Iniciado pelo vizinho tarado

Por: Henrique • 20/07/2026 • 31114 leituras
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Iniciado pelo vizinho tarado

Fazia mais de um ano que, da janela da sacada do meu quarto, não se via qualquer movimento na casa vizinha. Quando os antigos proprietários, uma família com dois filhos pequenos, se mudou, a casa entrou em franco declínio. O outrora bem cuidado jardim viu as ervas daninhas se espalhando pelo gramado e pelos canteiros antes floridos, as vidraças acumularam poeira e, gatos que perambulavam pelo bairro resolveram se apossar do quintal protegido para acasalar em meio a miados e gritos estridentes, nas noites abafadas do verão, perturbando meu sono com sua algazarra esganiçada. Numa manhã de julho, durante as minhas férias, quando acordei um pouco mais tarde aproveitando o ócio sob as cobertas, vozes se fizeram ouvir vindas da casa abandonada. Logo constatei tratar-se de um empreiteiro e seus funcionários que, em alto e bom som, até com alguns assobios, começavam uma reforma no imóvel. O entra e sai de materiais de construção e entulho durou cerca de dois meses. Novas cores em paredes e janelas, um gramado recém-plantado e novos arbustos com flores diversas renovaram o imóvel. Sinais dos novos vizinhos se fizeram presentes quando notei que havia dois carros na garagem. A mudança deve ter ocorrido no período em que eu estava na faculdade, pois não a presenciei.

Eu estava estudando diante de uma pilha de livros abertos sobre a minha mesa de estudos quando o novo vizinho acenou cordialmente com um sorriso da janela onde outrora ficava o quarto de um dos filhos do casal que se mudara. Ao que parecia ele o havia transformado em seu escritório, pois também estava diante de uma mesa de trabalho com um notebook aberto aproveitando a iluminação que entrava pelo imenso janelão quase vis-à-vis com o do meu quarto.

- Olá! Bom dia! – cumprimentou o homem, num tom de voz ligeiramente acima do normal para garantir que eu o ouvisse.

- Bom dia! – respondi, um pouco surpreso com a amabilidade e por ter sido inesperadamente interrompido na minha concentração sobre os livros.

- Meu nome é Henrique, seremos vizinhos de agora em diante! Também empenhado no trabalho ou ainda está estudando? – perguntou, aproximando-se mais da janela para facilitar a comunicação.

- Sou Rafael, muito prazer! Ainda estudando! – respondi, tendo a mesma atitude dele, pois não queria ficar berrando do interior do quarto.

- Ensino médio ou faculdade?

- Faculdade! Comecei este ano. – esclareci

- O que está estudando? – obviamente ele não devia estar interessado nisso, pois era um homem feito, aparentemente, com idade para ser meu pai, o que só indicava que essa cordialidade se devia a intenção de puxar assunto e, assim, estabelecer algum laço de boa vizinhança.

- Direito. – respondi, observando mais atentamente aquele homem que começava a me parecer bem interessante.

- Não brinca! Sou advogado! Estou à disposição se precisar de alguma orientação. – ofereceu solícito.

- Legal! Obrigado. – não sei porque ficar sabendo que ele tinha a mesma profissão que eu queria abraçar me deixou tão contente. Teria a ver com a profissão ou com aquele rosto tremendamente másculo que não parava de me encarar com aquela amabilidade toda?

Encontrei-o outras vezes naquela semana, sempre pelas janelas e, geralmente depois que eu voltava da faculdade e me punha a estudar ou jogar videogame diante do computador. Ele parecia estar empenhado no trabalho, também diante do computador, quando nos cumprimentávamos e uma curta conversa sobre alguma banalidade qualquer se estabelecia entre nós. Numa dessas ocasiões, uma mulher, mais ou menos com a mesma idade dele, o interrompeu em seus afazeres e ele aproveitou para me apresentar como sua esposa. Ao que tudo indicava, não tinham filhos, pois ele não fez menção alguma a isso durante nossos papos.

Ao mesmo tempo em que a proximidade de nossas janelas, que não deveria atingir mais do que uns seis metros de distância, se mostrava providencial para que eu admirasse nitidamente o corpo atlético do meu vizinho, ela também se mostrava um tanto devassa, interferindo na minha privacidade, o que me obrigava a puxar as cortinas toda vez que saia do banho ou ia me trocar, um hábito que estava se mostrando difícil de incorporar, uma vez que nunca tive que me preocupar com isso antes. A primeira vez que isso me ocorreu foi quando me preparava para encontrar uns amigos e, inadvertidamente, desenrolei a toalha da cintura e fui à cata de uma cueca nas gavetas do armário, o que deixou minha bunda voltada para a janela e, para o olhar intrigante do Henrique.

- Desculpe! Não havia notado que estava aí! – exclamei, corado, quando notei aquele olhar fixo no meu corpo.

- Não se preocupe! Acontece! – devolveu ele sorrindo, depois de um tempo mudo, no qual ele parecia estar envolto com algum pensamento que lhe passava pela mente.

Por volta da terceira ou quarta semana depois da nossa primeira conversa, quando eu seguia rumo à faculdade, numa manhã de garoa fina, para pegar o ônibus que passava na avenida a uma quadra de casa, uma buzinada, quase rente à calçada pela qual eu caminhava distraído, me fez levar um susto e esgueirar o corpo mais para longe da rua.

- Desculpe! Não foi minha intenção assustá-lo! – exclamou o Henrique, pelo vidro aberto do carro. – Posso te oferecer uma carona? – perguntou com um sorriso estampado no rosto.

- Não obrigado! Não quero te desviar do seu caminho. – respondi acanhado, pois era a primeira vez que não havia aqueles seis metros entre nós e, àquela pouca distância, ele me pareceu intimidador.

- Deixe de bobagem! Vamos, entre aí eu te levo, antes que comece a chover mais forte. Está indo para faculdade? – antes mesmo de eu responder, ele abriu a porta do lado do passageiro e estacionou sem se importar com o fluxo de veículos que vinha atrás e, de onde já vinham buzinadas irritadas.

- Bom dia! Não é necessário, vai acabar se desviando do seu caminho. – proferi, quando me sentei ao seu lado.

- Em que faculdade estuda? – indagou, ignorando minhas palavras. – Então não está me desviando do meu caminho! – exclamou, assim que mencionei o nome da faculdade.

- Bem! Sendo assim, agradeço a gentileza! – exclamei, após ele mencionar que estava seguindo na mesma direção.

- Podemos seguir juntos todos os dias, se seu horário for sempre esse. – afirmou cortês. Eu ainda tentei, em vão, argumentar com algumas desculpas para não atrapalhar sua rotina. Ele parecia bastante empenhado para que nossos encontros se perpetuassem. Com que finalidade, eu ainda me questionava?

Com as caronas se repetindo diariamente, deu para eu observar mais detalhadamente aquele homem que ia se tornando cada vez mais interessante, inteligente, sedutor e, mesmo que eu tentasse não admitir, sexualmente atraente. Algo naquela maturidade, nos braços vigorosos que se desenhavam sob as mangas da camisa, nas coxas musculosas que deixavam o tecido da calça muito justo e, num volume bem protuberante no meio delas me despertava instintos que eu trazia trancados a sete chaves. Eu ainda relutava em admitir que me sentia atraído por homens, que meu cuzinho se mostrava mais disposto a satisfazer meus desejos carnais do que a minha pica, que era um gay enrustido com uma miríade de razões para não me expor e revelar minha natureza mais íntima. Houve ocasiões nas quais parecia que meus esforços nesse sentido eram inócuos, pois alguns caras chegaram a me dirigir gracejos, ou fazer menção à minha bunda, ou ao meu rosto imberbe e um tanto andrógino, apesar de bonito e harmonioso. Eu sempre me revoltava diante dessas observações, mais culpando a mim mesmo do que a quem me dirigia o bullying, como se a culpa por eu ser assim fosse exclusivamente minha.

