Pagando a aposta pro meu primo. Parte 62

Por: alessandra-duarte-856 24/07/2026 2 leituras
Capa do conto

Dar um tempo. Para alguns, é apenas uma pausa necessária, um respiro para organizar pensamentos e sentimentos. Para outros, é o começo do fim — um lento desligamento que, mesmo sem ser definitivo de imediato, deixa marcas irreversíveis.

E então vem o recomeço. Não porque se quer, mas porque é preciso. Retornar ao ponto de partida nunca significa voltar ao que era antes. A cidade pode ser a mesma, as ruas podem ter os mesmos nomes, mas quem retorna já não é mais quem partiu.

Meu retorno para Volta Redonda demorou uma eternidade. Os minutos pareciam horas. Com o olhar fixo na janela do avião, tentei me concentrar naquelas nuvens brancas lá fora, mas Anderson insistia em invadir meus pensamentos.

Eu não conseguia aceitar como, de repente, tudo o que vivemos se tornou algo descartável. Entendo que ele esteja magoado, que tenha o orgulho ferido. Afinal, ele se sentiu enganado. Acredito que, no meu caso, omitir não é o mesmo que trair.

Até porque eu e Anderson nos envolvíamos, sim, mas, naquela época, não era algo tão sério. Era isso que eu tentava compreender: por que ele estava tão ferido se não tínhamos algo definido? E ele pede tempo e termina?

Isso me decepcionou profundamente. Para mim, "pedir tempo" é só uma desculpa esfarrapada — uma maneira conveniente de ficar sozinho, depois com outra pessoa e, no fim, querer voltar como se nada tivesse acontecido, sem estar com a consciência pesada.

Eu sei que não vai ser fácil. Sei que será um processo difícil porque eu vou sentir falta. Vou sentir falta de falar com ele todos os dias, das mensagens trocadas, de vê-lo na videochamada. Até da sensação de saber que o tinha, mesmo que distante. Eu sentirei falta, mas esse processo de abstinência será importante. É não tendo ele no dia a dia que vou começar a desapegar.

Agora, pela primeira vez, eu não tinha nenhum dos dois. Estava aqui, sozinho. Porque, até então, quando um terminava, eu tinha o outro. Agora, era diferente. Mas era preciso seguir e quando eu disse para o Anderson que não o esperaria, acredito que ele sentiu, que doeu nele. Mas tenho ainda mais certeza de que doeu mais em mim.

Enquanto aguardava na rodoviária do Rio para pegar o ônibus de volta a Volta Redonda, decidi que, pelo menos por enquanto, não contaria a ninguém sobre o término. Resolvi ser ainda mais radical: ficaria em casa, quieto, sem avisar a ninguém da minha chegada. Nem meus pais, nem meus amigos.

Eu simplesmente não queria dar explicações. Já bastava o desgaste emocional — ter que dar satisfação seria demais. Precisava de um tempo para mim, longe de perguntas incômodas.

Ao chegar em casa, tomei um banho demorado, como se a água pudesse lavar não só o cansaço da viagem, mas também a angústia que carregava. Olhei para a mala no canto do quarto e resolvi que, em outro momento, eu colocaria as roupas para lavar. Naquele instante, tudo o que eu queria era ficar deitado, em silêncio, sem receber nenhuma informação do mundo lá fora.

Acabei dormindo por horas sem contar. Quando acordei, já havia anoitecido. Vi que havia uma mensagem de Anderson, todo preocupado, querendo saber se eu tinha chegado bem, se estava tudo certo comigo. Ele pedia notícias. Primeiro, pensei em não responder. Mas, logo depois, lá estava eu, digitando uma resposta.

"Anderson, não vou dizer que estou bem, porque não estou. E respondendo sua pergunta, eu cheguei na medida do possível. Mas estou seguindo o baile. Você teve seus motivos para terminar, e eu respeito isso. "

Depois de responder, me arrumei. Precisava ir ao mercado comprar algumas coisas. Afinal a bicha tinha que seguir em frente, plena. Comprei o básico: itens de higiene pessoal, carne e até um sanduíche feito pela casa, de pão brioche, eu ainda não estava animado o suficiente para enfrentar o fogão e a cozinha.

Finalizei a noite em frente à TV, vendo séries, e por vez ou outra, mexia no celular, vendo vídeos engraçados e posts de pessoas pelo qual eu sigo, como os meus amigos.

No dia seguinte, acordei por volta de dez horas, e comecei então a lavar as roupas da viagem e arrumar a casa. Eu não tinha muito o que fazer, mas preferi ocupar meu tempo. Até que recebo uma mensagem de Gil. Ele era uma das poucas pessoas que me conheciam de fato. Gil, me conhecendo, sabia que eu não ficava muito tempo sem postar nada, nem se fosse no status, e foi por isso que ele desconfiou que estava acontecendo alguma coisa. A mensagem dele dizia: “Oi Amigo! Como está aí em Joinville? Não estou vendo mais suas postagens,espero que esteja bem. Saudade. Bjos.”
Como resposta eu mandei um emoji de coração com a seguinte mensagem: Relaxa amigo. Eu estou bem. Em breve vamos nos ver. Bjos.

Apesar de ser meu segundo dia em Volta Redonda, eu já estava começando a ficar entediado, trancado. Estava louco pra eu sair, mas eu não queria ser encontrado, ser visto por algum conhecido. Então, a minha rotina ainda era internet e TV. Mais tarde, Pedro me ligou. Eu não esperava por aquilo, porém não atendi, pois sabia que naquela altura do campeonato, ele já estava sabendo do meu término com o Manuel. E apenas mandei uma mensagem, dizendo... “Boa tarde, Pedro. Se você estiver me ligando para falar sobre o Manuel, saiba que eu não estou a fim de falar deste assunto. Pelo menos, não por agora. Espero que você respeite esse meu momento. Se for algo em relação ao serviço, me mande uma mensagem que eu lhe respondo. ”. E Pedro não me mandou mais mensagem. Ou seja, ele queria realmente falar sobre o filho.

À noite, recebi mais uma mensagem de Anderson. Desta vez, ele demonstrava preocupação. Reforçava a ideia de que, apesar de termos terminado, eu não precisava passar por aquilo sozinho. Ele disse que éramos parceiros de vida. E isso, para mim, era algo que não se encaixava. Terminou comigo, e agora estava preocupado? Sendo que, lá em Joinville, ele não tentou entender o meu lado. Não quis ter uma conversa mais profunda sobre o assunto.

