A terça-feira começou com uma sensação estranha. A noite anterior ainda estava muito viva na minha memória. Foi intensa, cheia de surpresas, e, embora tivesse sido marcante, algumas coisas não faziam sentido para mim. Fui trabalhar com essas dúvidas na cabeça, tentando focar nas minhas tarefas, mas sem conseguir deixar os pensamentos de lado.
Chegando à contabilidade, cumprimentei meus colegas, peguei um café e me dirigi para a minha sala. Já estava me acomodando quando Pedro apareceu à porta, parecendo inquieto. Ele começou com um "Bom dia!", mas logo revelou que queria conversar. "Aconteceu alguma coisa?", perguntei, franzindo a testa. "Não é nada relacionado ao trabalho. Podemos falar no happy hour?", ele disse, tentando disfarçar sua inquietação. Insisti em entender o que estava acontecendo, e ele acabou confessando: "Eu terminei com Verônica".
"Quer conversar sobre isso?", perguntei. Pedro, demonstrando preocupação com o ambiente de trabalho, respondeu: "Aqui, não. Assim como você não gosta de misturar as coisas, eu também não. Que exemplo eu daria? Mas, se você quiser, a gente pode conversar no bar do Jefferson hoje à noite". Concordei, embora tenha dito que não tinha levado outra roupa. Ele riu e respondeu: "Não precisa de nada disso. É só pra gente beber uma e jogar conversa fora". Antes de sair, ele ainda me pediu: "Juízo, hein!".
Pouco depois, Manuel me ligou. "Tá podendo falar?", perguntou. "Sim, estou tomando um café, pode falar", respondi. Ele quis saber como eu estava, e aproveitei para brincar: "Eu tô bem, mas não posso deixar de comentar sobre ontem. O que foi aquilo?". Manuel deu uma risada, mas depois ficou sério: "Que noite louca, né? Vai ficar pra história". Concordei, elogiando o restaurante e o presente que ele tinha dado. "Saiba que vou querer o meu, viu?", disse. Ele respondeu com um sorriso fofo: "O seu já tá guardado. Deixei pra te entregar pessoalmente".
A conversa logo ficou mais séria. Perguntei sobre a intensidade de Anderson na noite anterior, e Manuel confessou: "Ele tava muito focado. Assim que a gente chegou em casa, ele já foi gritando, mandando eu tirar a roupa e ficar de quatro no chão. Fiquei assustado, achei que fosse o álcool, mas ele só dizia: 'Você vai ter o que merece'. No final, até gostei, mas, no começo, confesso que fiquei com medo". Perguntei querendo saber mais: “Manuel tá rolando algo que eu não sei?” Ele respondeu: “Claro que não!” Logo ele também aproveitou para mencionar o pai: "Meu pai discutiu feio com Verônica e a mandou embora. Fala com ele, tenta dar uma força".
Na hora do almoço, Anderson me ligou. Ele parecia animado, e eu, em um ambiente calmo, aproveitei para atender. "Meu amor, tudo bem com você?", perguntei. "Meu garoto, nada de novo", respondeu ele. Depois de alguns momentos de conversa casual, Anderson foi direto: "E aí, o que achou de ontem?". A pergunta me pegou de surpresa, mas respondi com sinceridade: "Foi uma coisa imprevisível. Começou romântica e depois pegou uma proporção que, confesso, me surpreendeu". Anderson deu uma risada: "Pra mim, foi uma delícia".
Aproveitei a oportunidade para questioná-lo. "Aquilo tudo não foi só por causa da resposta atravessada que Manuel te deu, foi? Não foi só pelo oral, certo?", perguntei. Anderson suspirou antes de responder: "Cara, Manuel já me contou que você tá todo desconfiado, que até questionou ele de manhã. Renato, eu te amo, mas você tem que entender que assim como o tempo muda, as circunstâncias e as pessoas também mudam. De nós três, você é o mais inexperiente. Não tô falando isso pra te diminuir, mas pra te situar".
"Além disso," continuou ele, "você tá longe agora. Deixa que eu resolvo as coisas. Não fica querendo pegar tudo no ar, não fica se remoendo por antecedência".
Tentei retrucar, mas ele me interrompeu: "Já falei que isso tá resolvido. E foi da melhor forma possível, na cama. Não quero brigar com você, mas meus problemas com o Manuel são somente com ele. Você não tem que se meter, assim como eu não me meto nas coisas de vocês dois".
Antes de encerrar a ligação, Anderson fez algo que me deixou sem palavras: "Cada dia que passa, fico mais apaixonado por você. Você de fato é um ser encantador, sabia? Minha admiração e meu amor só crescem por sua causa, meu garoto".
Tentei dizer algo, mas ele me cortou: "Não precisa dizer nada agora. Só pensa na conversa que tivemos, tá bom?". Mandou um beijo e disse que ia descansar.
Depois que desliguei, fiquei refletindo sobre tudo o que ele disse. Suas palavras tinham peso, especialmente a parte sobre mudanças. Era algo que eu precisava assimilar.
À noite, fui ao bar do Jefferson com Pedro. Ele precisava ser ouvido, e eu, claro, estava disposto a oferecer esse apoio. Assim que chegamos, algo chamou minha atenção: a ausência de Gil. Ao nos sentarmos à mesa, Jefferson logo se apressou em justificar:
“Eu sei, você está estranhando. Deve estar se perguntando onde está o Gil. Ele foi visitar a avó.”
“Visitar a avó?”, perguntei, surpreso. “Nossa, eu pensei que ele tivesse perdido os contatos com ela. Afinal, a família dele não foi nada boa para ele. Foram extremamente tóxicos.”
Jefferson então explicou:
“Gil ficou sabendo, por algum conhecido, que a avó dele não está nada bem. A pedido dele, eu mesmo o levei até lá. Na volta, percebi que ele estava triste, mas, depois de uma conversa longa, ele decidiu visitá-la de vez em quando.”
Refleti por um momento e acrescentei:
“Minha preocupação nem é tanto com a avó, mas com aquele tio babaca que ele tem. Você sabe o quanto ele prejudicou o Gil.”
Jefferson concordou com a cabeça, sem tirar minha razão, mas respondeu com firmeza:
“Agora ele tem a mim por perto. Se aquele tio dele tentar alguma coisa, o Gil sabe que não está mais sozinho.”
Pedro fez o pedido de sempre, a cerveja da sua marca favorita. Enquanto Jefferson foi buscar a bebida, olhei para Pedro e brinquei:
“Agora somos só nós dois. Desabafe.”
Ele soltou um riso rápido, mas logo mudou para um tom sério e começou a desabafar:
“Cara, a verdade é que eu estava de saco cheio desse relacionamento.”
Ele fez uma pausa antes de continuar, e eu podia sentir o peso do que ele estava prestes a dizer.
“Depois que eu conversei com ela sobre parar de gastar o meu dinheiro para os gastos pessoais dela, nossa relação simplesmente desmoronou. A gente mal se falava, e quando transava, era horrível. Porra, ela morava comigo, gastava meu dinheiro, e nem uma transa decente me dava.”
Fiquei em silêncio, deixando Pedro continuar. Ele estava claramente carregando isso há muito tempo:
“Aí, numa noite, saí com os camaradas das antigas, bebi umas e, quando voltei, tentei dar umazinha na cama, mas ela toda fresca, negou fogo. Cara, eu pirei o cabeção. Falei: ‘Porra, quer saber? Vamos acabar com isso. Nem na cama você comparece mais, Verônica. Tá pior que puta, porque puta pelo menos dá uma gozada boa. Você nem isso faz.”
Pedro tomou um gole da cerveja que Jefferson havia acabado de trazer, como se precisasse de força para continuar.
“Falei que ela podia ficar tranquila, que eu dormiria no quarto que era do Manuel naquela noite, mas que no dia seguinte não queria mais ela lá. E quando ela tentou argumentar, dizendo que não tinha para onde ir, eu cortei logo: ‘Você tem sim, você tem sua casa. Acho que esse foi o erro, de a gente morar junto. E outra, se não tivesse sua casa, você tem suas economias. Afinal, quem te bancou esse tempo todo fui eu.”
Perguntei: " Então acabou mesmo? Ela foi embora?"
Ele respondeu: "Sim, graças ao divino! Ontem de manhã, ela já estava com a mala pronta e veio me perguntar se eu estava certo do que queria. Confirmei que sim, mas ela alegou que não compartilhava do mesmo desejo. Pensei comigo, Renato: claro que não, pra ela ficar comigo era lucro. O estranho é que não houve um término amigável, não teve abraços, nem aperto de mão. Ela simplesmente disse 'tchau' e abriu a porta. Eu só desejei boa sorte.