Diante do Henrique e, de seus elogios ao meu corpo, à minha maneira de ser, do jeito com o qual me expressava, nunca me senti acuado como das outras vezes. Aceitar seus elogios me parecia a coisa mais natural do mundo, embora algumas vezes eles enveredassem com mais intimidade do que o recomendável para simples vizinhos. Quando ele colocava sua mão quente sobre a minha coxa enquanto dirigia, eu já não sentia mais aquele choque, como se uma descarga elétrica tivesse me atingido, como aconteceu na primeira vez em que ele teve essa atitude, mas ainda me inquietava sentir como ela deslizava disfarçadamente sobre a minha perna sem que eu a afastasse. O mesmo aconteceu quando ele, numa manhã, pouco antes de eu descer em frente à faculdade, se inclinou na minha direção e pousou um beijo muito fugaz, inesperado e úmido no canto da minha boca como forma de se despedir. Quem observasse a cena de fora não viria mais do que um pai se despedindo carinhosamente do filho. No entanto, não éramos pai e filho e, o sabor daqueles lábios me deixou confuso e irrequieto durante todo aquele dia, despertando em mim o desejo de que ele se repetisse com toda a intensidade que minha imaginação o alimentava. Se eu não fosse tão tímido e cagão, me lançaria nos braços daquele macho que vinha tornando minhas noites sozinho na cama cada vez mais perturbadoras.

- Quem é o coroa? – perguntou o César ao me ver descer do carro, um colega da faculdade que, por sorte, não flagrou o Henrique me dando seu costumeiro selinho.

- Meu vizinho. – respondi, tentando esconder o embaraço que a observação dele me causou.

- É a quarta vez esta semana que o vejo te trazendo para a faculdade. Como é que surgiram repentinamente essas caronas? – pronto, eu podia me preparar para o interrogatório! Era típico do César bisbilhotar minha vida, como se fossemos mais do que simplesmente colegas de curso.

- É o caminho dele para o trabalho. – retruquei

- O que ele faz?

- É advogado.

- Onde ele trabalha?

- Sei lá! Não fiz investigações da vida dele. Deve ter seu próprio escritório, ou trabalhar numa empresa, como é que vou saber. E, o que isso importa? – questionei irritado com a curiosidade dele.

- É meio estranho ele se propor a te dar carona, um coroa como ele fazer isso sem nenhuma intenção, é mais do que estranho! – exclamou.

- Como assim, um coroa como ele? O que você quer dizer com isso? – indaguei perplexo, temendo que ele já desconfiasse que eu me sentia atraído pelo Henrique. De tão encanado que alguém descobrisse que eu gostava de homens, eu chegava a delirar.

- Ora, o cara faz o gênero garanhão maduro! Só um cego não vê. – respondeu

- Não viaja! Você acha que todo cara bem-apessoado é um cafajeste feito você! – retruquei.

- Bem-apessoado? Essa é boa! Só você mesmo para definir um caça-bucetas de bem-apessoado. – zombou irônico.

Conheci o César ainda no curso pré-vestibular. Não estudávamos na mesma classe, mas eu costumava vê-lo pelos corredores do cursinho, geralmente agarrado e aos amassos com uma argentina que a maioria da galera definia como exótica, pois, além de alta, tinha um rosto bem quadrado e uma boca enorme; andava com umas blusas largas cujas mangas chegavam a encobrir suas mãos de tão compridas. Eu não a achava exótica, eu a achava feia, e seu sotaque carregado irritava os ouvidos. No entanto, o César parecia não compartilhar da mesma opinião a respeito dela, uma vez que era comum pegar os dois num canto do saguão que dava para as salas de aula, se beijando como se fossem protagonistas de um filme pornô. O César a encurralava no canto e chegava a gingar os quadris como se estivessem copulando. Não havia quem não conhecesse o casalzinho tarado no cursinho. Embora o comportamento dele despertasse calores nas bucetas de algumas garotas, não era o tipo pelo qual a maioria delas estava interessada. Ele usava umas camisetas justas ao tronco volumoso com o claro intuito de impressionar, mas o jeans largo, usado sem cinto, que sempre estava abaixo da cintura e que, todas as vezes em que ele se abaixava deixava à mostra seu cofrinho, era o que de mais relaxado podia existir. A isso se juntava o par de tênis surrado e imundo que não era trocado, não por falta de recursos, pois ele estava longe disso, mas por puro relaxamento. Assim, não havia como ignorar aquele casal bizarro, embora eu nunca tivesse trocado uma única palavra com nenhum dos dois.

Fui reencontrá-lo novamente na faculdade. No primeiro dia levamos o trote dos veteranos juntos e, talvez por eu ser a única cara que ele conhecia, acabou se sentando ao meu lado quando as aulas efetivamente começaram. Só então, começamos a conversar e, com o tempo, nos tornamos amigos, se é que dois sujeitos tão diferentes podiam formar uma amizade. Mas, ela aconteceu, apesar das diferenças, e eu passei a me acostumar ao seu comportamento bizarro. Acabamos por nos dar bem, embora defendêssemos posições quase que diametralmente opostas em algumas questões, o que nos levava a ter alguns bate-bocas durante os trabalhos que fazíamos em grupo. Isso, porém, não impedia que muitas vezes estudássemos juntos para as provas. Ele também havia mudado o visual depois de entrar na faculdade, estava menos desleixado, mas o jeans largo, agora preso a um cinto na cintura, continuava fazendo parte de sua marca registrada. Quando o questionei sobre a possibilidade de comprar um número menor, que se ajustasse mais ao seu corpo, que reconhecidamente era bem desenvolvido, ele me respondeu na maior cara de pau que dentro de um jeans mais justo não conseguiria disfarçar as inúmeras ereções que o acometiam.

- Cara, você é um doente! Um pervertido sexual compulsivo! Vá se tratar, seu tarado! Ainda por cima fica fazendo propaganda de sua compulsividade, isso só pode ser necessidade de autoafirmação. – afirmei, injuriado com sua desfaçatez.

- Todo macho fica com a pica dura! Vai me dizer que você não. Se sua pica não endurece quem tem problemas é você e não eu. - revidou altivo.

- No teu caso é doença, vai por mim! – exclamei. – E, me poupe de seus arroubos, não tenho o menor interesse neles! – emendei, querendo encerrar o assunto.

- Não é o que parece! – mandei-o à merda.

Não bastava eu andar curtindo um tesão pelo Henrique quando ele, talvez sem intenção, se pôs a trabalhar diante de seu computador sem camisa e trajando apenas um short, na privacidade e conforto do lar. Eu já o havia despido uma centena de vezes na minha imaginação, mas nada chegou perto do que meus olhos contemplavam por detrás da cortina fina do meu quarto numa tarde abafada quando, eu mesmo, só usava uma bermuda. Fiquei de pau duro, cuzinho assanhado, sentindo mais calor do que a tarde realmente manifestava. Eu conjecturava, já sem nenhum escrúpulo, a possibilidade de me deixar foder por aquele macho viril ao menor interesse dele nesse sentido. Algo me dizia que aquela mão na minha coxa, aqueles olhares indecifráveis, o toque sutil daqueles lábios diariamente sobre os meus quando eu descia do carro era a abertura que ele me oferecia. Contudo, minha inexperiência nesse campo, especialmente no homossexual, e meu receio de estar completamente enganado quanto tudo aquilo, me deixavam na retaguarda. Afinal, o cara era casado, tinha idade para ser meu pai, nunca pronunciou uma única palavra sequer quanto a uma eventual intenção de me enrabar. Tudo podia não passar de um delírio de minha parte. Sem saber mais como lidar com a situação, querendo pôr um fim naquele tesão incontrolado que me aporrinhava e, querendo encerrar meu contato diário com ele antes que ele desconfiasse das minhas intenções, resolvi pular fora daquela armadilha que o destino havia me pregado.

- O horário da minha primeira aula mudou e não vou mais continuar pegando carona com você, Henrique. Assim você fica livre desse sacrifício e de eu atrapalhar seu caminho. – afirmei, com a maior convicção que pude entonar na minha voz. Tão claro como água ele percebeu que eu estava mentindo, que era uma desculpa esfarrapada para deixar de pegar carona com ele.

- Por que está inventando essa desculpa? – questionou, tão objetivo que fiquei por uns instantes gaguejando para encontrar uma resposta.

- Não é uma desculpa, meu horário mudou! – insisti.

- E o que te impede de pegar carona comigo e chegar um pouco mais cedo na faculdade? – ele estava me testando para ver até onde eu iria com aquela mentira.

- Posso dormir até um pouco mais tarde!