Eu sei que ele foi bombardeado por informações, que era muita coisa para a cabeça dele. Mas, mesmo assim, eu esperava um mínimo de consideração. Um pouco mais de esforço para tentar entender o meu lado da história, e todo o contexto dela.

Desta vez, resolvi não responder. Eu agora estava querendo o tempo que ele havia proposto. Ou seja, só estava fazendo aquilo que ele havia começado. E, nessa de não respondê-lo, me senti pra baixo. Um sentimento de insignificância tomou conta de mim. Já não havia mais forças para chorar — eu havia chorado a viagem inteira no dia anterior.

No outro dia, acordei com alguém batendo forte na porta e gritando meu nome em alto e bom som. Como assim? Para alguém estar batendo na porta, no mínimo, essa pessoa teria que passar pelo portão, que estava trancado. Foi quando me lembrei: era o Pedro. Afinal, ele tinha a chave reserva e também havia me ligado no dia anterior.

Me levantei às pressas, gritando:
— Calma! Já vou abrir!

Lavei o rosto rapidamente, penteei o cabelo e corri para a porta. Ao abrir, me deparei com Ricardo. Ele estava ali, todo preocupado, e mal me viu já perguntou:
— Você está bem?

Sem esperar resposta, veio me abraçando.

Ainda abraçado comigo, meu irmão disse:
— Eu já sei de tudo. Anderson me contou.

Havia uma vontade enorme de chorar, mas não havia mais lágrimas para tal. Convidei-o a entrar, perguntando como ele havia conseguido passar pelo portão trancado. Ele riu e respondeu:
— Cara, uma vez eu pulei o portão achando que Anderson estava abusando de você. Acha que não pularia de novo sabendo que você está numa vibe ruim?

Agradeci, e ele foi me contando que Anderson havia ligado para ele na noite anterior, preocupado. Disse que me mandou mensagens, mas eu não estava respondendo. Ricardo, sem entender nada, pois achava que eu ainda estava com Anderson, perguntou:
— Mas ele não está com você?

Foi então que Anderson percebeu que eu não tinha contado a ninguém sobre minha volta. E assim, revelou toda a verdade para o meu irmão: falou da traição de Manuel, do nosso término e de tudo o que havia acontecido.

— Pois é, Ricardo! Acabou! E o pior é que a traição de Manuel respingou em mim. Ele se voltou contra mim, falando coisas que aconteceram no passado e que, de certa forma, fizeram com que Anderson não só terminasse o relacionamento com ele, mas comigo também.

Ricardo seguia atento, sério, sentado à mesa. Ele me olhou nos olhos e perguntou:
— Por que você não procurou a mim ou nossos pais?

Respondi, com um suspiro:
— Queria ficar sozinho. Esse lance de ficar se explicando é pra quem tem culpa no cartório.

Ele balançou a cabeça, como se não concordasse, e disse:
— Você sabe que se isolar não vai adiantar nada. Sabe que sempre é bem-vindo e que lá em casa você tem apoio.

— Sim, eu sei, Ricardo. Mas eu não quero deixá-los preocupados, nem atrapalhar. Eu tenho que lidar com isso sozinho.

Ele olhou firme para mim e respondeu:
— É por isso que eu estou aqui. Vim só pra te buscar, você vai pra casa. Nossos pais, mais cedo ou mais tarde, vão ficar sabendo. Eu vou conversar com eles para que esse assunto seja abordado só quando você se sentir à vontade para falar sobre. Mas aqui, sozinho, você não vai ficar. Nem que eu te pegue no colo e te leve à força.

Hesitei um pouco, mas ele foi insistindo. E brinquei com meu irmão dizendo que só ia porque eu estava sendo coagido.

Enquanto Ricardo foi me esperar no carro, peguei algumas peças de roupa, meu carregador de celular e um tênis, colocando tudo na mesma bolsa de viagem que já estava meio desgastada pelas idas e vindas. Quando finalmente entrei no carro, meu irmão me olhou e perguntou:
— Podemos ir? Tem certeza que não esqueceu nada?

— Podemos — respondi, fechando a porta com um suspiro. — É só isso mesmo.

Durante o trajeto, o silêncio entre nós era pesado, mas não desconfortável. Até que, em um momento, eu decidi quebrá-lo.
— Ricardo, preciso te pedir um favor.

Ele olhou para mim rapidamente, mantendo os olhos na estrada.
— Fala.

— Já que Anderson está mantendo contato com você, peço que fale pra ele evitar me mandar mensagens ou me procurar. Pelo menos por enquanto. Tudo ainda é muito recente, e ainda me machuca pensar que acabou.

Ricardo assentiu, entendendo.
— E quanto ao Manuel? — ele perguntou, com um tom mais sério.

— Ele não vai me procurar. Mas, se procurar, fala pra ele que quero distância.

Meu irmão não fez mais perguntas. Apenas concordou com a cabeça, respeitando meu espaço. E, naquele momento, eu soube que, apesar de tudo, pelo menos eu tinha alguém do meu lado.

Quando chegamos, meus pais estavam na sala. Minha mãe, ao me ver, abriu um sorriso enorme, mas logo perguntou, com aquela voz doce e preocupada:
— Filho, não era pra você estar em Joinville?

Antes que eu pudesse responder, Ricardo interveio. Ele se adiantou e, com uma calma que até me surpreendeu ele, contou a verdade para todos, falando sobre o término. Ele foi direto, mas cuidadoso, e finalizou dizendo:
— No momento, a única coisa que ele precisa é de apoio, de acolhimento. Não de ser interrogado.

Meu pai ficou em silêncio, apenas assentindo com a cabeça, enquanto minha mãe me olhava com aquela expressão de quem queria abraçar o mundo para proteger o filho. Ela se aproximou, me envolveu em um abraço apertado e sussurrou:
— Tudo vai ficar bem, meu filho. Nós estamos aqui.

E, pela primeira vez desde que tudo havia acontecido, eu senti um pouco de alívio.

Depois de receber abraços de todos ali, peguei minha mala e fui para o meu antigo quarto. Apesar de estar um pouco diferente do que era antes, eu ainda gostava de estar ali. Era um lugar familiar, seguro. Claro, algumas coisas me lembravam do Anderson e de Manuel — Era impossível fugir de tudo. As memórias estavam em cada canto, em cada detalhe. Mas eu entendi uma coisa: se eu fosse evitar todos os lugares e coisas que me lembravam deles, teria que parar de frequentar a casa dos meus pais e até mesmo mudar da casa onde eu morava. Afinal, principalmente lá, eu tinha vivido momentos intensos com eles.