E para não dizerem que não tenho sentimentos, confesso que senti uma raiva quando a porta se fechou. Raiva por ter sido tão burro, porque eu fui um cara parceiro. Não deixei faltar nada, a gente viajava, saia, e na cama, então, ela não tinha do que reclamar.”
Pedro finalizou dizendo que eu deveria ensinar o truque de como manter um relacionamento. Segundo ele, eu tinha um dom, afinal, me relacionava com dois. Não era para qualquer um.
Respondi: “Ah, aí que você se engana, Pedro. Meu relacionamento teve altos e baixos, teve términos, mas a gente sempre voltava. Inclusive, agora você deve está sabendo da crise de Anderson e Manuel. Lidar com o ser humano, principalmente em um relacionamento amoroso, é complicado. Não é fácil. Mas, no final das contas, tudo depende de quanto você está disposto a se doar por algo que realmente vale a pena. Você colocou na balança, percebeu que não valia a pena, e eu não te julgo por isso. Se algo não estava trazendo paz, se estava sendo mais peso do que felicidade, a melhor opção é sair de cena."
Pedro ficou pensativo por um momento, mas logo voltou a si.
"Sabe o que é mais irônico? Você é bem mais novo que eu, e eu aqui, me aconselhando com você. Ah, me desculpe, Renato, por estar tomando seu tempo."
"Ah, nada disso", respondi de imediato. "Não precisa se desculpar. Eu gosto de sair com você, gosto de rir com você. Estar aqui me faz bem. E, sinceramente, eu também precisava disso."
Hesitei por um instante, mas decidi continuar:
"Pedro, você é um homem muito bonito. Você chama atenção, atrai olhares. Você vai arrumar outra rapidinho."
Ele riu, cruzou os braços e me olhou com aquele jeito provocador.
"Ah é? Sou só bonito ou também sou gostoso?”
Senti meu rosto pegar fogo e soltei uma risada sem graça.
"Ah, Pedro, para com isso!" Tentei desviar, mas ele insistiu com aquele sorriso de canto.
Respirei fundo, tentando não me enrolar mais:
"Pedro, você tá falando com o seu genro, o namorado do teu filho, esqueceu? Mas vou te dizer uma coisa: você é um bom partido, é bonuto, é gente boa, você é independente. Entende? Você tem tudo que alguém busca em um relacionamento. Só acho que você tem que aproveitar mais a vida.”
Ele me olhou, sorrindo. "Então quer dizer que, sou um bom partido, eu teria alguma chance?"
Fiquei vermelho, mas ri.
"Olha, Pedro... por favor!."
"To zoando, Renato! Eu sei que você é o namorado de Manuel. E sabe que meu filho deu mole aquela noite, né?" Ele riu com um tom ácido. "Você foi pra lá pra ter uma noite gostosa, e o meu filho levou mais um cara para trepar com vocês."
Já um pouco ousado, creio eu que era por conta da bebida, ele continuou: "Tu tava lá pra fazer amor, acabou que eu que te dei prazer."
Senti o calor subir ao rosto, completamente desconcertado. Pedro, por outro lado, parecia se divertir com a situação.
Fiquei sem reação, sem saber o que responder, mas ele não parou: "Foi gostoso, Renato, mas deixa eu te dizer uma coisa: antes de gostar de cú, eu sou vidrado por mulher, adoro chupar uma bucetinha, de meter gostoso."
O silêncio pairou por alguns segundos, até que Jefferson chegou pra quebrar a tensão e perguntar: "E aí, quem vai querer mais uma rodada?"
Eu respirei fundo, tentando digerir a provocação de Pedro, enquanto ele se virou para Jefferson e soltou:
"Ô, meu chapa. Agora tô solteiro!"
Jefferson devolveu no mesmo tom:
"Ah, é? Então agora tá na pista?
Pedro confirmou:”Agora é sério, Jeff. Tô solteiro. Se você conhecer alguma gata aí, joga na minha mão, hein? Tô precisando aproveitar.”
Jefferson então disse: ”Olha, conheço umas mulheres que frequentam aqui. Posso te apresentar, mas já vou avisando: elas são do tipo de uma noite só, viu? De meter e esquecer."
Pedro deu uma risada curta, mas não conseguiu esconder a animação.
"Isso é exatamente o que eu tô precisando, Jeff! Joga elas na minha mão. Mas quero mulher vadia, mas não joga mulher acabada não, quero uma gostosa, estou precisando de bucetinha de todo o tipo. Se elas darem o cuzinho melhor ainda. "
Eu, assistindo, entrei na conversa.
"Gente, isso é muita informação pra minha pessoa."
Pedro me olhou com aquele sorriso travesso.
"Ah, Renato! Deixa disso. Você não é um viado depravado, mas está longe de ser santo."
Jefferson segurou o riso e completou:
"Cara, papo reto! Se fosse em outra época, eu ia me juntar com você e a gente ia comer muita buceta, muita puta que vem aqui. Mas agora tô com o Gil, e não posso, senão eu fechava o bar e a gente fazia uma bagunça boa, já fodi muito aqui."
Pedro respondeu, rindo junto:
"Porra, é so jogar as mulheres na minha mão, agora eu tô morando sozinho, minha casa vai virar motel!”
Para mim, estar ali, ouvindo tudo aquilo, era um turbilhão. Porque, querendo ou não, minha mente pintava as cenas que eles descreviam. Pedro e Jefferson, que também não era de se jogar fora, com várias mulheres... Era algo difícil de ignorar.
A conversa mudou de rumo assim que Gil entrou no bar. Jefferson, que até então parecia completamente à vontade, ficou visivelmente sem graça. Gil me viu e veio direto em minha direção, me abraçando com um sorriso caloroso.
"Amigo, que bom te ver!" disse ele, animado, antes de cumprimentar Pedro com um aceno simpático e dar um abraço caloroso em Jefferson.
"Renato, vamos lá pra casa botar as fofocas em dia!" convidou ele, com aquele entusiasmo que só Gil tinha.
Olhei para Jefferson, que, ainda sem jeito, apenas balançou a cabeça e disse:
"Fica à vontade, Renato.”
A casa de Pedro era mediana. Não era pequena nem grande, mas era linda. Toda mobiliada, com móveis bem escolhidos e detalhes que mostravam o bom gosto de Jefferson.
Na sala, eu e Gil nos sentamos para conversar.
“Bicha, o que você faz aqui?. Não é o seu dia de vir para cá.”, perguntou ele.
“Então, nem eu tinha planos de aparecer hoje. Mas Pedro pediu pra conversar.”
“Aconteceu alguma coisa?” Gil quis saber, curioso.
“Ah, coisa da vida...” Respondi, dando de ombros. “Aliás, falando em coisa da vida... O Jefferson comentou sobre sua avó. Ela está bem?”
“Ai, Renato, tadinha... Ela está tão debilitada, tão fraca. Mas creio eu que, depois dos medicamentos que ela está tomando, ela vai melhorar.”
“E o seu tio? Ele não está te dando trabalho, né?” perguntei.
“Não, Renato. Graças a Deus, ele tá namorando. Uma mulher lá... Meio estranha.”
“Claro. Pra namorar com ele, tem que ser no mínimo meio estranha”, brinquei, soltando uma risada.
Gil também riu, mas logo completou: “Eu só não quero confusão, sabe? Com tudo que minha vó tá passando...”
“Tá, mas o fato de você não querer confusão não quer dizer que tem que engolir certas coisas.” Interrompi, sério.
“Não, ele não vai fazer nada. E se tentar, eu vou falar com o Jefferson. Eu prometi isso pra ele”, garantiu Gil, com firmeza.
“Você promete mesmo?”, perguntei, olhando diretamente para ele.
Gil então acrescentou: “Sei que ela me fez passar por constrangimentos. Me deixou pra baixo pra defender o filho.”
Ele abaixou a cabeça por um momento, e eu completei: “Tá, mas não foi só isso. Ela ficou do lado do filho, mesmo sabendo que ele abusou de você. E ainda te culpou por tudo que aconteceu.”
Esperei alguma fala dele, dando espaço para ele concluir.
“Sabe, Renato... Até hoje não sei exatamente o que meu tio disse pra ela. Deve ter contado a versão dele, sabe como é. Mas... Se não fosse minha avó, eu estaria mais perdido. Sabe lá onde eu estaria neste momento. Porque ninguém queria a responsabilidade de cuidar de mim.”
Engoli seco e Gil mudou de assunto completamente, perguntando sobre Manuel e Anderson, querendo saber da nossa relação. Eu falei, "Menino, confesso que tenho vivido altas emoções, mesmo longe." "Bom pra você", ele disse, confessando que também tem vivido coisas bem intensas com Jefferson. "Bom, já que você também se envolveu com um cara que até então era hétero. Esses caras são insaciáveis, né? Parece uma máquina."