- Olhe bem para mim! Não, olhe nos meus olhos! Isso, assim. Você é um tesão de garoto e me deixa maluco cada vez que está ao meu lado. Quando eu digo maluco é isso aqui, dá uma olhada! – exclamou, me mostrando uma ereção enorme sob a calça. – Pensei que você ia se abrir com o tempo diante dos meus pequenos assédios, que talvez estivesse inseguro, ou até sem nenhum desejo por um cara mais velho como eu, mas não querer mais me ver exige que eu me posicione e te diga que estou a fim de você. Entende onde quero chegar? – e como eu entendia, ainda mais com esses olhos me fitando com tanto tesão.

- Sua idade não tem a menor importância para mim! É que eu não sei como agir. – revelei encabulado.

- Que tal começar assim? – indagou, soltando o cinto de segurança depois de estacionar junto à calçada numa rua menos movimentada que fazia parte do nosso trajeto, e me tomando em seus braços num beijo libidinoso no qual não levou nem alguns segundos depois de eu abrir minha boca para enfiar a língua dentro dela.

A língua dele me explorava e eu, de repente, senti como se meu cu estivesse pegando fogo. Eu tremia todo em seus braços e ele certamente estava percebendo o quanto um simples beijo estava mexendo comigo. Ele soltou meu cinto de segurança do engate, acionou a alavanca que reclinava meu banco e jogou o peso do corpo dele sobre o meu, enquanto beijos e chupadas desciam pelo meu pescoço em direção ao meu peito, completamente exposto depois de ele levantar minha camiseta até a altura dos mamilos. Agora era eu quem estava completamente maluco, meu corpo experimentava sensações que eu nunca tinha sentido antes; quando sua ereção roçou perceptivelmente minha coxa e, aquela boca quente se fechou ao redor do meu mamilo, sugando-o com força e mordendo meu biquinho enrijecido, eu soltei um gemido de puro êxtase.

- Ainda quer fugir de mim? – questionou, num sussurro cheio de tesão.

- Não! – balbuciei confuso, pois não seria mais capaz de fugir do meu destino.

- Ótimo! Não resta mais dúvida do que estou a fim de fazer com você, embora, no momento, não sabia o que fazer com isso aqui. – afirmou, me exibindo a ereção aprisionada sob a calça molhada pelos fluidos que sua excitação deixou escapar.

Num gesto ousado e inédito, eu levei minha mão até ela. A rola pulsava arrojada debaixo da calça como se tivesse vida própria. Tateei sem saber o que fazer, embora estivesse louco de vontade de ver a pica dele mais de perto. Ele guiou minha mão até o zíper da braguilha insinuando seu desejo. Eu o abri, enfiei meus dedos na abertura, vasculhei até encontrar a fenda da cueca e tirei o cacetão pesado para fora. Devo ter arregalado os olhos diante da caceta grossa, reta e cheia de veias intumescidas, que gotejava um fio viscoso e translúcido com um perfume quase alucinógeno.

- Gostou? – indagou, ao me ver perplexo diante de seu mastro colossal. Eu apenas acenei positivamente com a cabeça, pois minha boca estava seca e louca para colocar aquilo para dentro dela. – Põe na boca e me chupa, garoto! – exclamou, parecendo adivinhar minha intenção.

Antes do pré-gozo espesso se soltar da cabeçorra, meus lábios o capturaram, sorvendo-o delicada e prazerosamente. O Henrique soltou um som que emergiu diretamente do fundo da garganta ao sentir minha boca macia se fechando ao redor da glande estufada. Ele agarrou minha cabeça com força e meteu a pica na minha garganta, até eu me debater com a falta de ar. Eu mal podia acreditar no que estava acontecendo, um caralhão todinho à minha disposição para ser chupado e degustado, como nos meus mais imprevisíveis sonhos. Desajeitado, fui tentando inúmeras posições que colocassem o máximo daquela rola na minha boca, enquanto chupava feito um alucinado o suco morno que dela minava. Abri a calça dele até conseguir visualizar todo o equipamento que aquele macho tinha, passando a acariciá-lo à medida que meus dedos conseguiam acesso ao sacão com suas bolas gigantescas bem delineadas dentro dele.

- Nunca mamou uma caceta, não é garoto? Delícia ver seu deslumbramento com a minha pica. Chupa, que ela é todinha sua! – grunhiu ele, enquanto eu não afastava meus lábios daquela carne intrépida e sensualmente impudica.

Dois estudantes a caminho da escola passaram por nós, um cutucou o outro quando percebeu o que rolava dentro do carro e, duas risadas libertinas se formaram em suas caras espantadas. Foi o que me fez entrar em desespero, íamos ser apanhados em flagrante cometendo um atentado ao pudor, mas o Henrique não parecia preocupado com isso, só com o desejo iminente de gozar na minha boca. Antes que eu o pudesse advertir da nossa imprudência, ele ejaculou enchendo minha boca com sua porra morna, pegajosa e levemente adocicada. Engoli os jatos abundantes como se fosse um nômade perdido no deserto e, aquele sumo viril fossem os goles de água pelos quais ansiava. No rosto do Henrique havia uma satisfação libidinosa na forma de um sorriso doce dirigido ao meu olhar meigo.

- Depois dessa, só tenho uma certeza! Hoje você vai perder suas aulas! – exclamou, colocando desajeitadamente a rola dentro da calça e assumindo sua posição ao volante. O caminho que fez não me levou à faculdade, mas a um motel. Eu tremia feito uma vara verde, no entanto, estava disposto a ir até as últimas consequências para descobrir que outros prazeres podia experimentar com aquele macho fogoso.

Eu nunca estivera num motel antes, devia estar parecendo um bobalhão diante da experiência daquele homem. Porém, ele foi sutil e carinhoso quando trancou a porta da suíte e se aproximou de mim, num abraço por trás que envolveu minha cintura e me puxou para junto do corpo quente dele. Suas mãos subiram por baixo da minha camiseta e voltaram a bolinar meus peitinhos, ao que tudo indicava, eles exerciam um fascínio sobre o Henrique, cujo potencial eu jamais havia imaginado existir neles. Ao tirar minha camiseta pela cabeça, ele abocanhou um deles e foi cravando lenta e suavemente seus dentes nele, até a mordida se tornar perceptível e até dolorida, quando então, ele travou meu mamilo entre eles e o tracionou com força. Eu gemi e, teria a lembrança dessa assediada marcada por dias seguidos, na forma de um hematoma arroxeado. Suas mãos deslizaram para dentro do cós do meu jeans e agarraram minhas nádegas. Era a primeira vez que um homem chegava ali, com um olhar expressivo e cobiçoso brilhando diante da minha perplexidade. Era inegável que eu estava gostando daquilo, um macho a fim de mim, um sonho que estava se tornando real. Eu o enlacei pelo pescoço e juntei meus lábios aos dele, o que o deixou perceptivelmente contente, pois logo senti sua língua entrando na minha boca. Beijar um homem era mais gostoso do que eu havia imaginado. O calor que o acompanhava não existia no imaginário e, era ele quem dava sentido ao beijo. Meu jeans estava embolado aos meus pés, sem que eu percebesse como isso aconteceu. Mas, eu estava nu.

- Você é lindo, garoto! Que corpo! É só tesão! – murmurou o Henrique ao me escrutinar da cabeça aos pés, o que me deixou constrangido.

- Por que você insiste em me chamar de garoto? Já fiz dezenove anos, não sou nenhum menino. – protestei, incomodado com aquele adjetivo que, em sua boca, parecia tomar um significado maior.

- Não gosta que eu o chame de garoto? Eu adoro pensar em você nesses termos. Não como um menininho, mas como um belo mancebo virgem. Sinto um tesão da porra quando penso na sua inexperiência. – devolveu, mais compreensivo e gentil do que eu esperava.

- Sei lá! Acho estranho, me sinto um bobalhão. – expliquei.

- Você não é um bobalhão! É um garoto doce e tesudo que me deixa maluco. – afirmou sorrindo. – Se não quer que eu o chame assim, tudo bem! Mas, eu ia gostar muito se você me permitisse. – emendou. Que mal havia? Para um homem maduro como ele eu era mesmo um garotão.

