aproximar da beirada e virei motivo de gozação. O Alton e um dos amigos me abraçaram cada um de um lado e me conduziram tremendo feito uma vara verde até ficarmos enquadrados na paisagem.
- Medroso! Duvido que você ia ter coragem de pular do navio daquela altura toda se está se borrando todo agora que está em terra firme e cercado de proteção. – caçoou o Alton.
- Tento medo de altura, sim, qual é o problema? Vocês são umas pestes, sabiam? – eles riram.
Depois de Istambul, o cruzeiro passou novamente pelo Estreito de Dardanelos em direção a Santorini e ao porto de Pireus em Atenas iniciando seu caminho de volta. Foi durante o dia passado em Oia, com suas vielas estreitas e floridas ladeadas por casas brancas de janelas azuis e suas igrejas com seus domos também azuis dominando a paisagem que um dos amigos do Alton me interpelou quando estávamos observando o inesquecível pôr do sol na praça central em frente à igreja de Panagia de Platsani que nessa época do ano não era tão concorrido quanto no verão, porém não deixava de ser um espetáculo para os olhos.
- O Alton deve ter te contado pelo que acabou de passar. Ele é meio fechado quando se trata de falar de sua intimidade, mas sabemos que ele está sofrendo bastante. Ele e a Arlene namoravam a cinco anos, no último moraram juntos e pareciam ter sido feitos um para o outro. Nós gostávamos dela apesar das restrições que ela tinha para conosco por conta de roubarmos muito a atenção do Alton, o que a deixava enciumada e pouco simpática conosco.
- Sim, eu percebi que ele está bastante abalado com o que aconteceu, mas acho que ele vai superar rápido, dá para ver que é um cara de personalidade forte. – argumentei.
- Nenhum de nós sabe o que rolou entre você e o Alton, e porque ele está fazendo tanta questão dessa amizade com você. Também percebemos que você é muito diferente das amizades dele e, veja bem, isso não é nenhuma crítica a você que é um cara bem legal pelo que constatamos. O que vem nos intrigando é a maneira como ele olha para você e você para ele, tem algo esquisito nisso porque o Alton nunca foi de reparar em homens bonitos como você. Não queremos dizer o que ele pode ou não fazer da própria vida, porém nesse momento ele está vulnerável e pode não tomar as melhores decisões. O que nenhum de nós quer, é que ele se magoe ainda mais no futuro por ter tomado uma decisão errada, entende?
- Você é um bom amigo, sem dúvida! Diga aos demais para não se preocuparem, não quero e não vou magoar o Alton, ou fazer com que tome uma decisão da qual venha a se arrepender depois. Eu mesmo não atravesso um dos melhores períodos da minha vida e não quero envolver ninguém nos meus problemas. Também quero que saibam que não fui eu quem o procurou, e sim ele que veio à minha cabine tarde da noite para me convidar para um drinque que acabou nos aproximando. Se acharem melhor, posso me afastar dele sem problemas. – afirmei
- Não! Não precisa de nada tão extremado. Eu só quis te dar esse recado.
- Ok! Recado dado!
- Me desculpe se fui muito incisivo! A gente gosta muito dele, só queremos mantê-lo longe de problemas! – tentou remendar
- Eu entendi, não se preocupe! – devolvi.
Embora não tenha gostado de ouvir a ameaça velada do amigo do Alton, ela me serviu de alerta para não me deixar levar pelo charme e jeito sexy dele. Ainda fiz os passeios em Atenas com o grupo naquele dia. Foi o último antes de me afastar do Alton. Caminhando pelos rochedos escarpados da praia de Erotospilia uma aranha cujo diâmetro mal chegava aos 6cm saltou de um arbusto para sunga do Alton quando ele resvalou nele. O que se seguiu foi a mais hilária das cenas que já presentei, um homão parrudo feito ele pulando e gritando como um garotinho apavorado. Os amigos não perdoaram e zoaram com ele até não mais querer.
- Depois caçoa do meu medo de altura, não tem vergonha de fazer todo esse escândalo por causa de uma simples aranha? – questionei rindo.
- Esses bichos mordem! – devolveu zangado
- Ah, sim, sem dúvida! Eles são capazes de arrancar pedaços do seu corpanzil! Deixa de ser medroso, quando muito picam, e não mordem, para seu governo! E essa está fugindo da sua berraria! – retruquei. Ele rosnou na minha direção.
Tive tempo para refletir durante todo o dia seguinte quando o navio passou o dia em alto mar navegando em direção a Katakolon, onde já não os acompanhei mais.
- Onde se meteu? Faz dois dias que não te vejo! Fiz ou falei alguma coisa que te aborreceu? – perguntou o Alton quando veio me

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