Eu, pensando na provocação, respondi: "Bom, cá entre nós, você não só curte coroa, como também curte cara hétero. Naldo é um exemplo, Jefferson também e vai saber de tantos outros que já passaram por aí."
Gil, com um sorriso travesso, respondeu: "Sim, eu gosto do cara que faz estilo hétero, macho, gosto de coroa. Mas você não fica atrás não, tá? Seu estilo também é bem esse. Só que tirando a parte do coroa ... aliás nem precisou ir longe, você preferiu pegar alguém da sua família." Ele riu e continuou: "A gente tem fogo no rabo, e a gente gosta, amigo. Não adianta."
Eu não consegui segurar a risada e dei uma boa gargalhada também.
"Então, eu disse sorrindo: 'Não vamos discutir não, porque é perda de tempo. A gente nunca vai admitir quem tem mais fogo do que o outro.'
Fazia tempo que eu e o Gil não tínhamos esse momento de conversa, de rir um com o outro. Mas, ao olhar para o relógio, percebi que estava ficando tarde.
Falei: 'Migo, o assunto tá bom, mas eu tenho que ir.'
Ele me acompanhou até o bar. Olhei para Pedro e falei: 'Vamos? Tá ficando tarde. Se não, amanhã o meu patrão pode me dar uma advertência.'
Pedro riu. 'E pior, pode mesmo, tá? Porque o patrão tá bravo ultimamente.'"
Pedro me deixou em casa. Antes de sair, disse "boa noite e não se atrase amanhã, senão leva gancho." e deu aquele sorriso descontraído. Entrei em casa, tirei os sapatos e, antes de me deitar, mandei uma mensagem para Anderson e Manuel, dizendo que tinha acabado de chegar. Falei que tinha saído com o Pedro, mas que cheguei bem.
Anderson, já sabendo de tudo o que estava acontecendo, principalmente sobre a separação de Pedro, respondeu de boa, entendendo a situação.
Agora, era hora de descansar e processar tudo que tinha acontecido naquela noite.
Os dias seguintes foram passando, e Pedro entendeu que não havia necessidade da gente ir na sexta-feira no nosso happy hour, afinal, já tinha conversado outro dia. Acho que ele foi encontrar com as rapaziadas antigas dele, ou até mesmo trepar com uma mulher. Aproveitei que a noite de sexta-feira estava vaga, e fui ter uma videochamada com os meninos. Entre um assunto e outro, eu adiantei os planos de Natal, de fim de ano, da minha família. Expliquei que no Natal teria uma ceia simples entre o pessoal lá de casa, mas falei que, diferente dos outros anos, minha família estava querendo alugar o sítio para a virada do ano. Falei que Ricardo estava pensando numa festa grande, adiantei para Anderson que os pais deles possivelmente seriam convidados, e já os convoquei: “Vocês já estão mais do que convidados. Quero vocês aqui.” Anderson não escondeu a animação: “Caralho! Lógico que vamos nessa festa! Porra, mano, vai ser massa.”
Mas Manuel não esboçou nenhuma reação e disse: “Não quero atrapalhar a alegria de vocês não, mas só quero lembrar que Anderson está na experiência, acho arriscado ele ir.
Eu vi a alegria que estava estampada no rosto de Anderson sumir. Logo depois, ele questionou: “Você acha mesmo que isso pode acontecer? Sei lá, eu posso conversar com a diretoria. Ver se posso trabalhar horas a mais para compensar, se eles me dão uma folga extra.”
“Você pode tentar, claro, afinal tudo conversado é entendido,” respondi.
Mas Manuel retrucou: “Olha, eu só estou dando a minha opinião, acho arriscado, porque tudo é levado em conta numa experiência. De repente, a gerência não vai ver isso com bons olhos.”
Eu ainda tentei, dizendo: “Poxa, mas Anderson é encarregado. Bem ou mal, ele tem um poder lá dentro. Não é possível que ele não possa colocar alguém para substituí-lo para que vocês possam vir para a Volta Redonda.”
Manuel tentou se explicar: “Eu vou parar por aqui para não ser inconveniente e vocês me julgarem falando que eu sou o chato da vez e estraga prazeres.”
Anderson dessa vez se manifestou: “Não. Por um lado, você está certo, Manuel. A gente tem que olhar para os dois lados. E eu não tinha pensado nisso.”
Agora, quem estava com raiva era eu. Pensei: “Não é possível. Se além de passar o Natal sem eles, eu também não os teria no Ano Novo. Porra, como Manuel pode ser tão sem noção?” Então, esbravejei: “Sabe o que eu acho engraçado? Para vir para Volta Redonda ajudar Anderson, me dar uma notícia que até então, para mim, era ruim, você não pensou duas vezes. Veio praticamente num bate-volta, alegando que era uma ajuda necessária. Agora, para vir aqui me ver, para passar essa virada do ano juntos, você não tem a mesma consideração. Sendo que, grande parte do comércio entra em recesso. E, visto que Anderson pode sim conversar, já que tem um cargo de encarregado lá dentro, Outro ponto importante, lá eles sabem que Anderson é de outro estado. Mas nesse caso, você não tem a mesma vontade que teve de vir aqui para buscar Anderson para morar com você. Cara, se você não quer vir, fale.”
“Viu porque eu não queria dizer nada?” falou Manuel. “Cara, convenhamos. Você está sendo egoísta. Está pensando só em você. Mas eu não vou me justificar, não vou me explicar. Eu apenas dei a minha visão dos fatos. Agora, se você vê isso como errado, eu não posso fazer nada.”
Anderson precisou intervir, falando que a gente estava se exaltando. “Eu entendo o seu lado, Renato, mas também entendo o lado do Manuel.” Nesse momento, Manuel simplesmente saiu, deixando apenas eu e Anderson na chamada. Anderson chamou ele pra voltar, mas foi ignorado. Olhei pra Anderson e falei: “Olha, eu esperava de tudo, menos isso.”
“Calma, Renato,” adiantou ele. “Eu vou ver o que posso fazer aqui, mas ele em partes tá certo.”
“Poxa, eu vim aqui super animado para dar notícias para vocês. Eu gostei da ideia de reviver tudo o que a gente já passou naquele sítio, principalmente agora, com algo diferente, já que passaríamos a virada do ano juntos. Mas aí, o Manuel vem e nos joga um balde de água fria na gente.”
Anderson estava muito compreensivo: “Renato, meu amor, eu também fiquei animado, mas a gente tem que admitir que o Manuel teve boas intenções. Ele teve uma visão diferente, que compartilhou com a gente. Mas eu já estou chateado, deixo adiantado aqui: se eu não conseguir, eu vou ficar muito chateado.
Finalizei a videochamada dizendo:
"Olha, eu digo e repito, o propósito dessa videochamada era bom. O objetivo era comunicar a vocês que foram lembrados e convidados para participar da virada do ano comigo e com minha família. Agora, se vocês querem vir ou não, isso já não é mais comigo. Eu fiz a minha parte, quero sim vocês comigo, mas o convite está feito. E se decidirem vir, ótimo. Caso contrário, é outro assunto."
Anderson tentou falar algo, mas eu interrompi:
"Está tranquilo, é melhor eu desligar agora."
Eu fui dormir muito chateado naquela noite. No dia seguinte, no trabalho, como de costume, o Manuel me ligou. Mas eu não atendi. Preferi ignorar. Pode até parecer birra, mas quando eu levo algo pro coração, é assim que fico.
No dia seguinte, ele me ligou várias vezes, sem sucesso, e me mandou algumas mensagens, que preferi nem ler. Depois de tanta insistência, Pedro apareceu na minha sala e disse:
"O Manuel está querendo falar com você."
Minha resposta foi direta:
"Pedro, eu e seu filho não estamos bem, não me sinto confortável para falar com ele agora."
Pedro aceitou e antes de sair, completei:
"É o que eu te falei no bar aquele dia. Meus relacionamentos também passam por crises. Isso é normal. Mas, exclusivamente hoje, não estou bem com o seu filho."
Até Anderson me mandou mensagem, preocupado. Ele pediu para eu falar com o Manuel, que não só estava me mandando mensagem, mas também estava insistindo com ele. Respondi de forma objetiva:
"Pode até parecer imaturidade, Anderson, mas eu não quero falar com o Manuel agora. Tenho meus motivos e quem sabe em outro momento a gente converse. Agora, deixa eu trabalhar, por favor."
Minha conversa com o Manuel aconteceu apenas três dias depois, durante a noite, numa videochamada onde Anderson também estava presente. De primeira, ele me cumprimentou, perguntou se eu estava bem e logo começou a se desculpar, dizendo que em nenhum momento ele quis ser desagradável, mas que estava sendo realista. Olhei para ele e falei:
"Tá, isso eu já sei, você já deixou bem claro."