Resolvi esquecer esse detalhe e me focar naquilo que eu ainda não conhecia, a total nudez daquele macho viril. Ele sorriu quando desabotoei sua calça e comecei a procurar pela verga enrijecida dentro dela. O sabor da porra que ela havia despejado na minha boca ainda se fazia sentir, e eu queria mais uma dose daquele sumo másculo. Completamente pelados fomos até a jacuzzi que ele começara e encher assim que chegamos ao quarto e, onde os jatos faziam a água borbulhar formando círculos na superfície. Ele entrou primeiro e me estendeu os braços, nos quais deslizei e fui envolvido ao mesmo tempo em que tornava a beijá-lo. Seus beijos me enlouqueciam, faziam meu cuzinho piscar feito um semáforo defeituoso num dia de chuva, e pelo qual seus dedos libertinos estavam arrebatados. Eu era tarado por um peito feito o dele, peludo sem excessos, bem delineado, aconchegante, sensual, gostoso de acariciar. Por isso, meus beijos logo caminharam em sua direção, o que parecia ser do total agrado do Henrique, pois ele me acompanhava com o olhar, sem bloquear o caminho sedutor que minha boca fazia. Ao redor do umbigo, ele já não conseguia mais manter a mesma disciplina e seu corpo começou a se mover desajeitadamente cada vez que meus lábios tocavam seus pelos ao redor dele. No entanto, o que me deixou com mais tesão, foi ver o caralhão dele empinando progressivamente até a cabeçorra aflorar na superfície da água. Eu o encarei quando fechei meus lábios e a coloquei na boca. Ele gemeu, recostou-se na jacuzzi, abriu as pernas peludas e me franqueou seu falo e aquele sacão tentador. Chupei-o e acariciei seus culhões demoradamente enquanto ele, de olhos fechados, se deixava aliciar.

- Vem cá meu garotão! Agora é o papai quem vai brincar com você! – exclamou, vindo para cima de mim e me debruçando sobre a borda da banheira. O turbilhão que agitava a água com seus jatos agora estava bem debaixo do meu ventre atiçando minha pele com a água tépida.

O Henrique abriu minhas pernas, beijou e mordeu minhas nádegas, antes de apartá-las e expor meu reguinho profundo e deliciosamente estreito, com o intuito de ver o que tanto cobiçava em mim, o cuzinho rosado e diminuto que se escondia no fundo dele. Quando a ponta de sua língua roçou minha rosquinha eu voltei a gemer, não um gemido solto, perdido e único, mas um gemer constante que, mesmo assim, não dava conta de expressar todo o tesão que estava sentido. Ele ficou um tempo mordiscando e lambendo o entorno do meu cu, até ter a certeza de que eu estava excitado a ponto de suportar o que estava por vir. A prova da qual ele precisava veio quando enfiou o dedo no meu cuzinho e, ele se travou num espasmo abrupto querendo devorar seu dedo devasso. A ganida quase chorosa e suplicante complementou sua certeza de que eu estava pronto. Ele foi montando em mim, seus braços se fecharam ao redor do meu tórax, suas pernas vigorosas envolveram as minhas, o caralhão se alojou no meu rego e, os movimentos da pelve dele o faziam deslizar dentro dele.

- Quero esse cuzinho! – sussurrou o Henrique no meu ouvido, com a voz grossa e rouca que quase me fez delirar.

Uma de suas mãos guiou o cacetão até a portinha do meu cu e o forçou contra a fendinha travada. A respiração dele havia acelerado e eu a sentia morna no meu cangote, a exigir minha rendição. Uma empinada da bunda para me ajeitar melhor foi o suficiente para ele me penetrar com força. Um grito escapou da minha boca contraída pela dor. A cabeçorra foi aprisionada entre os esfíncteres que se travaram assim que ela os atravessou, rasgando-os. O Henrique aguardava, como que atocaiado a espera de um relaxamento da minha musculatura anal, para continuar metendo a jeba em mim. A dor lancinante me fizera suspender a respiração por longos segundos e, quando voltei a inspirar o ar, o cu afrouxou e ele meteu mais um tanto daquele cacetão grosso em mim. Meu rabo apertado o deixou ensandecido, com estocadas brutas ele ia enfiando o caralhão cada vez mais fundo e, para mim, só restou gemer e ganir feito uma cadela submissa. Enquanto ele me fodia, num vaivém intrépido e vigoroso, eu me perguntava onde estava o prazer, pois tudo que sentia era aquela dor se intensificando e tomando todo meu baixo ventre. Mesmo assim, as estocadas e a pica balançando solta dentro da água morna me fizeram gozar, espalhando os grumos de porra leitosa que se dispersavam com a agitação da água. Prazer e dor caminhavam juntas, descobri então e, havia muito a ser descoberto ainda, mal sabia eu naquele instante. Quando o vaivém do peso do corpo do Henrique sobre o meu começou a se intensificar, e meus gemidos ecoavam sonoros pela suíte, ele enfiou dois dedos na minha boca na intenção de conter meus ganidos. Eu os chupei, enquanto ele mordiscava minha nuca e socava o cacetão no meu cu. Aos poucos, ele me apertava com mais força, seu corpo se retesava e eu ouvia sua respiração acelerada se tornando um grunhido rouco, umas estocadas brutas o fizeram gozar e, em segundos eu senti meu cuzinho sendo encharcado com sua porra saindo em jatos potentes.

- Ah, meu garoto! Meu Rafael tesudo e gostoso! Que gozada maravilhosa! – exclamou arfando, com sua voz rouca e, de repente, tão sensual aos meus ouvidos sensibilizados por aquele macho viril.

O Henrique havia rasgado minhas pregas, o que eu devia ter imaginado logo que vi a espessura daquele caralhão, mas como eu estivera entretido em outros detalhes daquele macho, agora penava com o não uso de algum lubrificante para a minha primeira vez. Ele se desculpou por também não ter se lembrado desse detalhe, alegando que estava tão fissurado em mim que só pensava no meu cuzinho agasalhando sua rola. Eu só queria estar nos braços dele, beijá-lo por todos os lugares daquele corpão másculo e esquecer o mundo lá fora. Até mesmo do desatino que estava cometendo, faltando às aulas, me enfiando com um homem mais velho num motel, trepando numa devassidão sem rédeas como se fosse uma puta. Enquanto me abrigava em seus braços, depois de nos secarmos e nos deitarmos na cama, eu me perguntava onde havia ficado aquele filho obediente, aquele rapaz sensato e equilibrado que não fugia de suas obrigações, aquele jovem tímido que lutava em aceitar que era gay. O esperma pegajoso que estava no meu rabo parecia diluir cada uma dessas transgressões e, me lançava num mundo desconhecido, não apenas fascinante, mas também prazeroso.

Passamos o dia trancafiados naquela suíte, num mundo só nosso, onde nossa única preocupação era dar e sentir prazer um com o outro. O Henrique me penetrou mais duas vezes, algo que eu achava ser impossível de acontecer, ou que só existia no mundo da pornografia. No entanto, aquela verga não só endurecia com uma facilidade tremenda à menor carícia que minhas mãos roçando nela provocavam, como parecia ter um tropismo inato pelo meu cuzinho, onde deslizava num mergulho certeiro até chegar ao fundo das minhas entranhas, deixando nelas aquele néctar que aplacava o ardor da minha mucosa esfolada em brasa.

- Por onde você andou? – questionou minha mãe, assim que botei os pés em casa, já no final da tarde.

- Na faculdade, onde mais? E na casa de um colega para fazer um trabalho. – menti.

- Então por que o César ligou para cá perguntando por que você não foi às aulas hoje? – caralho, só me faltava essa. Que raios esse bisbilhoteiro tinha que ligar para cá justo hoje? Mas, o pior seria concertar a mentira, pois o olhar da minha mãe estava esperando pela verdade.

- O que aquele enxerido queria? – perguntei, tentando fugir de uma explicação. – Em vez de ficar se metendo na minha vida ele devia ir cuidar das negas dele! – asseverei irado

- Saber por onde você andou, assim como eu! – exclamou desconfiada. – Ele se preocupa com você! É um bom amigo! – não me faltava mais nada, ainda davam razão para o intrometido do César.

- Fui resolver umas coisas!

- E por que mentiu dizendo que esteve na faculdade quando nem apareceu por lá? Rafael, trate de não me aprontar besteira! Seu pai não vai gostar de saber dessa novidade. – ameaçou.

- Precisa contar para ele? Não fiz nada de errado, porra!