Naquele dia, minha mãe decidiu fazer uma lasanha. Um jantar, sem estender a noite toda, mas foi suficiente para nos distrair, interagir e, é claro, encher o bucho. Depois do jantar, ninguém subiu para os quartos. Ficamos todos na sala, em frente à TV, assistindo ao desfile da escola de samba. A gente sempre gostou disso — talvez por ser parte da nossa cultura, ou só pelo clima de festa que trazia. Por incrível que pareça, naquele primeiro dia na casa dos meus pais, todo mundo respeitou o fato de eu não querer falar sobre o assunto. Nem durante a janta, nem depois, ninguém mencionou nada a respeito.

Quando comecei a sentir sono, pedi licença e disse que ia dormir. Meu irmão me deu boa noite, mas, antes que eu pudesse subir, ele perguntou:
— Maninho, qual é o plano de amanhã?
— Ficar em casa — respondi, sem pensar muito.
— O que é isso? Você não pode ficar trancado aqui também.

Foi aí que me lembrei dos meus amigos. Tive uma ideia e falei para o Ricardo:
— Que tal trazer a minha galera para cá? Faz tempo que a gente não reúne a família com eles. Não precisa ser uma grande social, pode ser um churrasco. Tranquilo, sem bagunça.

Ricardo deu de ombros, mas concordou:
— Cara, você que sabe. Você falou, está falado. Eu topo.

— Faz o seguinte, vou mandar mensagem pra eles e combinar alguma coisa.

Desejei boa noite a todos novamente e subi para o quarto. Logo que entrei, peguei o celular e mandei uma mensagem no grupo do WhatsApp dos meus amigos:

"Olá, cambada! Então, estou em Volta Redonda, na casa dos meus pais. Conversando com o Ricardo, pensei na possibilidade de convidar vocês pra vir aqui fazer uma social. Nada muito grande, nada de muita bagunça. É só pra bater um papo e colocar o assunto em dia. O que vocês acham?"

Não esperei as respostas. Já estava com sono e acabei dormindo antes que alguém respondesse.

Quando acordei no dia seguinte, peguei o celular e vi que havia mensagens dos meus amigos. Todos estavam animados com a ideia do churrasco. Já estavam perguntando o que precisavam levar e que horas seria. Mandei uma resposta meio debochada:
"Gente, acredita que nem eu sei que horas vai ser? Mas pode ficar tranquilo, vou ver com meus pais aqui e depois passo a informação pra vocês."

Logo depois, Letícia bateu na porta e entrou.
— Pensei que você ainda estivesse dormindo.
— Não, acabei de acordar — respondi. — O que te traz aqui?

Ela sorriu e respondeu:
— Sua mãe está começando a preparar o almoço. Pensei em te chamar para ajudar e, de quebra, ficarmos batendo papo na cozinha como nos velhos tempos.

— Tudo bem. Só vou tomar um banho e daqui a pouco eu desço.

Ela deu três passos em direção à porta, mas voltou.
— Renato, eu sei que você não está bem. Mas você sabe que aqui sempre teve uma amiga. Quando puder conversar e se sentir confortável, não pense duas vezes em me procurar.

Letícia era muito amada por mim, muito querida. Eu via sinceridade nela. Então, respondi:
— Letícia, não está sendo fácil, de verdade. Mas eu preciso seguir em frente. Pensar no Anderson ainda me traz uma angústia, uma tristeza. Por tudo que aconteceu. Mas esse será um assunto pra outro dia, está bem?

— Claro — disse ela, com um sorriso suave. — Vou te esperar lá embaixo.

Descer para ajudar Letícia e minha mãe foi um dos pontos altos do dia. Enquanto eu picava legumes, minha mãe falava da vida dela quando era mais jovem. Era engraçado ouvir minha mãe contando histórias da sua juventude. Eram outros tempos.

Quando chegou a hora do almoço, enquanto todo mundo estava comendo, eu perguntei:
— Pai, que horas vai ser o churrasco? Meus amigos querem saber.

Ele respondeu:
— Ah, fala pra eles virem por volta das sete horas da noite. Geralmente é quando a gente faz alguma coisa aqui, né, Renato?

Mas ele acrescentou:
— Fala pra eles trazerem as bebidas e meio quilo de carne cada um.

— Tranquilo — afirmei.

Aproveitando o momento, Ricardo falou:
— Então, o que vocês acham de eu chamar o pessoal do meu trabalho para participar do churrasco?

Meu pai não achou uma boa ideia.
— Ricardo, queremos uma coisa simoles e pequena. Sem muita bagunça. Então, deixa pra próxima. Tudo bem?

Ricardo nem insistiu.

Quando ele foi ao mercado comprar as coisas, me convidou para ir junto. Notei que Ricardo tinha essa preocupação de me fazer interagir com o mundo, de sair de casa, o que achei fofo da parte dele. Depois de pegar todas as coisas, ao passar no caixa, ele pegou o cartão para pagar. Mas eu não deixei.
— Deixa que eu pago.

— O que é isso, Renato? A gente pode dividir.

— Não. Eu já estou na casa de vocês, já estão tendo gastos comigo. Não é justo vocês pagarem. Meus amigos também vão vir. Deixa que eu pago.

Peguei meu cartão e insisti. Ricardo acabou cedendo.

No caminho de volta, ele comentou:
— Um dia desses, te levo pra conhecer a minha casa. Você vai ver como ela é maneira, Renato. Está faltando algumas coisas, mas até o casamento vai estar tudo pronto. Se Deus quiser.

Quando chegamos em casa, vi o carro do meu tio estacionado na frente do portão. No entanto, algo já me dizia que a tranquilidade do dia seria interrompida com a visita deles.

Minha tia, assim que me viu, veio direto até mim com uma expressão preocupada.

— O que aconteceu com você e Anderson? — ela perguntou, sem rodeios.

— Como assim?— Perguntei, tentando manter a calma.

O que aconteceu entre você e Anderson? — Ela insistiu na pergunta — Ele disse que acabou tudo?

— Sim, tia — confirmei, sentindo um nó na garganta. — Acabou tudo. Não há mais relacionamento entre eu, seu filho e Manuel.

— Meu Deus, porque você fez isso? Agora ele está lá agora, sozinho naquela cidade — ela disse, com os olhos cheios de preocupação.