Logo ele entrou na defensiva:
"E por que você não quis me atender durante esses dias?"
Respondi de forma direta:
"Fiquei puto com você. Puto porque eu esperava muito mais de você. Você nem sequer pensou na possibilidade de vir pra cá. Sei lá, parece que você está pouco se lixando."
Manuel tentou se defender, mas Anderson interveio:
"Calma, Renato, também não é assim."
"Tá. Vamos supor que Anderson não possa vir por conta do trabalho. E você, Manuel? Você pode vir. Né? Você viria? Responde."
Manuel falou:
"Cara, e o Anderson ficaria aqui sozinho?"
Eu balancei a cabeça, sem acreditar no que estava ouvindo e falei:
"Como assim? Você mesmo passou um bom tempo sozinho aí. E eu tô aqui sozinho. Anderson pode muito bem se virar sozinho. Não pode, Anderson?"
"Claro, Renato! E eu não vejo nada de mais em Manuel ir passar a virada contigo."
Manuel respondeu:
"Pô, mas é virada de ano. É chato ficar sozinho. Anderson só conhece o pessoal do trabalho."
Eu, já cansado de tantas desculpas, falei:
"Você não quer vir. Deixa pra lá. Deixa baixo. E vida que segue. Se você não faz mais questão, diga. Eu não sou vidente. Estou saturado, de verdade."
Anderson, tentando apaziguar, virou-se para Manuel e falou:
"Porra, não dá pra você ir passar com ele?"
Mas Manuel insistiu:
"E te deixar sozinho?"
Com minha paciência no limite, continuei:
"Assim como vou passar o Natal sozinho, passarei o Ano Novo sozinho também. Cansei de mendigar atenção e afeto. Quer vir me ver? Quer passar comigo? Serão bem-vindos. Caso contrário, melhor ficarem aí."
Anderson, preocupado, disse:
"Gente, eu não estou entendendo o papo torto de vocês."
Foi aí que Manuel revelou:
"Não está entendendo? Em todo momento, ele foi o centro das atenções, o paparicado. Agora, porque eu não quero ir, ele quer fazer todo esse show?"
“Cale a sua boca Manuel! Você já está falando merda já.” Gritou Anderson.
Houve um silêncio.
"Você não entende, né, Manuel? Eu realmente esperava que você entendesse, afinal, passou um bom tempo sozinho aí em Joinville. Eu sempre disse que preciso de toque, de presença. Não posso continuar assim.”
Fui interrompido por Anderson, que tentou apaziguar:
"Não precisa ser assim. Cara, vocês estão insistindo no erro. Parem com isso."
Eu e Manuel ficamos em silêncio. Anderson, tentando mediar, disse:
"Vocês estão com a cabeça quente. Vamos conversar em um outro momento.”
Como Manuel não se manifestou, decidi tomar a frente. Essa atitude até surpreendeu Anderson. Olhei para ambos e falei:
"Será que estou sobrando no meio de vocês? Sei lá, acho que Manuel está agindo diferente comigo, não é o mesmo tratamento de antes, parece que alguma coisa se perdeu no caminho."
Anderson, então, pontuou indignado:
"De maneira nenhuma! Você nunca vai sobrar nesse relacionamento. Jamais pense isso novamente. Você é o motivo disso tudo. Sem você, não haveria relacionamento.”
Manuel continuou calado. Então, tomei uma atitude radical:
"Agora quem não quer você aqui, Manuel, sou eu. Desconsidere o convite, pode ficar em Joinville. Ponto final. Estou decepcionado com você. Mas, como dizem por aí, não é bom gerar muita expectativa, porque a frustração é maior.”
Manuel parecia surpreso com o que eu disse. Ele olhou para Anderson e, logo depois, respondeu com uma voz bem baixa: "Tudo bem!”
Olhei para Anderson e falei:
"Mas, caso você consiga vir, será bem-vindo, como sempre foi. Agora, posso desligar?"
Anderson tentou falar:
"Vamos conversar, cara."
Mas minha decepção com Manuel já tinha chegado ao ápice. Ali, eu apenas me despedi de Anderson antes de desligar.
O tempo foi passando, o Natal chegando. Eu e Anderson, de boa. Minha conversa com Anderson era somente sobre nosso dia, como estávamos. Às vezes, ele me perguntava quando eu ia falar com Manuel, até que eu disse uma frase que ele mesmo me disse: "Meu problema com Manuel é só com ele." Anderson pediu desculpas, mas confessou estar desconfortável com toda a situação. Manuel parou de me ligar, na empresa. Quando nos falávamos era por mensagem, e era algo superficial. Ele tinha o orgulho dele, eu tinha o meu. E assim seguimos. Até que um dia, recebi uma mensagem de Dinei. Meu amigo estava me convidando para passar o Natal junto com ele e Breno. Achei fofo o convite, mas expliquei que passaria com minha mãe, com minha família, porque pra mim, Natal era isso. Ele super entendeu e, antes de terminar a conversa, me cobrou para marcarmos algo no ano seguinte. Eu reforcei que, devido a toda essa mudança e ao trabalho que, às vezes, me consumia, eu reconhecia que estava afastado, não só dele, mas também de Gil. Prometi estar mais próximo deles no próximo ano. Depois da conversa por mensagem, fiquei pensando. Eu nunca tinha feito uma grande lista de planos para o próximo ano, mas senti que agora eu me devia isso. Eu tinha essa obrigação de fazer por mim. Era preciso voltar a ter uma vida pela qual eu gostava, tipo, voltar a investir em mim, sem me deixar consumir por apenas uma parte da minha história. E devo tudo isso a Gil. Foi uma explosão de clareza que me fez perceber que eu havia parado a minha vida para dar atenção ao meu relacionamento.
A contabilidade entrou em recesso no dia 23. Pedro, nosso chefe, presenteou cada funcionário com uma cesta natalina que continha panetone, vinho, lombo e pêssego em calda. Ele nos desejou um feliz Natal e brincou: "Quero ver a cara de vocês só no dia 3 de janeiro!"
Decidi levar a cesta para contribuir na ceia dos meus pais. No caminho, recebi uma notificação do banco informando um PIX inesperado. Logo depois, chegou uma mensagem de Pedro: "Aceita aí! Como eu não sabia direito os seus gostos, enviei um PIX." Abri o aplicativo e vi que o valor era de duzentos reais. Agradeci novamente, dizendo que não precisava, mas ele respondeu: "Precisa sim. Além de funcionário, somos amigos."
Quando cheguei à casa dos meus pais, entreguei a cesta, explicando que era para ajudar na ceia. Percebi que eles ainda não tinham comprado nada, então animei minha mãe e minha cunhada a irmos ao supermercado com a desculpa de evitar as compras de última hora.
Fomos ao hipermercado no centro da cidade e compramos de tudo: frutas, itens para sobremesa e para ceia, bebidas, e optamos por um peru ao invés de um chester. Também levamos um tender, já que Letícia adora. Após pagar as compras, eu peguei um carro de app diferente delas, já que eu quis dormir onde eu morava.
No dia 24, acordei com Letícia me ligando. Era por volta das 10 da manhã.
“Alô?”
Sem rodeios, Letícia já começou:
“A princesa acha que vai ficar aí de mordomia dentro do castelo encantado, enquanto a família dela fica aqui ralando? Pelo amor de Deus, Renato, você é da família, não é de fora, não. Então vem pra cá, porque tem rabanada pra fazer, pudim, coisa pra assar. Vem logo! E outra coisa, tive uma ideia: todo mundo aqui vai usar vermelho. Então pega uma camisa sua vermelha e traz pra cá.”
Eu até tinha uma camisa vermelha, mas estava decidido que tinha que comprar uma nova. Justamente porque era uma data especial.
Me arrumei e fui ao shopping. Entrei na loja que eu já costumava frequentar. Depois de rodar pelos setores, finalmente encontrei uma camisa vermelha que me agradou. Mas, enquanto escolhia, me veio a ideia de comprar presentes para todos. Afinal, era Natal. Escolhi camisas para todos, seguindo o que acreditava ser o gosto de cada um. Tudo simples, mas feito de coração.
Depois de passar no caixa, saí da loja com as sacolas na mão, satisfeito por ter finalizado as compras. Foi quando ouvi uma voz familiar me chamando: Renato?
Ao virar, dei de cara com Daniel, que também parecia estar fazendo compras. Ele estava de camisa preta, calça jeans, e tênis branco. Tudo nele parecia combinar perfeitamente: o charme, a beleza, e aquele sorriso sem igual.