- Olha esse linguajar! Já que estamos tendo essa conversa, dá para me explicar que história é essa de você pegar carona todos os dias com o novo vizinho? – pronto, encurralado e sem poder me justificar, a menos que inventasse outra mentira.

- É o caminho dele para o trabalho.

- E como você ficou sabendo disso? Eles se mudaram há poucos meses. De onde surgiu tanta intimidade com esses vizinhos? – era a própria inquisição querendo ver rolar a minha cabeça.

- Não tem intimidade alguma! Ele me viu no ponto de ônibus um dia e perguntou para onde eu estava indo, me ofereceu carona quando viu que era o caminho dele para o trabalho, simples assim, satisfeita? – devolvi

- Nem um pouco! Disso teu pai vai ficar mais aborrecido ainda. Trate de fazer suas coisas como sempre fez, não me invente moda, está entendendo? – eu estava perdido, isso não ia terminar com aquela conversa, eu tinha certeza. Minha primeira transa e o mundo todo já estava contra mim.

O papo com meu pai foi mais intenso e complicado. Além de censuras e proibições, uma porrada de ameaças ficou marcada. Até uma conversa com o Henrique numa manhã de domingo quando se encontraram casualmente em frente às casas, serviu de justificativa para meu pai tentar esclarecer as coisas. E o pior, meu pai não foi com a cara do Henrique. Portanto, qualquer tentativa que eu fizesse dali em diante para amenizar as coisas ou elogiá-lo, seria mais do que suspeito. E precisava encontrar uma maneira de não me expor, de não abrir mão daquele macho que me dava tanto prazer e, de continuar parecendo aquele virgem estudioso ciente de suas obrigações.

- Por que não veio às aulas ontem? Você perdeu um teste rápido da disciplina de direito romano que o professor deu sem avisar, e vai contar para a nota. E que cara é essa? – mais um interrogatório, mais um me cobrando explicações. Só que eu não devia nada ao César e, por isso, fiquei puto quando ele me interpelou.

- Qual é! Tive um compromisso! A cara é a minha de sempre, ou não está me reconhecendo? – questionei petulante

- Tua mãe achou que você estava na faculdade, estranho ela não saber desse seu compromisso. A tua cara mudou, disso tenho certeza. Você está diferente, seu olhar está diferente, não sei dizer o que é, mas está na cara. – afirmou convicto. Dizem que, ao se perder a virgindade e descobrir os prazeres da carne, nossa expressão muda. Era certamente isso que o César estava vendo estampado na minha cara.

- Você pirou! Vá cuidar da sua vida que já é uma grande coisa!

- Você e aquele coroa, tá rolando sacanagem, não está? – o desgraçado parecia estar lendo a minha mente.

- Que merda, César! Vá se catar e me deixe em paz! Está pior que meus pais, se metendo onde não foi chamado. – revidei furioso, por ele ter acertado na mosca.

- Não sei o que viu naquele velho! Vai acabar se ferrando, ouça o que eu digo! – insistiu.

- Vá se ferrar você! – exclamei, elevando a voz.

Até então eu não saberia definir o que sentia pelo Henrique. Minha única certeza era a de que eu não tinha a menor vontade de abrir mão dele. O que estava rolando entre nós não só me deixava num estado de excitação constante, como me fazia enxergar o mundo por outros ângulos. Eu gostava dele, sem sombra de dúvida, gostava da atenção e do cuidado que ele tinha para comigo, gostava da maneira como me envolvia em seus braços, gostava de sentir aquela jeba grossa pulsando dentro do meu cuzinho, gostava daquela sensação perpetuada que o esperma dele deixava durante horas em mim, gostava de fazer carícias nele e de trocar aqueles beijos tórridos que aconteciam entre nós. Enfim, era uma ligação intensa que me impulsionava como uma locomotiva.

Outra coisa que eu não saberia explicar, era a posição da esposa dele nisso tudo. Ele pouco a mencionava e, quando o fazia, nunca tocava em qualquer ponto que, de alguma maneira, se cruzasse com o nosso relacionamento. Ela me tratava muito bem, quando casualmente nos encontrávamos, o que me fez acreditar que ela desconhecia esse outro lado do marido ou, o que também cheguei a aventar, que fosse conivente com a bissexualidade do esposo. De qualquer forma, ela era o menor empecilho que havia entre nós ou, pelo menos, o que menos se mostrava dificultoso.

Enquanto essas preocupações não saíam da minha cabeça, o Henrique, por outro lado, parecia imune a elas. A tranquilidade e a firmeza com que lidava com elas era algo assombroso e, nisso eu me acalmava. Ele parecia sempre ter uma solução para tudo que priorizasse o que estávamos vivendo. Da admiração inicial por seu corpo, passei a idolatrar sua personalidade e seu caráter, espelhando-me em sua postura para enfrentar a vida adulta na qual tinha acabado de entrar.

Em meados do terceiro semestre da faculdade, quando se observava a progressiva mudança comportamental dos alunos com os estágios em escritórios de advocacia ou empresas, passando a se trajar e assumir a postura como futuros causídicos, o Henrique me propôs que eu estagiasse no escritório do qual era sócio fundador. Tive um pouco de dificuldade de convencer meu pai a me deixar estagiar com ele, pois a reserva que meu pai tinha em relação a ele ainda não havia sido superada. No entanto, a insistência e a própria necessidade que o curso exigia de estagiarmos como parte das atividades curriculares, o fizeram abrir mão da implicância que tinha com o Henrique.

Foi só por essa época que descobri que o Henrique jamais precisaria fazer o caminho da faculdade até o escritório, pois ele se localizava completamente fora da rota que eu precisava percorrer. Questionado, ele simplesmente me disse que tinha se encantado comigo e que passar aqueles minutos ao meu lado todas as manhãs dava novo sentido à sua vida, além de alimentar o tesão que sentia por mim.

- Que outra maneira eu tinha para me aproximar de você? Meu subterfúgio valeu à pena, não valeu? Ou você vai ficar zangado comigo por eu ter contado uma mentirinha para te conquistar? – indagou, ao me levar pela primeira vez ao escritório.

- Acho que nunca serei capaz de me zangar com você! Você faz ideia do quanto gosto de você? – respondi, fazendo-o abrir um sorriso de orelha a orelha.

- Tanto quanto eu gosto de você, meu garoto! – exclamou, só para me provocar. Estávamos no trânsito, ele dirigia, quando levei minha mão até seu membro e o acariciei até constatar que ele adquiria vida própria. – Você já sabe que vai precisar dar conta da consequência do que está fazendo, não sabe? – emendou, deixando a pica endurecer livremente.

- E para que você acha que estou te seduzindo? – questionei, com um olhar libidinoso. Ele apenas sorria.

O estágio no escritório dele não era apenas proveitoso do ponto de vista da minha formação, uma vez que o bem-conceituado trabalho da equipe se refletia na complexidade dos casos que cuidavam. Mas, também, se mostrava providencial para nossos encontros amorosos, pois havia espaço, principalmente depois de encerrado o expediente, para transarmos sem preocupações e interferências. Ele se excitava ao me ver usando ternos que valorizavam minha silhueta e as curvas da minha bunda, assim como eu adorava ver sua verga delineada debaixo da calça junto à sua coxa grossa. Ele costumava me enrabar assim que ficávamos a sós e, quando me deixava na porta de casa, ainda me perguntava se eu ia ter sonhos lascivos com ele. Seguia-se um longo e carinhoso beijo e eu o assegurava de que o sêmen que havia inoculado em mim seria o bálsamo a embalar meu sono.

- Sonha com teu macho, meu garoto! – exclamava, feliz por saber que sua satisfação sexual encontrava eco no meu corpo.