Minha mãe tentou interferir mas eu olhei para ela, ainda com os olhos marejados, e respondi com um suspiro:
— Pode deixar mãe.

E olhando para minha tia eu disse:

— Tia, foi seu filho que terminou comigo. Ele quis assim. Ele não te contou isso? Além do mais, seu filho não é mais criança, tia. Ele é um homem. Ele sabe se virar. A propósito, ele deve ter te contado que agora tá morando sozinho. Passou na experiência, se livrou de Manuel.

Houve um silêncio pesado. Minha tia parecia estar lutando para entender tudo.

— Entendo sua preocupação com seu filho. E comigo, você não se preocupa? Afinal, eu sou seu sobrinho também. Eu amo seu filho. Muito. Mas eu não vou insistir mais. É sobre isso.

Ela sentou no sofá enquanto meu tio acariciava as costa dela.

— Agora ele está lá, liga só quando quer…

— Tia, você sabe mais do que ninguém que eu tentei fazer com que Anderson se aproximasse de vocês. Tanto que, assim que cheguei em Joinville, reforcei a ideia dele te ligar. Ele falou que ligaria. Ele te ligou?

— Sim, ontem.

— Ah, então é por causa disso que você está aqui.

Minha tia ainda tentou mais uma vez.
— Renato, me faz um favor. Liga pra Anderson. Tenta garantir que ele vai me ligar, pra eu ficar menos preocupada.

Eu respirei fundo, sentindo o peso daquela situação.
— Tia, eu não vou ligar para o Anderson. Não vou fazer isso, porque decidi não me humilhar mais. Não vou implorar mais por atenção. Peça para outra pessoa fazer isso, como o Ricardo. Mas não eu.

Ela não desistiu. Com um tom mais firme, quase indignado, argumentou:
— Mas ele é seu primo, acima de tudo. Vocês deixaram de ser namorados, mas ele é seu primo. E você vai deixar de se importar assim, do nada? Você não ama tanto ele, como disse agora há pouco?

Respirei fundo novamente, segurei as lagrimas.
— Eu o amo, e não retiro o que eu disse. Todo mundo aqui nessa sala sabe o quanto eu lutei por esse amor. Lutei até contra minha própria família, contra vocês, nadei contra a maré. Mas talvez todo esse esforço não tenha sido suficiente.

Minha voz falhou, e as lágrimas começaram a escorrer.

— Agora, me dá licença, eu não quero falar mais sobre isso. Tanto que eu vim pra casa dos meus pais justamente para distrair minha mente, para não pensar em seu filho, para não pensar em Manuel, para não pensar em ninguém.

Letícia, percebendo que eu estava à beira de um colapso, veio até mim e me abraçou. Sem dizer uma palavra, ela me levou para a cozinha, onde eu pude chorar longe dos olhares da minha tia e do resto da família.

Letícia me ofereceu um copo d’água.
— Beba, isso vai te acalmar.

Depois de dar uns três goles, olhei pra ela e perguntei, com a voz ainda trêmula:
— Me ajuda a entender. Por que Anderson foi falar para os meus tios sobre o nosso término? O que isso mudaria? Me fala, do que adiantaria? Olha o estado da minha tia lá na sala. Meu Deus!

Letícia pensou um pouco antes de responder.
— Talvez ele quisesse garantir que eles soubessem do término através dele, e não por outros. Você está me entendendo? Renato, bem ou mal, daqui a pouco todo mundo vai saber. Você sabe que essas notícias correm rápido.

Olhando por essa ótica, até que fazia sentido. Mas isso não justificava minha tia vir aqui ou falar o que falou.

Fiquei na cozinha até eles irem embora. Foi minha mãe que apareceu, vindo até mim e dizendo:
— Eles já foram, filho.

Demonstrei toda a minha indignação:

— Só que achei uma palhaçada ela ter vindo aqui. Uma palhaçada, porque ela sabe o quanto eu lutei para que Anderson se aproximasse dela. Tanto que o resultado está aí: ele ligou para ela ontem. E isso ela deve a mim.

Minha mãe tentou acalmar a situação.
— Renato, a sua tia está nervosa. Eu também ficaria preocupada se fosse você. Deixa isso pra lá.

— Eu vou deixar mesmo — respondi, tentando me recompor. — Porque daqui a pouco tem um churrasco. Meus amigos vão estar aqui, e isso não vai acabar e muito menos não vai estragar o meu dia.

Letícia, ao meu lado, deu um tapinha nas minhas costas e disse:
— É isso aí, Renato. Bola pra frente.

Aproveitei o momento e mandei uma mensagem para meus amigos, dizendo que eu os esperava às sete da noite era só trazer bebidas. Nada mais que isso, além da animação.

E todos eles vieram. Breno, Dinei, Gil, Jefferson. Todos estavam ali, animados. Jefferson, graças a Deus, tinha criado uma boa aproximação com meus pais, e eu e os outros amigos ficamos ali, juntos, rindo e brincando.

Não demorou muito para eu revelar a verdade a eles.
— Olha, Gil, reparou uma coisa esses dias? A respeito de eu não postar nada nas redes sociais? Pois bem, gente. Vou falar uma vez só, pra deixar vocês a par, mas não quero estender o assunto.

Eles se olharam entre si, curiosos. E eu continuei:
— Eu, Anderson, Manuel... Acabou. Acabou tudo, gente.

Segurei o choro, tentando manter a compostura.
— Não há mais nada.

Dinei, com um olhar de surpresa, perguntou:
— Mas, gente, por quê?

Porém, Gil se intrometeu na conversa, cortando Dinei.
— Você não entendeu que ele não quer falar sobre isso? Renato, eu sinto muito. Não sei o que aconteceu, mas saiba que estou aqui.

Ele então olhou para Breno e Dinei, com um tom firme:
— O nome de Anderson e Manuel está proibido nessa noite. Vocês estão me entendendo? E outra, vamos dançar. pop, axé, samba, até balé. Mas vamos esquecer esses boys. Pelo menos, essa noite.

Dei um sorriso como forma de agradecimento. E assim, a nossa noite começou. Todos, inclusive eu e meus amigos, estávamos bebendo cerveja. Era bom estar ali entre eles. Eles eram animados, principalmente Gil. E, sob o comando dele, começamos a dançar. Aquelas músicas clássicas, que todo mundo conhece, encheram o ar. Foi muito divertido. Era muito divertido estar entre eles.

Letícia também entrou na dança, animada, e por um momento, eu esqueci de tudo ao meu redor. Era bom viver aquilo. Depois de dançar muito, voltamos para a mesa e começamos a falar sobre nosso dia a dia.