“Daniel! Que surpresa!” Falei, surpreso, mas tentando soar natural.
“Pois é. E aí, como você tá?” Ele perguntou, mantendo um tom amigável.
Antes que a conversa pudesse fluir, Daniel foi direto:
“Renato, você tem um tempinho pra gente conversar? Eu sei que tá na correria, mas precisava falar com você.”
“Claro. Fazia tempo que a gente não se via mesmo.” Respondi, curioso.
Daniel me convidou para ir até a praça de alimentação. Lá, ele pediu um chopp, e eu optei por um suco. Sentamos em um local mais tranquilo, enquanto ele bebia e parecia escolher cuidadosamente as palavras para começar a conversa.
"Renato, cara, é sério... Que merda foi essa que você fez?" Daniel começou, sem demonstrar uma emoção. "Você contou pra Amanda sobre o que rolou entre a gente? Você tem ideia da situação que me colocou?"
Fui pego completamente de surpresa, como se tivesse levado um balde de água fria. Nem sequer imaginei que aquele assunto surgiria, e de repente, lá estava ele, me questionando.
"Daniel, calma, deixa eu te explicar..." pedi.
"Calma? Você foi o único cara que eu já trepei! Isso era pra ficar entre a gente. Agora, por causa da sua boca aberta, a Amanda veio me chamar de viado, de enrustido de merda. Como você acha que eu fiquei com isso?"
Fiquei sem palavras por alguns segundos. Ele continuou: "Cara, eu confiei em você. Achei que podia, pelo menos, contar contigo pra manter isso entre a gente."
Respirei fundo, tentando não piorar a situação. "Eu sei que pisei na bola, Daniel. Foi um momento de raiva. Amanda me provocou como nunca. Ela tem sido tóxica há muito tempo, me perseguindo e me atacando. Quando ela começou a me humilhar, eu perdi o controle e usei o que aconteceu entre nós como uma defesa. Eu não queria te expor, mas acabou acontecendo."
Daniel balançou a cabeça, ainda frustrado. "Pra ser sincero, num primeiro momento eu até pensei que tinha sido o Manuel que entregou o jogo, sei lá, por algum motivo qualquer. Mas você? Renato, de você eu não esperava isso."
"Eu entendo, Daniel... De verdade. E não tenho como justificar. Só posso te pedir desculpa por ter falhado com você. Foi uma atitude impensada."
Daniel suspirou, cruzando os braços. "A merda já tá feita, né? Não adianta ficar brigando. Amanda já é passado, e eu não tô nem aí pro que ela pensa. Sacou? Mas foi foda, Renato."
Ele perguntou, curioso: "Mas só pra saber... Qual foi a reação dela quando você falou isso?"
Respondi: "Cara, ela surtou. Ficou histérica, perdeu o controle. E detalhe, isso tudo numa festa de família. Ninguém acreditou nela, pode ficar tranquilo. Tanto que meu tio mandou ela calar a boca e saiu puxando ela entre os braços pra onde eles estavam."
Ele deu um leve sorriso. "Caralho. Amanda sendo Amanda."
Aproveitei que estávamos falando sobre isso e acrescentei: "Só que tem uma coisinha... meu irmão e minha cunhada também sabem, pois tive que explicar para eles já que estavam do meu lado quando eu disse."
Daniel arregalou os olhos. "Puta que pariu! Fudeu!"
Levantei as mãos em rendição. "Mas pode ficar tranquilo. Ele não brigou comigo. Tanto que esse assunto tenha nos aproximado, já que não estávamos nos falando."
Daniel parecia um pouco confuso e, após um gole no chopp, soltou: "Olha a proporção que esse assunto tá tomando... Não era pra ninguém saber dessa parada."
Daniel parecia indignado. Ele acabou admitindo: "Sabe o que é o pior? Eu sei que você é gente boa, cara. Não consigo ter raiva de você. Tô bolado. Sim, Você pisou na bola, e aquela confiança que eu tinha em você já não existe mais.
Daniel relaxou um pouco, deu de ombros e mudou o assunto: "E o trio existe?"
Ri alto:" Você quer dizer trisal né? Sim, estamos juntos! Eles estão longe, em outro estado, lá em Joinville. Mas estamos firmes e fortes."
Daniel passou a mão pelo queixo e comentou: "Porra, tá durando, hein?"
Ri levemente. "Pois é. Mas agora todo mundo tá sabendo. Quem é contra, é contra. Quem é favor, é a favor. Mas estamos sobrevivendo a isso tudo."
Daniel balançou a cabeça, ainda pensativo. "Isso é uma loucura, mas admiro vocês por isso. Deve ser uma parada muito louca viver um lance desse."
"Tem lá seus desafios," respondi com um sorriso, antes de devolver a pergunta: "Já falei muito de mim. E você, o que tá aprontando na vida?"
Ele riu de leve, inclinando-se na cadeira. "Não vou dizer que tô parado, porque a gente sempre arruma um esquema por aí. Nosso corpo tem que estar em constante movimento."
Concordei, dando uma risada. "Bota movimento nisso."
Antes que pudesse continuar, meu celular tocou era a minha cunhada, logo depois recebo uma mensagem dela: "Renato, já está vindo?."
Suspirei e virei para Daniel. "O papo tá bom mas preciso ir. Desculpa mais uma vez por tudo, tá?"
"Beleza. Pelo menos a gente trocou uma ideia. A gente se esbarra por aí." Disse ele.
Estendi a mão para me despedir, mas Daniel se levantou, e ao tocá-la, me puxou para um abraço. Senti os braços dele me envolver com firmeza, logo depois me deu três tapas leves nas costas, só depois o abraço foi desfeito.
Levantei para pagar o meu suco, mas ele logo disse que era por conta dele. Com um tom de zoeira, soltou: "Meu presente de Natal. Pra você não falar que sou mão fechada e nunca te dei nada. Feliz Natal, leke."
Dei uma risada. "Ah, porque não falou antes? Senão eu teria abusado, pedido algo mais caro. Feliz Natal, Daniel. Foi bom te ver."
Enquanto eu ia para o térreo esperar o carro de app, recebi a ligação de Letícia.
“Onde você está?” Ela perguntou.
“Mulher, o seu macho é meu irmão, tá?” Respondi ironicamente.
Ela deu uma risada no fundo.
“Tô esperando o carro chegar... Mulher, nem te conto quem eu encontrei aqui, adivinha!” Comentei.
“Aí, meu Deus! Não me diga que foi a Amanda…” Disse ela, indignada.
“Deus me livre e guarde... encontrei o Daniel. Mas depois te conto, que o motorista chegou.” Respondi.
Cheguei chegando, e ao buscar um lugar para colocar os presentes, avistei uma pequena árvore de Natal, que até então nunca tinha visto dentro daquela casa. Mas acho que Letícia influenciou minha mãe a comprar. Só então fui ajudar nos afazeres. Eu fiquei responsável pelos doces. Acho que minha mãe é boa para isso. Fiz pudim, manjar e mousse de maracujá. Letícia alem de me ajudar com a rabanada, fez a farofa e o salpicão. Já minha mãe ficou responsável por preparar a mesa e assar o tender e o Peru.
Enquanto preparávamos a ceia, Letícia e eu conversamos sobre o meu encontro inesperado com Daniel no shopping. Depois de colocá-la a par de toda a situação, ela comentou que isso só mostrava que ele era um fofo e que ele deve saber o que perdeu, referindo-se à Amanda. Ela então perguntou: 'Será que depois de você ele ficou com outros caras?' Eu respondi que não, que ele havia me dito que eu fui o único homem com quem ele se relacionou. Ela, curiosa, foi mais a fundo: 'Será que rola algo mais entre vocês?' Respondi, um pouco mais sério: 'Me respeita, não sou bagunça. Sou comprometido. Mas, para responder sua pergunta, nem pensei por esse lado, se é isso que você quer saber.'
Ela ousou dizer que me conhecia e que, se não fosse pelo meu relacionamento, com certeza eu já teria feito acontecer.
“Ah Letícia, você está muito abusada! Não vou mentir.” respondi: 'Daniel me atrai muito, sem falar que é gostoso na cama, mas não é para o meu bico. O que rolou entre a gente foi uma degustação para mim, e para ele, uma curiosidade e uma curtição.
Ela pareceu entender e a gente focou no preparativos.
Embora o meu Natal tivesse sido totalmente diferente dos outros, com algo mais simples e apenas com meus pais, foi um momento de muita conexão. Ficamos conversando na mesa até meia-noite, nos abraçamos e desejamos Feliz Natal uns aos outros. Antes da ceia, minha mãe fez uma oração linda, agradecendo a Deus pela nossa união como família e pela comida. Só então fomos comer, e posso dizer que fiquei farto de tanta comida boa. Depois que todos estavam satisfeitos, meu pai aumentou o volume do som e, ao som de música sertaneja, ele começou a entregar os presentes que ele e minha mãe haviam comprado. Eu ganhei uma caneca personalizada e um chinelo. Logo depois, entreguei os presentes que eu havia comprado, e parecia que todos gostaram das camisas.