Quem definitivamente não aprovou o fato de eu estar estagiando com o Henrique foi o César. Quando ficou sabendo da novidade, por intermédio de outros colegas, fez algumas observações cínicas que intencionalmente fiz questão de ignorar. Isso o deixou ainda mais puto. Ele próprio também havia iniciado um estágio numa empresa e, chegou a me convidar para uma segunda vaga que alegou estar disponível na empresa e, para a qual já tinha feito menção quanto a minha pessoa. A minha recusa veio antes de ele descobrir que eu estava estagiando no escritório do Henrique. Embora nossa amizade já estivesse um pouco estremecida por conta da implicância dele com o Henrique, eu fiquei impressionado quando o vi abandonar aqueles jeans largos e desleixados, e aparecer na faculdade com um terno que enaltecia seus ombros largos, tornando-o mais sensual e másculo, por exigência da empresa. Não me senti atraído por ele, pois o Henrique completava todo e qualquer espaço que havia em mim para essas coisas. No entanto, fiquei feliz por ele estar se transformando num homem e, com toda a sinceridade que havia em mim, desejei que se tornasse uma pessoa bem-sucedida, apesar das nossas diferenças. Isso foi alguns meses antes do nosso rompimento definitivo, no final do quarto semestre do curso.

- Esses argumentos são frágeis, vão levar à perda da causa, com certeza! – afirmei, quando num pequeno grupo, fazíamos um trabalho para uma das disciplinas do curso.

- Então o que o sabichão sugere? – questionou o César, uma vez que era ele quem tinha exposto os argumentos que queria que todos aceitassem.

- Se abordarmos a situação por esse ângulo, derrubaremos facilmente a hipótese de assunção da defesa e, podemos colocar esses argumentos para definir a situação a nosso favor. – sugeri, explicitando meu ponto de vista. A maioria concordou comigo.

- Isso é pura bobagem! Não vai dar em nada, podem ter certeza. – retrucou, menosprezando minha afirmação.

- Então sugira algo mais convincente, se for capaz! – desafiei, com a aprovação dos colegas. O César ficou puto.

- Fechamos com o Rafael, não há mais o que discutir. É isso que vamos esboçar no trabalho. – sentenciou um dos colegas, dando por terminada a nossa pequena reunião.

Dias depois, o elogio que o professor teceu sobre a solução criativa que encontramos para resolver o caso, foi a gota d’água que faltava para o César assumir que tinha perdido para mim. A fim de comemorar a boa nota, a galera foi até a cantina num encontro festivo e animado do qual o César se eximiu. Encontrei-o no dia seguinte, na biblioteca da faculdade, quando pesquisava uns livros para outro trabalho. Ele sentou-se à mesa onde eu estava, primeiramente fingiu que também estava pesquisando alguma coisa; depois, começou a me provocar.

- Como vai o seu coroa? – questionou, me encarando para ver se me deixava abalar com sua provocação.

- Não faço ideia do que você está falando!

- Do seu velhote, que você diz que te dá carona por que é o caminho dele para o trabalho. – continuou, esboçando sarcasmo.

- O Henrique está longe de ser um velhote! E, é inigualável diante de certos imbecis que eu conheço! – retruquei.

- Você sabia que o caminho que ele precisa percorrer para ir ao trabalho não tem nada a ver com o trajeto que você precisa fazer para vir à faculdade? – questionou.

- Sim, sei! Eu estou estagiando no escritório dele. – até então ele ignorava esse fato. Seus olhos adquiriram o brilho maligno.

- Aquela solução que você apresentou para o trabalho foi sua mesmo, ou foi do coroa que está te enrabando? – indagou, petulante.

- Vá à merda, César! – explodi de raiva, me levantando e disposto a acertar uma bofetada na cara cínica dele.

Ele agarrou minha mão antes que eu atingisse seu rosto, me empurrou com força contra o topo da estante de livros mais próxima, jogando seu corpo contra o meu e me prensando nele. Colou sua boca na minha e meteu a língua nela, ao mesmo tempo em que gingava o corpo como se estivesse tendo uma relação sexual comigo, ao estilo do que o vi fazer inúmeras vezes com a argentina bocuda nos tempos do cursinho. Ele mordeu meu lábio inferior, ferindo-o, e eu dei uma joelhada no meio das pernas dele acertando em cheio os testículos, o que o fez me soltar imediatamente e levar as mãos aos genitais doloridos.

- Puto! Nunca mais me dirija a palavra! Babaca! – exclamei quase aos berros, chamando a atenção de quem estava na biblioteca e procurando estancar o sangue que gotejava do meu lábio. Não nos falamos mais até o final do curso. Se um dia chegamos a ser amigos, essa amizade acabou naquele dia. Um fazia questão de ignorar o outro quando nos cruzávamos nos corredores da faculdade.

O Henrique não gostou nem um pouco de saber da história daquele ferimento nos lábios, que eu contei sem nenhuma omissão. Ele ficou visivelmente enciumado. Era a primeira vez que eu passava por uma situação dessas, um cara sentindo ciúmes de mim por conta de outro, a quem eu nunca tinha dado a menor abertura.

- Esse moleque agiu assim do nada? Ele deve ter tido um motivo para fazer o que fez. – alegou o Henrique quando lhe contei o ocorrido.

- Fez isso porque é um babaca!

- Ou porque você criou alguma expectativa nele?

- Como você pode afirmar uma coisa dessas? Eu nunca gostei de outro cara além de você! – afirmei, entristecido pela suspeita dele.

- A atitude dele é típica de um macho enciumado.

- Eu juro que nunca dei a menor bola para ele. Na verdade, só nos tornamos colegas pelas circunstâncias, eu não gostava do jeito dele no cursinho. – asseverei.

- Algo escapou do seu controle!

- Não diga essas coisas! Você parece estar suspeitando de mim, e sem motivo, eu garanto! – pela primeira vez eu me decepcionava com a postura do Henrique, um homem que eu julgava estar acima dessas picuinhas.

- Vou te avisar uma coisa, e quero que preste muita atenção, eu não tenho inclinação para virar corno, está me entendendo? – suas palavras soaram duras como nunca tinham soado antes. Eu fiz força para não chorar. Algo em meu peito estava desmoronando, e eu não sabia o quê.

Superamos essa fase com muito sexo. Nos primeiros tempos depois que ficou sabendo da história, o Henrique me enrabava praticamente todos os dias. Ao que tudo indicava, saber que meu cuzinho estava todo arregaçado lhe dava a certeza de continuar a ser meu único macho. Eu passei a me sentir vigiado como alguém que tivesse cometido um crime. Com sua rola grossa ele me machucava muitas vezes de propósito, especialmente quando cismava que outros caras estavam olhando para mim com segundas intenções, como afirmava nessas ocasiões. Um relacionamento que tinha sido até então leve e prazeroso, passou a me oprimir, me sufocando e tolhendo minhas atitudes.

Ao final do curso, com excelentes notas de aprovação em praticamente todas as disciplinas, um dos meus professores me indicou para uma vaga numa empresa multinacional com sede no Rio de Janeiro. Pela primeira vez não pedi a opinião do Henrique para tomar uma decisão. Apesar de ainda gostar muito dele e da maneira como ele me penetrava com aquela jeba calibrosa, um castelo imaginário que eu havia construído a partir do carinho que sentia por ele, havia ruído dentro de mim. Ele já não era mais aquele ídolo inviolável que eu havia elevado num pedestal. Suas desconfianças o fizeram parecer mesquinho e, muitas vezes, cruel.

- Você não está cogitando aceitar a vaga, não é? Estive conversando com os outros sócios e estamos pensando em te incorporar ao escritório. Você terá um futuro brilhante conosco, além de dar novo fôlego ao escritório. – afirmou o Henrique quando lhe falei da proposta.

- Não quero parecer ingrato, mas preciso trilhar um caminho por mim mesmo. E, a oportunidade é essa. Preciso saber do que sou capaz sem a sua ajuda, é muito importante para mim. – afirmei.

- Discordo! Você não terá a mesma projeção dentro de uma empresa como terá aqui conosco. – retrucou ele, ainda ditando as coisas como sempre fizera desde que nos conhecemos e nos envolvemos. Havia chegado a hora de eu me livrar dessas amarras, e minha decisão foi tomada.

Ele se mostrou frio e insensível quando me despedi dele na véspera da minha mudança para o Rio de Janeiro. Não era o mesmo Henrique que eu conhecia e que me abriu as portas para um mundo desconhecido aquele sujeito que estava machucando meu cuzinho sem dó nem piedade. Minhas súplicas para que não me rasgasse de maneira tão brutal entraram por um ouvido e saíram pelo outro. Quanto mais eu gania de dor mais prazer ele parecia encontrar na minha submissão. Quando me soltou eu mal podia dar um passo, minhas entranhas pareciam estar destroçadas. Apesar do mal e dos dias terríveis que tive depois daquele coito violento, isso facilitou eu dizer adeus sem nenhum sentimento no coração. Foi o fim de uma aventura, a aventura do garotão gay e virgem em sua primeira empreitada amorosa.