— Dinei, fiquei chocado com o seu blog — comentei, tentando mudar o assunto para algo mais leve. — Chocado num ponto positivo, porque eu jamais pensei que você faria aquilo.

Ele deu uma risada e respondeu:
— Já tem mais conteúdo, viu?

Letícia, que estava ao meu lado, ficou estarrecida ao ouvir a história. Mas eu a tranquilizei:
— Não liga não, boba. Eu também fiquei desse jeito.

Gil, no entanto, tocou num assunto um pouco mais triste.
— Minha avó está muito ruim — disse ele, com um tom mais sério. — Piorou, está internada na UTI. Os médicos até desenganaram. Não deram mais esperança.

Ficamos em silêncio por um momento, mas ele continuou:
— Apesar de tudo, tirando isso, está tudo bem. Eu e Jefferson vamos passar a folga em um chalé em Penedo.

— Acho chique — comentei, tentando aliviar o clima.

Chamei Gil para ir ao banheiro. Uma desculpa que inventei para arrastá-lo até o meu quarto. Assim que fechamos a porta, eu disse:
— Amigo, eu preciso contar o que aconteceu pra você.

Gil, sempre compreensivo, respondeu:
— Se você não estiver pronto... Tudo bem, Renato. Não precisa ser agora.

— Mas eu quero. Sua opinião é importante pra mim.

Então, contei toda a verdade. Desde a desconfiança de Anderson até o nosso término de fato. Gil ouviu atentamente, e quando terminei, ele pareceu indignado.
— Gente... Manuel conseguiu uma proeza. Ele conseguiu fazer com que eu ficasse com mais ranço dele do que de Anderson.

Ele continuou, com um tom mais sério:
— Amigo, eu sei que você ama de verdade seu primo. Mas ao meu ver, sua transa com o Pedro não foi legal. Tudo bem, ele é gostoso, ele é lindo. Porém... o que deve ser colocado em pauta é que ele é pai de Manuel. E eu nem estou entrando no mérito de traição.

Tentei me justificar:
— Mas não foi traição, foi em outra época. Em que Anderson ficava com meninas, Manuel também. Eu namorava o Cristiano. Tanta coisa, sabe?

Gil não deixou barato:
— Só que há duas coisas aí. Uma, de seu primo ter usado isso como desculpa, como pretexto para terminar. Algo do passado. Eu sei que ele pode ter se sentido traído, inseguro. O que é irônico pois você traia Cristiano com ele. E outra, não menos importante: será que ele não queria já terminar e usou isso como desculpa?

Ele fez uma pausa, como se medisse as palavras, e completou:
— Não tô querendo botar lenha na fogueira, Renato, mas é uma possibilidade.

— Ele chorou com a traição de Manuel. Ele tinha tudo, prints, áudios, tudo confirmado. Só esperava que César confirmasse com palavras. Ele queria terminar com Manuel, isso já estava nos planos dele, tanto que ele havia até alugado uma kitnet. A gente estava feliz, vivendo de verdade o carnaval. Mas o estopim para que tudo acontecesse foi quando Manuel dançou com o Lucas, o cara com que ele ficou, e piorou de vez depois que Manuel chegou merda no ventilador.

Gil então perguntou, com um tom mais suave:
— E o que você pretende fazer agora?

— Tocar minha vida. Continuar trabalhando. Fazer uma faculdade. Tanta coisa...

Ele aproveitou para mudar de assunto:
— Falando de trabalho... E o Pedro? Ele disse alguma coisa sobre o término?

— Nem te conto — respondi, meio de brincadeira, meio sério. — Ele me ligou, mas eu não atendi. Porém, mandei mensagem falando que, se ele quisesse falar sobre trabalho, eu estava disponível. Mas, se fosse pra falar do filho dele, eu não estava afim.

Gil balançou a cabeça, preocupado.
— E ele não falou mais nada? Claro! Estamos falando de Manuel, filho dele. Você acha que ele ficaria do lado de quem? Lógico que é do filho.

Ele fez uma pausa e finalizou, com um tom de alerta:
— Então, tome cuidado, Renato.

Antes de sairmos do quarto, Gil fez mais uma pergunta:
— Já conversou com eles? Com Manuel? Com Anderson? Qual é a real situação de vocês dois?

Respondi com sinceridade:
— Eu estou com ódio de Manuel. Eu bloqueei ele em todas as redes sociais. Não quero me dirigir a ele, e, se puder, muito menos encontrá-lo. Sim, fiquei chateado por conta da traição, mas o que me fez ficar com ódio, com raiva mesmo, foi ele jogar na roda que eu fiquei com o pai dele. Foi um golpe baixo.

Fiz uma pausa, respirando fundo antes de continuar:
— Agora, Anderson... pelo menos por enquanto, eu prefiro manter a distância. Eu amo ele. Mas... tô seguindo o conselho que você me deu, Gil. Não vou implorar. Não vou pedir migalhas. Eu não mereço isso.

Gil olhou para mim, pensativo, e perguntou:
— Então você ainda vê uma chance de vocês terem um diálogo?

Usei toda a sinceridade que tinha para responder:
— Eu não sei. Anderson, mesmo longe, se mostra preocupado. Até mandou mensagem pro meu irmão perguntando, querendo saber sobre mim. O que posso dizer é que eu não vou esperar por ele. Hoje não quero falar com ele, mas amanhã já não sei.

Gil olhou para o celular e mostrou a tela para mim.
— Dinei está ligando — disse ele.

Gil deu uma risada e olhou para mim atendeu rapidamente:

— Já estamos indo, Dinei. Só falta o Renato arrumar o cabelo, mas já tá quase pronto.

Gil saiu primeiro, enquanto eu fiquei ali no quarto por mais alguns instantes. Foi quando vi que Anderson havia me mandado outra mensagem:
"Renato, dê notícias. Quero saber se você está bem. Fale comigo."

Guardei o celular no bolso, sem responder, e fui para a varanda, onde os outros se encontravam.

Ao me ver de novo, Dinei falou:
— Nossa, eu pensei que você nunca chegaria!

Eu ri e respondi:
— Amigo, também não exagera, né? Nem demorei.

Então, Jefferson me chamou para ficar perto dele.
— Renato, estava falando com seu pai aqui de combinarmos para ele aparecer lá no meu bar. E aí, seu tio também falou comigo no ano novo. Bora combinar esse encontro qualquer dia desses?