De repente, Ricardo subiu as escadas, indo em direção ao quarto dele, e voltou com uma caixa de presente. Mas quem fez o discurso foi a Letícia.
“Este é um presente muito especial, algo que a gente tem planejado com muito carinho, vocês sabem disso.”
Nessa hora, olhei para minha mãe, que estava com o olhar arregalado de preocupação. Ela olhou para mim também, buscando saber o que estava acontecendo, e eu provavelmente tinha o mesmo pensamento: Ela está grávida.
Mas Letícia continuou:
“E finalmente, um sonho nosso vai ser realizado, e vocês ficarão sabendo em primeira mão.”
Ricardo entregou a caixa para minha mãe, mas ela estava tão nervosa que me deu a caixa. Coloquei em cima da mesa e falei:
“Vamos descobrir o que é então... tô ansioso!”
Abri a caixa e lá dentro havia um envelope. Um silêncio se formou, e eu pensei comigo: É o resultado do exame de gravidez, ou uma carta dizendo que a criança vem ao mundo.
“Abre, Renato! — pediu Ricardo.”
Respirei fundo e, com a mão trêmula, abri o envelope. Quando puxei o papel, era um papel com letras douradas. Demorei para processar o que estava em minhas mãos. Minha mãe, com uma expressão de ansiedade, perguntou o que era aquilo, e eu respondi:
“É um convite de casamento! Meeeentira que realmente vai acontecer?!” — exclamei, surpreso.
Fui em direção a eles, os abracei e, quando olhei para minha mãe, ela estava aos prantos, mas ela também os abraçou, e o ambiente foi preenchido por uma emoção que eu não conseguia definir.
Acabou que Letícia também se emocionou e chorou. Realmente, aquele foi um presente de Natal que ficou marcado para todos nós. Enquanto minha família conversava sobre os detalhes já definidos do casamento de Ricardo e Letícia, pedi licença e fui para a varanda, decidindo ligar para Anderson.
Ele atendeu todo feliz, gritando um “Feliz Natal”, pedindo só um minuto para ir a um lugar mais tranquilo. Percebi logo que ele não estava na casa onde morava com Manuel.
“Oi, meu amor. Pode falar,” ele disse.
“Feliz Natal pra você também! Onde você está? Onde está Manuel?” perguntei, estranhando o som de música alta ao fundo.
“Sabia que você ia perguntar. Estou com o César, ele nos chamou para passar aqui. O Manuel está na cozinha, ajudando a fazer uns drinks. Quer falar com ele?”
“Não precisa...,” tentei dizer, mas Anderson já estava a caminho, chamando Manuel.
“Manuel! Renato na chamada!” ele gritou, entregando o celular a Manuel.
“Sério? É ele?” Manuel perguntou, com uma expressão um tanto surpresa. Confesso que eu também não sabia o que dizer, já que só nos falávamos por mensagem ultimamente.
“Oi, meu anjo!” disse Manuel, um pouco sem graça, enquanto ajudava alguém com os drinks.
“Tô ligando só pra desejar um Feliz Natal! Muita paz e saúde pra você,” falei.
“Ah! Pra você também! Te desejo tudo de bom, principalmente saúde. Não esperava sua ligação.”
“Não sei porquê. Você sabe que eu não sou esse tipo de pessoa.”
Anderson pegou o celular de volta e perguntou:
“E aí, como está? A ceia está bacana?”
“Tá tudo muito bom, mas a surpresa da noite foi Ricardo e Letícia nos dando um presente... o convite do casamento deles!”
“Que maneiro! É agora ou nunca! Agora finalmente vai sair. E é oficial mesmo?” ele perguntou.
“Pelo visto, sim!” confirmei.
Nesse momento, César apareceu na vídeo chamada, gritando “Feliz Natal, Rê!” e saiu rindo. Anderson se afastou um pouco da galera, indo para um local mais tranquilo fora da casa.
Eu, com um sorriso irônico, comento:
“Tem bastante gente aí na casa do César, né? Povo animado este…”
Anderson riu, sabendo o que eu queria dizer com isso, mas logo explicou:
“Na verdade, não é a casa do César como você pensou. Estamos na casa da tia dele. O ambiente é bem mais tranquilo, mais familiar. Tem uns amigos dele e um casal de lésbicas aqui também, e o resto é só família do César. O pessoal é bacana, nos receberam super bem.”
Manuel se aproximou com um copo na mão, abraçando Anderson de lado e perguntando para mim como estava sendo minha noite de Natal.
“Não tão animada quanto a de vocês, mas tá maravilhosa,” respondi.
“Isso é o que importa, só não pode desanimar ou passar em branco,” Manuel disse.
“Pois é,” confirmei.
Anderson então comentou sobre Ricardo para Manuel sobre o casamento de meu irmao. Logo Manuel quis saber o dia.
“Que coisa boa! Que dia será?”
Foi quando percebi um detalhe que passou despercebido. Mesmo tendo visto o convite, eu não prestei atenção no dia e no local. Estava tão emocionado por conta de ver o convite, de perceber que aquilo realmente estava acontecendo, que fiquei desatento a esses detalhes.
“Não sei...” respondi, sem saber o que dizer.
Eles riram.
“O principal você não viu? Sacanagem!” disse Manuel, rindo. Depois, completou: “Me manda o dia, pra eu colocar na minha agenda.”
Nossa ligação foi interrompida pelo grito histérico de César, que dizia:
“É sério que vocês vão ficar pendurados nessa ligação? Rê, é Natal, deixa eles curtirem a festa!”
Levei na esportiva, falei:
“Meu amor, eles tão curtindo a festa. Só que liguei pra desejar felicitações. Eles ainda são meus namorados, lembra?”
Manuel então me mandou um beijo e saiu junto com César. Anderson, super sem graça, me pediu desculpas pelo ocorrido.
“Relaxa, não liguei. Levei tudo na esportiva. Até porque a gente realmente esticou a chamada. Mas vai lá se divertir. Amanhã a gente se fala.” Respondi.
Na manhã seguinte, antes do almoço de Natal, o celular tocou novamente. Era Anderson fazendo uma videochamada. Atendi com um sorriso, ainda embalado pela energia da noite anterior.
"Feliz Natal mais uma vez, meu amor!", disse ele, com aquela energia contagiante.
"Feliz Natal, Anderson. E aí, já almoçaram?", perguntei curioso.
"Sim, acabei de almoçar. Mas me conta, dormiu bem?"
"Tem como não dormir bem depois de toda a surpresa? Foi lindo e emocionante."
"Imagino." respondeu ele, antes de mudar o tom, sério. "Renato, será que você pode chamar o Ricardo? Quero falar com ele."
Aquele pedido me pegou desprevenido, mas acenei positivamente, mesmo que Anderson não pudesse ver. Da cozinha, chamei:
"Ricardo, estão querendo falar contigo."
Entreguei o celular para ele, que franziu a testa, claramente sem saber quem era, mas pegou o telefone e falou:
"Oi."
Do outro lado, Anderson começou a falar com sua voz firme e cheia de felicidade:
"Fala, Ricardo! Aqui é o Anderson. Tudo bem, cara?. Está Podendo falar?"
Ricardo respondeu que sim, processando a ligação inesperada. Anderson continuou:
"Cara, eu sei que tivemos nossos atritos e sei o quanto você foi influenciado pela minha irmã. Mas, olha, eu te perdoo. De verdade, de coração. Não vale a pena continuarmos assim. Sempre fomos parceiros, e quero que isso volte a ser como era."
Ricardo permaneceu ouvindo com atenção, visivelmente emocionado. Quando Anderson terminou, ele respirou fundo e respondeu:
"Anderson, eu não sei nem o que dizer. Obrigado, de verdade. Você tem razão, eu errei e não foi pouco. Fui um otário mesmo, arrogante, julguei vocês muito... e me arrependo disso. Me perdoa."
Do outro lado da linha, Anderson riu, quebrando o clima tenso:
"Claro que sim, mano. Já tá perdoado. Agora, só quero saber uma coisa: o convite pra ser padrinho ainda tá de pé, né?"
Ricardo riu, ainda emocionado:
"Tá de pé, Anderson. Sempre esteve."
Quando ele finalmente devolveu o celular, virou-se para mim e me abraçou apertado, claramente emocionado.
"Obrigado, gente." disse ele com a voz embargada, os olhos marejados.