O que me pareceu, de início, um trabalho fascinante na empresa, foi se tornando um acúmulo de tarefas enfadonhas que, nem o excelente salário, era capaz de suprir. Também detestei morar no Rio de Janeiro, a cidade não tinha nada a ver com meu estilo de vida e, as pessoas ficavam cada dia mais desinteressantes. Depois de quatro anos, voltei para São Paulo, a convite de um renomado escritório de advocacia com o qual eu tivera contato enquanto trabalhava na multinacional. Não hesitei um segundo para fazer as malas e me mudar.

Depois de mais de quinze dias do meu retorno à São Paulo, quando já estava trabalhando a pleno vapor no novo escritório, é que me reencontrei com o Henrique. Foi num sábado, início de noite, quando me preparava para reencontrar a galera que há tempos eu não via, que o encontro aconteceu, casualmente. Eu estava tirando o carro da garagem quando ele e a esposa chegavam em casa. Ele me encarou espantado, mas foi muito gentil, assim como a esposa. Ambos desceram e vieram me cumprimentar, ela por gentileza, ele por qualquer outro motivo que seu olhar inquisitivo não me permitiu descobrir. Mediu-me da cabeça aos pés, como se estivesse conferindo se me faltava alguma parte, tão intensa foi a secada que me deu. Fiquei feliz pela esposa estar presente, o que me safou de uma conversa a sós com ele, que eu não estava a fim de ter. Apesar dos assuntos abordados terem sido banais, acabei revelando que voltei por conta de um novo trabalho, na esperança que isso pusesse fim a qualquer expectativa da parte dele de voltarmos a trabalhar juntos. Depois desses quatro anos, apesar de não ter rolado absolutamente nada com outra pessoa enquanto estive no Rio de Janeiro, na minha cabeça eu tinha encerrado o nosso relacionamento antes de partir, e não o retomaria por nada. Eu ainda gostava do Henrique, mas não como meu homem, como um parceiro, como uma foda gostosa ou, seja lá o que mais. Gostava dele pelo que representou na minha iniciação, pelo que me ensinou, pela maneira como acolheu minha inexperiência, mas só isso, nada além disso. Pela maneira como nos despedimos, eu soube que mais cedo ou mais tarde teríamos uma conversa a sós e, que ele certamente abordaria nosso passado.

Assim que eu estava completamente engajado no escritório, entrou um caso complexo e peculiar. Fui designado para assumi-lo, com a ajuda de uma advogada mais velha, já tarimbada. Creio que estavam me testando quando me delegaram o caso, pela quantidade de peculiaridades que ele apresentava. Basicamente tratava-se de uma tentativa de homicídio, porém com inúmeros e complexos desdobramentos. Um casal nordestino de meia idade, ele um político corrupto que precisou abdicar do cargo quando as acusações de corrupção não lhe deixaram outra saída, e ela, uma baranga de outra família de políticos da região, que o traia com o próprio sobrinho, no mínimo, vinte e cinco anos mais jovem do que ela. O caso estava sendo tratado em São Paulo, por que foi onde ele tentou matá-la com estocadas de tesoura no corredor de um hotel de luxo na capital paulista, quando descobriu que tinha virado corno. Duas camareiras e um casal de hóspedes testemunharam as agressões que haviam começado na suíte em que estavam hospedados e saiu para o corredor quando ela tentou fugir das agressões. Ele foi preso em flagrante e se livrou depois de pagar uma fiança. Ela foi levada a um pronto-socorro e precisou ser operada, pois uma das tesouradas acertou o implante de silicone no seio direito. Quem contratou o escritório foi a família abastada dela, tentando arrancar tudo o que fosse possível do ex-marido enriquecido à base de falcatruas com o erário público. Nesse afã, ela não hesitou em, literalmente, jogar toda a merda, da qual tinha conhecimento e da qual viveu feito uma rainha por anos a fio, no ventilador. O caso ganhou a mídia e, por semanas, não saiu dos noticiários, pois todos os podres vieram à tona, devidamente comprovados com provas documentais que ela guardou como um trunfo num caso de necessidade. Em julgamento estava a tentativa de homicídio, mas os demais pormenores acabaram fazendo parte do processo devido ao envolvimento que tinham com o fato.

Estudei detalhadamente o processo e, diante de uma série de fatos, pleiteava-se a condenação do político por tentativa de homicídio, já sem foro privilegiado e, portanto, tão à mercê da justiça como qualquer outro mortal, não fosse a fortuna que estava gastando para sua defesa e para evitar que a maioria das provas de sua índole viesse a ser de conhecimento público. As falcatruas me serviriam de sustentação para provar ao júri que ele não era uma pessoa idônea e, portanto, um sujeito que, acuado pelas denúncias da ex-esposa, não hesitou em tentar tirar-lhe a vida, como modo de calar tudo o que sabia. Ela não era nenhuma santa, estava longe disso. Tinha o mesmo caráter deturpado que o marido traído, era onde residia seu ponto fraco, quanto à sustentação de ser uma vítima inocente e, onde eu precisava evitar que a defesa do marido se apoiasse.

No decorrer do processo, acabei descobrindo que o advogado de defesa do político era o César, juntamente com o sócio fundador do escritório que ele contratara, um figurão dos tribunais, com um rol invejável de causas ganhas, o que fazia seus honorários serem estratosféricos. Era só o que me faltava, pensei, quando descobri esse detalhe. Um embate com aquele sujeito nos tribunais, já não bastavam nossas diferenças na faculdade? Por outro lado, pensei como seria bom medir forças com o César, que sempre se julgou superior a mim e, principalmente, tinha a certeza de ser um macho como eu jamais chegaria a ser. No fundo, era esse o grande motivo dos nossos conflitos no passado, pelo menos, era essa a minha percepção.

No dia do julgamento, nos reencontramos em bancas opostas. Ele também já tivera ciência de que eu estava do outro lado e, pelo risinho cínico que me lançou quando nos cumprimentamos, tinha certeza da vitória. Eu, de minha parte, não pude deixar de observar como ele havia se transformado. Era um homem incrivelmente atraente no terno alinhado que trajava. Nada que lembrasse remotamente aos primeiros que usou na faculdade durante os estágios. Também deixara aquela cara de garotão petulante em algum lugar do passado, pois a atual era máscula e viril, acentuada por uma barba mal escanhoada que o deixava deliciosamente displicente, sem parecer relaxado. Ele sempre foi atlético, mas estava mais encorpado, mais musculoso, provavelmente esculpido numa academia. Em resumo, era um tesão que não passava despercebido. Talvez meu semblante tenha lhe mostrado como eu fiquei impressionado com sua figura, pois assim que coloquei os olhos nele, pareceu se enfunar como um pavão. Quando nos encontramos, numa sala anexa à do julgamento, ele estava acompanhado do dono do escritório e de um novato. Cumprimentei-os gentilmente, na presença da advogada que me auxiliava. O novato praticamente me arrancou as vestes com um olhar penetrante que me fez sentir nu diante dele. Um garanhãozinho que se encantou com meu rosto imberbe e minha bunda prodigiosa, que eu tinha dificuldade de alojar em calças que não fossem cortadas sob medida. O dono do escritório tinha ouvido falar de mim, teceu comentários elogiosos à minha pessoa e foi gentil em sua experiência de causídico que sabia muito bem em que nível se encontrava. Um sorriso amistoso dirigido ao César o abalou, não sei explicar bem como, mas ele ficou atônito quando minha mão quente entrou na dele ao nos cumprimentarmos.

Na fase de debates, o César acompanhava a minha exposição com um ar irônico que foi me deixando cada vez mais irritado, pois eu quase podia ler seus pensamentos enfileirando os argumentos que usaria para rebater a minha sustentação. Quando chegou a vez de ele fazer a sustentação da defesa, vi com um prazer mórbido as inconsistências de seu pronunciamento caindo de graça no meu colo. Seria fácil derrubá-las na réplica. E foi o que fiz. Ocorre que nessa fase do julgamento, embora estivéssemos tratando da questão primordial que levou ao julgamento, no fundo, éramos eu e o César travando uma briga antiga. O tom enfático, as metáforas, as alusões que deixavam os demais presentes na sala do júri perplexos e meio perdidos no significado de tudo aquilo, no entanto, estavam sendo muito bem compreendidas por nós dois. O político corno assassino e a baranga vadia nada mais eram do que o lastro sobre o qual o César e eu estávamos quebrando o pau como nunca fizemos antes.

