O NOVO NORMAL, 1

Por: gama-deka-1 10/07/2026 485874 leituras
Capa do conto
1. “Algo”


Dia 20 de fevereiro de 2022. Exatamente 00h no Brasil e 12h no Japão. Algo acontece no mundo, sabe-se lá o quê. Alguma coisa houve, nada físico, nem pôde ser visto, sentido ou percebido por ninguém. Mas aconteceu. Ninguém sequer soube. Mas aconteceu. É muito difícil dizer o quê, a melhor forma é mostrar.

Em uma cabana no interior de Minas Gerais, estava havia três dias Denise. Ela sabia que perderia o prazo da editora se não tomasse essa atitude radical, de se isolar do mundo e ficar ali até terminar seu livro.

Exatos vinte dias após seu isolamento, Denise podia voltar para São Paulo, enviar aquele texto para a editora e ficar livre de pressões por no mínimo seis meses! Era como um grande peso que saia de suas costas. Ela toma o último banho ali, organiza tudo e... Pé na estrada! Entra no carro feliz e realizada. O “algo” já tinha acontecido havia dezessete dias, três dias após sua chegada na cabana, mas ela não sabia. E na verdade, ninguém sabia.

Depois de quase uma hora na estrada de terra, ela chega na pista, e mais seis horas depois, em sua casa em São Paulo. Ela toma um banho, pede um lanche, come e dorme pesadamente.

Os primeiros dias passam e Denise vai à casa dos pais, os quais não via há um tempão. Eles conversam bastante, falam sobre tudo, almoçam e matam a saudade.

Mais tarde, porém, o "algo” começa a mostrar-se.

Aconchegados na sala, conversa vai e conversa vem, a família reunida liga a TV, onde passa um programa de auditório trazendo a seguinte pauta: “Meu Pai Não Aceita Meu Namoro Com Minha Mãe”. Um rapaz que devia ter uns dezenove anos estava ao lado da mãe e do pai, conversando com a apresentadora do programa, e recebendo aplausos e vaias da plateia conforme a família debatia aquele assunto estranho.

Denise não pode acreditar:

- Mas olha que loucura! Kkk Eu não acredito numa coisa dessas, gente!!!

- O que, filha? - pergunta dona Vilma, que estava ao lado da filha no sofá.

- Ué, mãe, você não entendeu? Esse moço aí tá querendo ficar com a própria mãe! E ainda acha que o pai dele está errado em não permitir!!! Gente, que mundo é esse que a gente tá vivendo? Hahaha

- Ah, sim… O pai não está deixando? - Dona Vilma pergunta um pouco confusa.

- Lógico que não, né??? Óbvio! Kkk

- Hum, entendi. Bom, de fora a gente pode não entender o porquê, mas pode ser que o pai saiba que o rapaz não quer nada sério e…

- Hãn? Isso é o de menos, mãe! A questão é que se trata de um filho querendo namorar a própria mãe! Que loucura!

-... Hum…

Denise tem impressão de que a mãe ainda não tinha entendido

- Entendeu, mãe? É um filho e a própria mãe dele!

- Sim... Mas filha, o que tem de mais? Desde que eles gostem, eu ach...

- O QUÊ??? Kkkkkkkk. Mãe, você tá louca??? Kkk Acho que a senhora ainda não entendeu rsrs. Eu estou falando que esse rapaz aí… ele quer “ficar”, ele quer… namorar, entendeu? Beijar, transar, tudo! Com a própria mãe!!! Essa mulher aí, ó, essa que tá no palco, essa de cabelo preto… é mãe dele!

- Sim, filha, isso eu entendi. Lógico que entendi! Só que ela é uma mulher adulta, ué, ela sabe o que é melhor pra ela, poxa.

- Ãhn!!!? - Denise estava absolutamente confusa, sua mãe jamais falaria algo assim. E tudo ficou mais bizarro à medida que o auditório estava claramente do lado do rapaz, torcendo pelo “casal” de mãe e filho.

- Filha, ainda não entendi por que você acha isso tão ruim, mas ok - diz Dona Vilma querendo encerrar o assunto.

“Mas que porra é essa, minha mãe tá usando drogas, só pode kkk” - pensa Denise.

Em seguida, o Sr. Julio senta ao lado de Denise, que fica no meio.

- O que tá rolando? - ele pergunta.

- Pai, sua mulher tá doida, só isso rsrs - diz Denise balançando a cabeça.

- O que foi, amor? - ele pergunta curioso.

Dona Vilma ia responder, mas Denise toma a frente:

- Tá vendo essa… aff, agora entrou o comercial!! Que saco… Mas enfim, tinha uma mulher aí, no palco, que estava namorando o próprio filho!