Era impossível não se emocionar. Aquela ligação tinha sido mais que um gesto de reconciliação; tinha sido um outro presente de Natal que transcendeu qualquer presente material.
Com a saída de Ricardo, eu emocionado disse:
"Cara, não tenho palavras para te agradecer por esse momento. Foi lindo, sério. Parabéns pela atitude. Ninguém perde por ter um coração bom."
Logo depois perguntei a Anderson sobre o Manuel, curioso para saber como ele estava após a noite de festa.
"E o Manuel, como está?" — perguntei.
Anderson respondeu com um tom de voz divertido:
"Ah, aquele puto tá deitado na cama, cheio de ressaca. Bebeu pra caralho ontem. Mas daqui a pouco ele liga pra você, pode deixar."
Fui cauteloso, querendo respeitar aquele momento:
"Anderson, eu não quero forçar nada, viu? Se ele quiser falar, ele fala."
Anderson riu, mas continuou:
"Não, ele vai ligar sim."
Mudei de assunto, aliviado.
"Eu fiquei feliz por você ter passado uma ceia legal, cheia de gente. Foi bom, né?"
Ele respondeu com entusiasmo:
"Foi demais, cara. Nem eu sabia que ia pra lá. O cara me chamou de última hora. Mas fui muito bem recebido. Foi muito bacana."
Fiquei contente de saber que, apesar dos imprevistos, a noite tinha sido boa para ele também.
Continuei:
"Então, todos nós passamos uma boa noite de Natal. Vocês aí com seus amigos e você em família."
Anderson respondeu:
"Sim. Resumindo, tudo foi muito bom para todos."
Minha mãe me chamou para almoçar, mas antes que eu pudesse me levantar, ela percebeu que eu estava falando com o Anderson. Com um sorriso no rosto, ela se aproximou e disse:
"Fala, querido. Quando você vem novamente para Volta Redonda?"
Ela estava feliz em vê-lo conversando e, aproveitando o momento, desejou um Feliz Natal a Anderson. Ele, sorrindo ao ouvir a felicitação, respondeu:
"Tia, eu vou tentar aparecer em breve. Não tem um dia certo, porque como a senhora sabe, estou em experiência. Se não fosse isso, eu passaria a virada com vocês. Feliz Natal, tia."
Agora com o telefone em minhas mãos, decidi tocar em um assunto que estava me incomodando.
“Então é isso.”, comentei, tentando soar casual.
“Isso o quê?”, perguntou Anderson, claramente confuso.”
“Você falou com minha mãe que não vai dar pra vir no Ano Novo?”
Ele percebeu o deslize e suspirou.
“É, Renato, é isso. Tentei conversar aqui, mas eles podem até me dar a folga; porém, não garantiram que isso não prejudicaria meu futuro na empresa. Então, com tantas dúvidas, achei melhor ficar.”
Tentei disfarçar a pontada de tristeza.
“Tudo bem. É por uma boa razão. Pelo menos você tentou, não é verdade? O "não" você já tinha. Pena que não conseguiu o "sim".’
Do outro lado da linha, Anderson suspirou.
“Eu também queria estar aí com você, Renato. De verdade. Cara... não é só você que sente saudade, eu também sinto. Essa saudade me tortura, porque eu te amo pra caralho. Muito. Mas prometo que, assim que der, eu vou compensar isso, tá bom?”
Respirei fundo, tentando afastar a tristeza.
“Eu sei disso. E aceito, claro. Como já disse, queria você aqui, mas entendo.”
Anderson continuou:
“Meu amor, sei que vai ser ruim passar mais uma festa longe. Principalmente numa data tão especial que é a virada de ano. Mas tente entender, tá?”
Assenti, mesmo que ele não pudesse ver.
“Tá bom. Vamos superar isso também.”
Logo nos despedimos, e desliguei o telefone.
Um misto de sentimentos tomou conta de mim. Raiva, tristeza, frustração. Era um turbilhão, mas decidi que isso não iria arruinar o meu dia de Natal. Afinal, o almoço estava prestes a ser servido, e eu não seria louco de estragar o momento da minha família.
Respirei fundo, levantei a cabeça e voltei para a mesa. Sentei, ri, brinquei, interagi. Fiz o possível para que ninguém notasse o que se passava dentro de mim. Mas, claro, isso não passou despercebido para quem me conhecia bem.
Letícia, sentada ao meu lado, sussurrou:
"O que tá acontecendo? Rolou alguma coisa?"
"Nada não", respondi, tentando desviar.
Ela insistiu:
"Renato, eu te conheço. O que tá pegando?"
Suspirei, vencido.
"Além do Manuel, o Anderson também não vem na virada do ano."
"Poxa...", disse ela, visivelmente sentida. "É complicado, mas com certeza deve ser por um motivo maior."
"Sim, pior que é."
Ela colocou a mão no meu ombro e sorriu, tentando me animar:
"Mas não fica assim não. Nosso Ano Novo vai ser perfeito. Tu vai ver. Vai ser tão bom que você nem vai lembrar deles."
Antes que eu pudesse responder, Ricardo, que estava ouvindo parte da conversa, entrou no papo:
"Nosso Ano Novo vai ser perfeito, pode ter certeza. Eu já chamei o Naldo, alguns caras da capoeira e até uns amigos do meu trabalho. Pedi pra você chamar gente animada também, como o Gil, o Diney e até o seu patrão se você quiser chamar. Pode crer, vai ser muito animado, não espero pouca coisa não."
Letícia, completou:
"Concordo. Vai ser inesquecível."
Olhei para ela, que devolveu o olhar com um sorriso tranquilo, como se estivesse tentando me transmitir confiança. Eu sabia que, apesar da saudade de Anderson e Manuel, teria que fazer o possível para aproveitar o momento com quem estava ali.
Durante aquela tarde, enquanto eu e meus familiares assistíamos a uma série, meu celular tocou. Era Gil. Com sua animação habitual, ele me convidou para ir à casa dele. "Vem pra cá, amigo. Vamos papear um pouco. Chamei o Breno e o Dinei também. Vai ser só um encontro entre amigos, pra gente dar risada e se distrair."
A ideia era tentadora demais para resistir. Eu já tinha passado a ceia com minha família, e fazia tempo que eu e meus amigos não nos reuníamos de forma descontraída. Era uma oportunidade perfeita para reviver momentos divertidos e reforçar os laços de amizade.
Avisei à minha mãe sobre o convite e expliquei que ia sair por algumas horas. Ela sorriu e disse: "Vai lá, meu filho. Só não volte tarde, tá?"
Vesti uma roupa confortável, ajeitei o cabelo rapidamente e saí. A caminhada até a casa do Gil era breve, mas já dava pra sentir a expectativa de uma noite agradável. Afinal, reencontros com amigos sempre trazem aquela energia especial que renova a alma.
Quando cheguei, a primeira coisa que notei foi que o bar estava fechado, o que mostrava que eles ainda preservavam momentos de tranquilidade e vida social fora do trabalho. Ao chamar pelo Gil, ele apareceu rapidamente com seu sorriso largo e me convidou para entrar. "Entra aí, Renato. Dinei e Breno ainda não chegaram, mas já já tão aqui", ele disse com entusiasmo.
Pouco tempo depois, Jefferson surgiu. Estava à vontade, vestindo apenas um short e sem camisa, como quem já se sentia em casa. Ele veio direto até mim, todo solícito, me abraçando calorosamente. "Fica à vontade, meu querido! Aqui você é de casa. Quer beber alguma coisa?"
Dei uma risada e respondi: "Bom, já que estou aqui, pra não quebrar o costume, vamos de cerveja, né?" Porém, fiz questão de reforçar: "Mas olha, eu ajudo nas despesas, viu? Não vou deixar você no prejuízo, não."
Jefferson riu e balançou a cabeça. "Relaxa, Renato. Hoje é pra gente se divertir. Mas, se insistir, aceito a ajuda depois." Ele piscou, já saindo em direção à cozinha para pegar as bebidas. O clima era leve, e eu já podia sentir que aquela noite seria marcada por boas conversas e risadas.
E automaticamente, Gil falou: "Ai, Rê, eu tô tão feliz de você ter vindo. Na verdade, quem teve essa ideia foi o Jefferson. Ele sugeriu: ‘Por que você não chama os seus amigos?’ E olha, obrigado por ter vindo mesmo."
Sorrimos e nos sentamos à mesa. Aproveitei para perguntar logo: "E sua avó, como tá? Melhor perguntar agora, antes que a gente acabe quebrando o clima com notícia ruim depois."
Gil respondeu, suspirando: "Tá na mesma, Renato. Não piorou, mas também não melhorou. Não tô defendendo ninguém, mas até o Jefferson notou isso: meu tio tem ajudado bastante."