— Sim, mano. É só falar — respondi, animado. — Mas e a minha mãe?

Meu pai interveio:
— Não, sua mãe vai ficar em casa. É encontro de homens.

Eu concordei, rindo:
— Até porque eu acho que ela não vai gostar muito.

Jefferson virou pra mim, com um ar de brincadeira:
— Por quê? Meu bar não é pra mulher, não?

— Eu não falei isso, Jefferson — respondi, tentando me explicar. — Eu sei que mulheres frequentam seu bar, mas não mulheres com o estilo da minha mãe. Entende?

Ele balançou a cabeça, rindo, e o assunto mudou. O tempo passou, e a gente ficou lá, interagindo de boa. Mas a maldita mensagem que Anderson havia me mandado não saía da minha cabeça. Eu pensava nela a todo momento. Claro que eu não resolvi compartilhar com ninguém ali, mas ele não saía da minha mente. Era como se aquela mensagem o fizesse presente, mesmo estando longe.

Breno, então, perguntou pra mim:
— Renato, e aí, quando você volta pra trabalhar?

— Por mim, já voltava amanhã mesmo — respondi, pensativo. — Ah, ficar em casa sem nada pra fazer é horrível. Já me acostumei com essa rotina de trabalho. Mas, vista a circunstância... Acho melhor voltar no dia combinado, que é daqui a dois dias.

Gil interveio, rindo:
— Bobo é você voltar agora. Você vai ficar curtindo suas folgas bonito em casa. Tá me ouvindo?

Para fechar a noite com chave de ouro, todos nós nos juntamos para registrar aquele momento. Fizemos uma foto cheia de sorrisos, abraços e aquele clima de confraternização que só amigos de verdade conseguem criar. Eu fiz questão de postar a foto nas redes sociais com a seguinte legenda:
Solteiro sim, mas cercado de amor, família e amizades que valem ouro!

Logo após a foto, meus amigos decidiram ir embora. Breno e Dinei, como sempre, aproveitaram e foram de carona com Jefferson. Enquanto ajudava a limpar um pouco a bagunça, fui até a cozinha para beber um copo de refrigerante, já que estava farto de cerveja. Foi nesse momento que recebi uma ligação de Anderson.

Olhei para a tela do celular, hesitando. A vontade de atender era enorme, mas decidi ignorar. Ele tentou mais duas vezes, sem sucesso, até que me mandou uma mensagem. A curiosidade bateu forte, mas consegui resistir à tentação de visualizar.

Voltei para a mesa, onde Ricardo estava olhando as redes sociais.
— Geral tá curtindo nossa foto — disse ele, rolando a tela do celular.

Peguei meu celular e fui ver as notificações. Havia várias curtidas e comentários. O Naldo tinha comentado um "Como assim?". O Thiagão e Max que fiz questão de segui-los, Daniel, estavam entre os que curtiram. Quando vi que César também havia curtido,mal vi o nome dele, bloqueei de imediato. Não tinha espaço pra gente falsa na minha vida, muito menos nas minhas redes sociais.

Ricardo continuou, mostrando os comentários dos meus amigos e de todos os que estavam marcados na foto. Inclusive Anderson.

— Talvez seja por isso que ele tá me ligando repetidas vezes — pensei comigo. Aquelas ligações não eram apenas uma simples coincidência.

Depois de deixar tudo organizado e dar boa noite para todos, subi para o meu quarto. Ao chegar lá, olhei para o celular. A curiosidade de ler a mensagem de Anderson ainda era grande, mas eu resisti. Preferi tomar um banho primeiro, como se a água pudesse lavar não só o cansaço do dia, mas também a confusão de sentimentos que estava sentindo.

Quando voltei do banho, vi que o celular estava tocando sobre a cama. Corri para atender, e do outro lado da linha estava Anderson.

— Alô? Renato? — a voz dele soou baixa, quase hesitante.

Eu permaneci em silêncio, segurando o celular com firmeza.

Ele continuou, com um tom mais urgente:
— Renato, você está me ouvindo? Fale comigo, por favor.

Vendo que eu não falava, ele desabafou:
— Você não sai da minha cabeça desde que entrou naquele avião. Eu estou preocupado com você. Quero saber notícias suas, não por terceiros, mas por você. Porra, bicho! Ver aquela postagem sua com aquela legenda acabou comigo. Foi um soco no estômago.

Ele fez uma pausa, e a voz dele ficou mais suave, quase um sussurro:
— Eu ainda te amo, Renato. E não tenho raiva de você. Por favor, fale algo.

Foi aí que resolvi falar. Minha voz saiu firme, mas carregada de emoção:
— Sua mãe esteve aqui hoje. Veio questionar o porquê eu terminei com você. Estava toda preocupada porque eu não tinha o direito de deixar o filho dela sozinho em uma cidade. Agora ela sabe que foi você quem terminou, Anderson. Se eu fosse você, eu me aproximaria dela, porque atualmente é a única pessoa que parece querer você por perto.

Fiz uma pausa, respirando fundo antes de continuar:
— Ah, e eu pedi pro meu irmão te falar, mas, caso ele não tenha te dito, não me ligue mais. Dispenso suas preocupações, Anderson. Não quero falar com você. Não faça eu te bloquear assim como fiz com Manuel.

— Por favor, não me peça isso. Eu... — mas eu não deixei que continuasse.

Desliguei a chamada na cara dele.

Quando chegou o dia de voltar ao trabalho, eu estava ansioso, mas também inquieto. O que Pedro queria falar comigo? Que informações haviam chegado até ele? Essas perguntas martelavam na minha cabeça desde que acordei.

Levantei mais cedo do que o normal, a ansiedade não me deixou ficar na cama por muito tempo. Tomei banho rapidamente e, em vez de ir direto para o escritório, chamei um Uber e fui tomar café em uma padaria perto da contabilidade. Eu precisava de um tempo para respirar. Além disso, eu amava o pão de queijo dali.

Em outro momento, eu teria ligado para um dos meus boys para conversar e distrair a mente, mas a realidade agora era outra. Eu precisava encarar o que viesse.

Quando deu meu horário, entrei na contabilidade. Cumprimentei todo mundo, segui até minha sala e comecei meu dia como se nada estivesse acontecendo. As primeiras horas correram tranquilas, mas eu sabia que aquilo não duraria.

E então, Pedro entrou na sala.

— Oi, Renato. E aí, como foi a grande temporada de carnaval? — perguntou ele, com um tom casual, mas os olhos entregavam que havia mais por trás daquela pergunta.