- Hum…

A expressão dele não mostrava nada demais.

- E… sua mulher ainda achou que “tudo bem”!

- … Não entendi, “tudo bem” o quê? - ele pergunta confuso.

- A mulher, pai!!! - diz Denise já irritada - A mulher aí - ela aponta para a TV -, querendo namorar o filho!!! O filho dela mesma!!! Não é filho de outra mulher, é filha dela mesma, gente!!!

Sr. Julio coça a cabeça.

- … Deixa eu ver se entendi: o rapaz já tem uma namorada e mesmo assim quer namorar a mãe? - ele pergunta querendo entender

- Eu não sei se ele já tem alguma namorada pai!!! Mas isso é irrelevante! Se ele tem namorada ou não, é irrisório! O ponto é que ele está querend...

- Calma, Denise, ô loko! Kkkk - diz o pai sem entender por que a filha estava tão estressada.

- Eu tô calma!!! Ok, desculpe… - ela respira - A questão é que se trata de um filho tendo um relacionamento com a mãe, caramba! Preciso desenhar isso pra vocês?

- Sim, já entendemos isso, mas o que tem demais??? - Sr Júlio parecia ainda mais confuso

- Ela tá doida, amor, comeu queijo estragado em Minas rsrs - diz Dona Vilma se levantando para pegar o controle remoto, voltando em seguida para o sofá.

O pai continua:

- Olha, filha… Sei lá, eu não vejo tanto problema, não. Claro, tem a questão da idade, né? Ela tem o dobro da idade dele, isso pode ser um pouco ruim, mas… Nem todo mundo liga pra essa questão de idade e…

- Não é essa a questão! A idade é o de menos! Ok!!! ESQUECE!!! Esquece esse assunto!!! - diz Denise, surtada - Vocês com certeza não entenderam até agora o que se passa! Não vou desenhar mais!

Os pais se entreolharam, sem entender por que a filha tinha implicado tanto com aquele casal de mãe e filho. Depois eles tiveram um ótimo café com bolo e passaram boa parte da tarde juntos antes de se despedirem.

Aproveitando que estava na cidade de seus pais, Denise resolve passar na casa onde moravam duas amigas, as irmãs Sabrina e Érica. Conversa vai e conversa vem, Denise desabafa:

- Ai, gente…Aí eu explico pra minha mãe… e você acredita que ela nem ligou???

- É, amiga - diz Sabrina -, pessoas mais velhas são assim, não torcem por casal nenhum rs

- Hã, como assim? - pergunta Denise sem entender.

- Seus pais, eles não torceram pelo casal, né? Eles foram indiferentes… Não é isso o que está nos contando?

- Sabrina, você não entendeu, não estou falando sobre eles terem torcido ou não pelo casal, o que estou dizendo é que se tratava de uma mãe e um filho querendo namorar. E minha mãe achou que "tudo bem". Olha que loucura! rs

- Hum... Mas qual o problema, Denise? Não entendi… - pergunta honestamente Érica.

- HAHAHA, palhaças! Vocês estão de brincadeira, né? Suas sem graças! - diz Denise, convicta que era uma pegadinha.

- …Bom, gente, vamos jantar? - Sabrina tenta encerrar o assunto.

- Vamos, sim... - responde Denise, mas ainda incomodada - Mas… vocês estão falando sério? Olha, eu não quero que brinquem com isso agora…

- Amiga, eu não sei por que de repente você achou isso tão estranho… Tipo, eu é que não entendi sua reação rs… São apenas mãe e filho, isso acontece, ué, é normal - diz Érica

- Normal??? - a cabeça de Denise explode de vez

- Denise, eu também não vejo nada demais - concorda Sabrina.

- .... Ok, gente, deixa pra lá - já esgotada intelectualmente.

- Você tá bem, querida? - pergunta uma delas.

- Estou, estou sim. Vai, vamos jantar! - termina Denise, se levantando, querendo acabar com aquele assunto de vez.

O jantar estava delicioso, e depois de um tempo conversando, Denise tem que ir embora. Sabrina toma a palavra:

- Denise, você nem falou do Beto, ele ainda está com o pai dele? - pergunta Érica.

- ... Sim. Ele sempre passa as férias com o pai… Mas depois de amanhã ele volta.

- Ele tá lindo, viu? Que rapazinho lindo seu filho ficou.

- ... Obrigada… Bom gente, eu já vou indo. Até a próxima, meninas.

Denise entra no carro com a cabeça doendo.

Sua imaginação também tem espaço aqui.

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