- Me explica que discurso é esse, estou perdida! – cochichou minha assistente quando viu aquela briga tomar proporções inesperadas e, um tanto quanto alheias ao caso.

- Não se preocupe, eu sei o que estou fazendo! – retruquei, com a voz exasperada pela irritação que a cara do César me provocava.

- Você parece estar brigando com a defesa! – exclamou, matando a charada.

- Talvez! Vou mostrar a esse convencido, arrogante e desgraçado que ele não me intimida. Nunca me intimidou! – ela me encarou sem saber de onde vinha tanto rancor.

Por outro lado, o César também ficou puto. Ficou tão alterado durante a réplica que chegou a dar socos na mesa, numa fúria mais dirigida a mim do que à causa que defendia. No recinto reinava um silêncio sepulcral, todos estavam embasbacados com aquela briga sem lógica. Por fim, o juiz meio que perdido entre aqueles discursos, e devido ao adiantado da hora, resolveu interromper a sessão e retomá-la no dia seguinte. Fomos chamados à sua presença para dar explicações. As minhas, parece, foram mais convincentes. Se pudesse o César me engoliria vivo, ali mesmo. No dia seguinte, nova briga, que se restringiu à exiguidade do tempo que dispúnhamos para as tréplicas, caso contrário, estaríamos talvez quebrando o pau até agora. Contudo, o trunfo veio com a sentença. Totalmente desfavorável ao político, com agravantes, e uma bela condenação. As provas que a ex-esposa apresentou ainda serviram de complemento para as investigações da Polícia Federal que corriam em paralelo. Da sala do júri, ele foi diretamente para a cadeia. Eu havia colocado o César onde sempre quis, destronado de sua arrogância.

A repercussão da minha vitória no escritório foi gigantesca. Ganhar aquela causa contra um sujeito que nos bastidores contava com suportes influentes foi mais do que festejada. Eu achei que fosse curtir por umas boas semanas o resultado do meu empenho e, principalmente, o fato de ver o César levar a pior. Mas, não foi o que aconteceu. Não sei o que me deu, de repente, eu fiquei com pena dele. De repente, ele não era mais aquele monstro com o qual eu precisava lutar para manter minha dignidade. De repente, ele não se afigurava mais uma ameaça à minha condição de homossexual. Por mais ridículo que pudesse parecer, eu estava me sentindo culpado por ter agido dessa forma com ele. Foi uma vitória de gosto amargo.

Eu fiquei tão desgastado com aquela situação que não hesitei em aceitar de me encontrar com uns amigos, no sábado à noite, numa badalada casa noturna, recém-inaugurada, que bombava entre a galera. Precisava me distrair com algo mais ameno do que o trabalho. Estávamos num grupinho equilibrado, três garotas e três caras. Um deles, um colega do escritório, por sinal um exemplar masculino de fazer qualquer garota ou gay perder a cabeça, um casal de amigos dos tempos da faculdade, e duas amigas minhas de longa data. Fazia tempo que eu não me divertia tanto com o jeito engraçado de ser das minhas amigas, com o piadista do colega da faculdade e, com o jeito leve de ser do colega do escritório. A noite prometia, e eu estava disposto a curti-la ao máximo.

- Você viu quem está aí? – perguntou meu colega de faculdade, quando notou a presença do César com outros caras encostados no balcão do bar.

- Você está brincando! Numa puta cidade desse tamanho, eu há tempos sem sair numa noitada e você vem me dizer que o César, justo o César, também está aqui. – respondi inconformado.

- Calma! Também não é para tanto! O lugar está bombando, virou ponto de encontro dos mais concorridos, o que você queria? Acontece! Depois, ele nem percebeu nossa presença. – retrucou meu amigo.

- Quem é esse tal de César? – questionou uma das minhas amigas, ao ver como meu humor havia mudado em segundos.

- Um sujeito que o Rafael derrotou brilhantemente no júri esta semana. – explicou o colega do escritório.

Como uma desgraça nunca vem sozinha, cerca de duas horas depois, o César me viu na pista de dança, embora eu tivesse me mantido no lado oposto ao do bar. Assim que me viu voltando para nossa mesa, veio ao meu encontro.

- Salve! O doutorzinho está comemorando a vitória! – exclamou, visivelmente alterado pelo álcool.

- Engano seu, César! Apenas me distraindo com os amigos, assim como você. – retruquei.

- Eu vim afogar as mágoas! Assumir que fui vencido por um viadinho! – sentenciou, mal conseguindo se manter em pé e, debruçando-se sobre o encosto de duas cadeiras para se sustentar.

- Talvez fosse melhor você pedir para um dos teus amigos te levar para casa. – aconselhei

- Vocês sabiam que esse viadinho preferiu dar o cu para um coroa ao invés de dar para mim? Conta para os teus amigos como aquele velhote te enrabava, conta, fingindo que te dava carona para a faculdade, quando era ele quem pedia carona no teu cu. Conta para eles como você me botou a nocaute com uma joelhada no saco, conta! – a expressão dele denotava uma fúria quase incontrolável.

- Você está bêbado, César! Se sóbrio você já não diz nada que preste, nesse estado só consegue dar vexame! Vá para casa que você ganha mais! – exclamei furioso, pois as mesas ao lado foram atraídas pelo linguajar chulo e alto dele.

- Eu não estou bêbado! Vem comigo até o bar, eu te pago uma bebida para comemorarmos a tua esperteza e o fato de você se entregar para o vovozinho tarado! Falando nele, por que ele não está aqui cuidando do que é dele? – ele tropeçava sobre a própria língua ao me insultar em alto e bom som, gingava sobre as pernas o que o fez repetidas vezes ir de encontro às costas do sujeito da mesa ao lado, que já estava ficando puto com o jeito que ele se intrometera no espaço exíguo que havia entre elas.

- Dá o fora, cara! Você está enchendo o saco! Se manda! – rosnou o sujeito, perdendo a paciência quando o César acertou, sem querer, a mão no ombro da garota que estava com ele, ao gesticular desengonçadamente os braços no ar.

- Vá se foder, filho da puta! – berrou o César. E, o quebra-pau começou.

Mesmo bêbado, o César colocou o cara no chão com dois golpes marciais. A garota começou a gritar, um amigo do sujeito que estava na mesa se levantou e, pegando uma cadeira, partiu para cima do César. Errou o golpe que, no entanto, espatifou tudo o que havia em cima da nossa mesa. A gritaria foi geral. Enquanto trocava socos com o amigo do sujeito estatelado no chão, dois seguranças da casa noturna vieram apartar a briga. Com um pouco mais de esforço e, levando alguns bons sopapos, em minutos o César os colocou em nocaute. Na confusão criada, alguns espertalhões começaram a abandonar o local sem pagar. A polícia foi chamada para conter o quebra-quebra. O César tinha sangue escorrendo pela cara furiosa, sua camisa estava rasgada, os amigos com os quais ele tinha vindo entraram na briga e ainda rolavam socos e agressões com clientes e funcionários da casa noturna. Eu precisava tirar o César de lá, ou ele iria parar numa delegacia assim que a polícia invadisse o lugar, pondo em risco sua carreira e sua reputação.

- Você está de gozação que vai ajudar esse desgraçado depois de tudo que ele te falou? – questionou uma das minhas amigas quando revelei minha intenção de tirar o César disfarçadamente dali no meio daquela confusão.

- Vou, vou ajudar sim! Sei que ele está errado, mas isso não justifica que fique com a carreira marcada por uma detenção por bebedeira e balburdia. – sentenciei decidido.

- Deixe que se foda! – exclamou o colega de faculdade.

- Não fale assim dele, Carlos! Você sabe que no fundo ele não é má pessoa! – argumentei

- Ele te atazanou todos os anos de faculdade! Vocês pareciam gato e cachorro de tanto que discutiam! – retrucou ele.

- O que não justifica eu virar as costas para ele

Sua imaginação também tem espaço aqui.

Escreva o seu conto

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