Levantei os olhos para ele. Eu já sabia o que ele queria.

— Bom... não foi exatamente como eu esperava — respondi, medindo as palavras. — Mas também não posso dizer que foi ruim.

Pedro manteve o olhar fixo em mim e, dessa vez, sua voz saiu mais séria:

— Você sabe que a gente precisa conversar, né?

Assenti lentamente.

— Sim, eu sei.

Ele fez uma pausa antes de continuar:

— O que você acha? Um papo agora no meu escritório ou mais tarde no bar do Jefferson?

— No seu escritório — respondi sem hesitar.

Minha escolha foi óbvia. Evitar um ambiente público significava evitar que o assunto se prolongasse ou chegasse a ouvidos indesejados. Eu respeitava Pedro, tinha um sentimento de gratidão por ele, mas não fazia ideia do que estava por vir.

Assim que entramos em sua sala, nos sentamos frente a frente. Ele não perdeu tempo.

— Então, fala. Por que você terminou com meu filho?

O peso da pergunta caiu sobre mim como um bloco de concreto. Pedro repetiu, como se quisesse garantir que eu tinha escutado direito:

— Por que você terminou com o Manuel?

Respirei fundo, tentando não demonstrar nervosismo.

— Gente... ultimamente, só eu tenho terminado relacionamento, pelo visto — soltei, com um leve tom irônico.

Pedro não sorriu. Ele ignorou a ironia e continuei.

— Hum... Vamos fazer melhor. O que o Manuel falou para o senhor?

— Ele só disse que o relacionamento de vocês acabou — respondeu Pedro, avaliando minha reação.

Balancei a cabeça, indignado, mas disposto a falar.

— Eu sei que isso aqui não é uma reunião de negócios, e talvez eu nem devesse estar tendo essa conversa com você, mas... vamos lá. O lance é o seguinte: seu filho me traía. Desde que foi pra lá, ele já tinha outra pessoa. Aliás, não apenas uma. Ele não só estava comigo, não só estava com Anderson, mas também com um cara chamado Lucas.

Pedro ficou pensativo, os olhos vagando por um instante, assimilando tudo o que eu acabara de dizer.

— Como você descobriu isso?

A tensão no ar se adensava.

— Olha — comecei, mantendo um tom firme — eu sei que você não gosta do Anderson, mas nesse ponto eu vou defendê-lo. O único que foi mesquinho e descartável aqui foi o Manuel. Mas não vou entrar nesse mérito agora. O que quero deixar claro é que realmente acabou. Tudo. Meu relacionamento com ele, minha relação com Anderson... porque seu filho é um escroto.

Pedro franziu a testa, mas ficou em silêncio.

Aproveitei o momento para continuar:

— E sabe o que ele fez? Ele contou para o Anderson que eu e o senhor transamos. Jogou isso na cara dele, de propósito. Foi baixo, foi fútil. Eu não quero mais contato com ele. Bloqueei em todas as redes sociais. E espero que o senhor respeite isso.

Pedro me olhava, e, dessa vez, sua expressão não era de choque, mas de algo mais profundo. Como se estivesse encaixando as peças.

Ele soltou um suspiro antes de dizer:

— E qual é o seu plano B? Fala, qual é o seu plano a partir de agora?

Eu resmunguei, irritado.

— Lá vem você com esse plano B... Meu plano é simples: viver minha vida. Sem eles. Investir em mim.

Pedro ergueu as sobrancelhas, surpreso.

— Renato, nem eu esperava que esse fosse seu plano B. De verdade. Achei que você ficaria com seu primo Anderson. Que, uma hora ou outra, dispensaria meu filho.

Ele fez uma pausa, inclinando-se levemente para frente, como se estivesse prestes a revelar algo importante.

— Mas deixa eu te falar uma coisa... Eu conheço meu filho. E eu sei do que ele é capaz. Você não sabe as coisas que ele aprontou em Seropédica.

Antes que eu pudesse perguntar, ele continuou:

— Ele tá puto com você. Me ligou te xingando de tudo quanto é nome. Fez uma série de recomendações. Até pediu sua cabeça, pra eu te mandar embora.

Meu sangue gelou.

Pedro então me tranquilizou:

— Mas isso está fora de cogitação.

Ele se recostou na cadeira, cruzando os braços.

— Renato, embora a gente tenha uma relação de patrão e empregado... e também de amizade, você é muito bom no que faz. Você tem um futuro brilhante. Sem contar a minha gratidão por você calar a boca do Manuel naquele dia.

Por um momento, fiquei em silêncio, processando tudo.

Jamais imaginei que Manuel pediria ao próprio pai para me demitir. Minha raiva, que já era grande, cresceu ainda mais. Olhei para Pedro e, com a voz hesitante, perguntei:

— Pedro... se a minha permanência aqui pode, de alguma forma, afetar a empresa ou sua relação com seu filho, eu entendo se quiser me dispensar.

Pedro me analisou por um instante e respondeu, firme:

— Renato, eu não tenho motivo para te mandar embora. Pelo menos, não agora.

O peso de sua resposta me fez soltar um suspiro contido.

— Eu só não quero causar problemas... entende?

Pedro percebeu minha tensão. Seu tom suavizou.

— Renato, isso é tudo por hoje. Pode voltar pra sala. Pegue uma água, tome um café, se acalme antes de retomar o trabalho.

De volta à minha mesa, mergulhei nos documentos, tentando canalizar a raiva para algo produtivo. As horas passaram rápido, e, quando me dei conta, já era noite. O dia havia escapado entre papéis e planilhas, e eu mal percebi.

Sem pensar duas vezes, decidi ir para casa. Para a minha casa. Afinal, era mais perto do trabalho... e, naquele momento, eu precisava de distância de tudo isso.

Os dias se transformaram em semanas. O tempo, que antes parecia arrastar-se sob o peso da raiva e da frustração, começou a ganhar um novo ritmo. Foi nesse período que resolvi correr atrás de uma faculdade. Sabia que não havia feito o Enem, o que complicava as coisas, mas a ideia de desistir nem passou pela minha cabeça.

Certa tarde, Leticia me deu uma luz:
— Algumas universidades particulares oferecem provas próprias para quem não fez o Enem. Dependendo do seu desempenho, você pode ganhar uma bolsa de estudos.

Aquilo mudou tudo. Sem perder tempo, mergulhei em pesquisas. Encontrei a instituição que eu almejava e me inscrevi no vestibular. As semanas seguintes foram de estudo intenso. Eu sabia que o tempo era curto, mas cada minuto valia a pena.