Eu comentei: "Lógico, é a mãe dele. Se ele não fizer por ela quem vai fazer? É o mínimo que ele pode fazer por ela. Depois de tudo que ela já fez por ele, né? Mesmo ele estando errado."
Jefferson riu e acrescentou: “ Eu gosto disso. Você fala na cara. Se eu falasse isso, o Gil ia reclamar."
Gil revirou os olhos e retrucou: "Ah, não começa, Jefferson."
Eu brinquei: "Ó, se começar a discutir aqui, eu vou embora, hein!"
Gil levantou as mãos, rindo: "Não, a gente não tá discutindo, não."
Jefferson completou: "Cara, a gente nem tá discutindo. Você ainda não viu esse acontecimento. De vez em quando, esse seu amigo aí, ó, é cabeça dura. E eu também sou, então a gente se estranha."
Respondi: "Normal em todo relacionamento, né, filho. Eu também... Você tinha que ver as minhas discussões, as minhas brigas com o Anderson. Já teve inúmeras. Com o Manoel nem tanto. Mas com o Anderson... Já perdi até a conta. Faz parte, né?"
Gil acrescentou: "Ah, mas seu primo, ele é cabeça dura mesmo. Lembra que no começo eu não gostava dele? Ele era super desagradável, metido, se achava. Lembra que eu até falava que ele era bonito e tudo, mas eu achava ele super arrogante."
‘Sim. Você tinha uma birra dele.” Falei.
Jefferson entrou na conversa sobre meu relacionamento e comentou: "O Gil já tinha me contou umas histórias sobre você, o Anderson e o Manuel. Sabe, nunca tinha conhecido um trisal antes." Ele parou por um instante, riu, e corrigiu: "Quer dizer, trisal eu já conheci um monte, mas geralmente uma das partes só sabia que estava numa relação a três quando descobria a traição da outra parte."
Eu ri e retruquei, brincando: "Ah, bobo! Mas a gente é diferente. Somos um trisal de verdade, tá? Sem segredos."
Foi ali que percebi algo novo. Pela primeira vez em muito tempo, Jefferson estava realmente presente, sentado à mesa, conversando comigo. Normalmente, ele saía rapidamente ou só participava de relance, enquanto servia eu e Pedro. Mas agora era diferente. Ele estava engajado, trocando ideias, e eu estava gostando dessa interação mais próxima com ele.
Jefferson comentou: "Falando em Pedro, ele tá curtindo uma rapariga por aí, né?"
Respondi, com um tom despreocupado: "Não sei, tá?"
Ele concordou com a cabeça, dizendo: "Bom, pelo menos eu joguei duas na mão dele."
Eu ri e completei: "Aquele ali não perde tempo não, não brinca em serviço. O que ele tem de gente boa, ele tem de safado."
Nesse momento, ouvimos Dinei chamar lá fora. Gil foi recebê-lo. Assim que o vi entrando, levantei e abracei Dinei. Ele estava tão bonito, tão radiante. Não que ele não fosse antes, mas parecia que todos esses acontecimentos — trabalho, relacionamento — estavam fazendo muito bem para ele.
Eu sorri e comentei: "Dinei, tá bonito, hein? Esses últimos tempos tão te fazendo bem, hein?"
Ele agradeceu com um sorriso. Depois de todos se cumprimentarem, sentamos à mesa, abrimos as cervejas e começamos a beber, enquanto o clima de descontração e amizade tomava conta do ambiente.
Começamos conversando sobre como cada um tinha passado o Natal. Depois que todos compartilharam suas experiências, Dinei virou para mim e perguntou:
"E o Anderson e o Manuel? Eles vêm pra cá?"
Respondi: "Pra VR? Não, infelizmente não deu pro Anderson vir por conta do trabalho, já que ele está se dedicando bastante. E... o Manuel... Bom, ele simplesmente não quis vir. Essa é a verdade."
Gil estranhou, franzindo a testa: "Nossa! Agora o Manuel tá podendo escolher? Tá assim agora? Tá muito estranho..."
Balancei a cabeça, concordando: "Tá sim. Pra falar a verdade, a gente mal tem se falado. Ontem conversamos por videochamada, por ser uma data especial, porque até então, era só mensagem."
Dinei, curioso, perguntou: "E o Réveillon? Você vai pra lá? Eles vêm pra cá?"
Respondi, tentando manter o tom leve: "Não. Cada um vai passar na sua casa." Mudei rapidamente de assunto: "Aliás, vocês estão convidados a passar o Réveillon comigo, tá? A gente vai alugar um sítio, com piscina, sauna... tudo direitinho. Meu irmão pediu pra convidar vocês. Vai ser uma festa muito bonita e animada, e eu quero as pessoas que gosto por perto. Já que meus boys não vão vir, mais do que nunca vocês têm que estar lá."
Gil brincou: "Ah, tá convidando porque eles não vão vir, né?"
Ri e retruquei: "Ah, para com isso, Gil. Meu irmão pediu pra convidar vocês de qualquer jeito. E eu quero vocês lá."
Dinei, sem hesitar, respondeu: "Amigo, eu vou." Olhou para Breno e completou: "Nós vamos. Natal já passamos com a família, né? Agora é hora de curtir."
Olhei para Jefferson e disse: "E você, Jefferson, vai fechar esse bar e ir também, tá? Não aceito não como resposta."
Ele riu e respondeu: "Tranquilo, eu vou sim. Mas, tem que levar alguma coisa?"
Expliquei: "Minha família vai entrar com a comida e o local, mas você tem que levar as bebidas, combinado?"
Ele assentiu e confirmou: "Fechado, pode deixar."
Foi então que Gil, mudando o tom, comentou: "Falando em Manuel... Depois daquele dia que você e Pedro vieram pra cá, o Pedro veio sozinho outro dia."
Jefferson tentou interromper: "Gil, cuidado com o que você vai falar..."
Mas Gil continuou: "Ah, eu vou falar mesmo. Renato é meu amigo, e eu tenho consideração por ele. Achei muito estranho, Renato. O Pedro parece estar discutindo com o Manuel. Não sei o que rolou, mas foi uma discussão feia."
Fiquei em silêncio, processando o que Gil acabara de dizer, enquanto o clima na mesa parecia ter mudado levemente.
Jefferson tentou explicar:
"Então, eu não ia falar nada, mas como o Gil já começou, Pedro estava discutindo feio, sim. Eu nem sabia que era com o filho, mas o Gil escutou o nome dele e veio me contar."
Olhei para Gil, curioso, e perguntei: "Mas você não lembra do que eles estavam falando?”
Gil retrucou em tom de justificativa:
"Ah, mas naquele dia o bar estava cheio, não estava fácil ouvir nada. Eu até tentei obter informação, Renato, mas, amigo, não deu. O bar estava cheio, e esse povo hétero, bêbado, fica falando alto, misturando tudo, não dá pra entender nada. E outro ponto: eu nem podia ficar muito próximo do Pedro porque ele ia sacar, né? Afinal, eu sou seu amigo."
Jefferson concordou com sabedoria: "Justamente. Então, deixamos ele lá na mesa discutindo e seguimos fazendo nosso trabalho."
"Embora eu estivesse curioso para entender o motivo da discussão entre Pedro e Manuel, não conseguia sequer pensar sobre isso. Parecia tão fora de lugar que não fazia sentido tentar entender. Eu olhei para meus amigos, sem saber o que dizer, e acabei soltando: 'Gente, agora eu quero saber o que está acontecendo.' Mas antes que qualquer um pudesse responder, Jefferson deixou claro: 'Você não veio aqui para ficar pensando em fulano ou ciclano. Veio para comemorar e esquecer os problemas.'"
Ele abasteceu o meu copo e a gente foi bebendo uma cerveja atrás da outra. O tempo foi passando e eu fiquei levemente alterado, e o Dinei também já estava rindo, sem motivo algum. Foi então que Gil teve a ideia de tomarmos banho de mangueira.
A princípio, achei uma péssima ideia, mas depois que Jefferson insistiu, dizendo que estávamos em casa e que era para a gente curtir, tudo mudou. Eu, Dinei e Breno acabamos cedendo.
Dinei nem pensou duas vezes: tirou a roupa, ficando só de cueca, e foi direto tomar banho com o Gil, que já estava lá. Breno, inicialmente, relutou um pouco, devido à timidez, mas, ao ver o namorado lá, acabou se juntando a ele.
Enquanto eu tirava a bermuda, percebi que Jefferson não tirava os olhos da gente. Ele parecia observar cada movimento, quase sem disfarçar. Quando notou que eu estava percebendo, desviou o olhar, balançou a cabeça e comentou:
— É, rapaz... a vista está interessante..
Eu igno
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