No meio desse turbilhão, decidi pedir um conselho a Pedro. Afinal, ele era uma das pessoas que mais entendia da área e sabia o quanto eu desejava continuar nela. Certo dia, após uma reunião, me aproximei dele:
— Pedro, eu quero continuar na área contábil, mas estou em dúvida sobre qual caminho seguir. O que você me aconselha?

Ele olhou para mim com a seriedade de sempre, mas com um brilho de apoio nos olhos:
— Você tem duas opções: pode fazer um técnico em contabilidade ou um bacharelado em Ciências Contábeis. Pelo que vejo, como você já trabalha numa contabilidade e tem experiência prática, muita coisa do técnico você já sabe. Eu te aconselharia ir direto para o bacharelado. Vai te abrir mais portas no futuro.

Aquelas palavras ecoaram em mim. Pedro tinha razão. Eu já estava imerso no dia a dia da área, e o bacharelado seria um desafio maior, mas também uma oportunidade de crescimento.

No dia da prova do vestibular, o nervosismo bateu forte, mas eu me mantive firme. Quando o resultado finalmente saiu, semanas depois, veio a surpresa: minha nota foi alta o suficiente para garantir uma bolsa parcial. Não era 100%, mas era um alívio enorme. Pagar o valor integral seria quase impossível, e aquela conquista significava um passo enorme na direção certa.

Como já estávamos no mês de abril, foi decidido que eu começaria no próximo semestre. Isso, pra mim, foi ótimo. Além de ter mais tempo para me preparar, também estava chegando o casamento do meu irmão.

Nesse tempo, Anderson de fato parou de me procurar. Acredito que, finalmente, resolveu respeitar minha decisão de não manter contato. Mas, mesmo assim, as notícias sobre ele ainda chegavam até mim. Meu irmão, vez ou outra, comentava que Anderson tinha mandado mensagem, que estava bem. Minha tia também mencionava o filho quando nos encontrávamos. No entanto, tanto as informações que vinham dela quanto as do meu irmão eram superficiais, e eu sempre fazia questão de não esticar o assunto.

Nos encontros familiares, às vezes eu e Amanda acabávamos nos esbarrando. Nunca tentei forçar uma simpatia, nunca sorri, nunca lhe dirigi a palavra – mesmo que estivéssemos na casa de meus tios. Aquilo era definitivo. Para mim, Amanda era o capeta em pessoa. E pensar que, antes de eu me envolver com Anderson, ela era minha melhor amiga... Mas isso ficou no passado.

Nem meus pais nem meus tios tentavam incentivar uma aproximação entre nós. Sabiam que qualquer tentativa seria em vão. Amanda tinha mexido em uma ferida que não deveria ser tocada. E, quando falavam dela, eu simplesmente mudava de assunto.

O que eu sabia sobre sua vida era pouco. Trabalhava em uma loja de maquiagem e cosméticos e estava namorando um cara da igreja. Cheguei a vê-lo em um desses encontros. Ele, sim, eu cumprimentei. Não tinha motivos para não ser educado com ele.

Assim como fiz com Amanda, cortei definitivamente todo e qualquer vínculo com Manuel. Eu esperava não ver o Manuel tão cedo. Depois de tudo que aconteceu, a última coisa que eu queria era cruzar com ele, ouvir sua voz ou sequer sentir sua presença. Eu queria distância, e imaginava que o sentimento era mútuo.

Mas, meus planos não deram tão certo. E inevitavelmente, o passado voltou a me assombrar.

Numa quinta-feira, véspera da Sexta-feira Santa, assim que cheguei à empresa, fui abordado por Luana.

— Renato... preciso te contar uma coisa.

Fiquei em alerta.

— O que foi?

Ela hesitou por um segundo e então soltou:

— O Manuel está aqui.

Travei.

— O quê?

— Isso mesmo — ela confirmou. — Ele chegou faz pouco tempo. Está na sala do pai agora.

Fiquei sem reação. Não esperava vê-lo tão cedo. Eu não esperava por aquilo. Um choque me atravessou por completo, porque, bem ou mal, eu sabia que ele iria me procurar. Ele não perderia a chance de me provocar. Eu conhecia Manuel.

Durante as primeiras horas da manhã, nenhum sinal dele. Nenhum movimento suspeito. Nenhuma tentativa de contato.

Eu tentava me concentrar no trabalho, mas, a cada som de passos no corredor, meu corpo reagia automaticamente. Minhas mãos estavam frias, e eu sentia uma tensão crescendo nos ombros.

Quando o relógio marcou meio-dia, decidi ir almoçar. Talvez ele já tivesse ido embora. Talvez fosse apenas uma visita rápida ao pai.

Mas quando voltei, meu coração quase saltou do peito.

Lá estava ele.

Sentado na minha mesa. Me esperando.

Manuel sorriu de lado ao me ver entrar. Era aquele sorriso cínico, presunçoso, o mesmo que eu já tinha visto tantas vezes quando ele queria me manipular.

— Até que enfim — ele disse, cruzando os braços. — A gente precisa conversar.

Meu rosto permaneceu inexpressivo. Nenhuma reação exagerada, nenhum traço de satisfação ou surpresa. Apenas a frieza de quem não queria estar ali, diante dele.

Olhei para Manuel sentado na minha cadeira, como se fosse dono do lugar, e mantive minha postura firme. Não ergui as sobrancelhas, não suspirei, não esbocei um sorriso — nada que pudesse dar a ele qualquer sinal de que sua presença me afetava.

— Você está no meu lugar — disse simplesmente, sem alterar o tom de voz.

Por dentro, eu sentia o incômodo crescer, mas me recusei a demonstrar qualquer fraqueza.

Manuel arqueou a sobrancelha, fingindo surpresa.

— Nossa, que recepção calorosa — ironizou. — Mas tudo bem, vou direto ao ponto. Ouvi dizer que Anderson terminou com você também.

Meus músculos ficaram tensos. Eu sabia onde aquilo ia dar.

— E desde quando a minha vida te interessa, Manuel? — retruquei, mantendo a calma.

Ele riu, cruzando os braços.

— Desde sempre. Principalmente agora. Eu não esqueço de quem me virou as costas.

Senti o tom de ameaça, mas resolvi não entrar no jogo dele.

— Eu preciso voltar ao trabalho. Não tenho tempo pra esse tipo de conversa.

Mas Manuel, é claro, não deixaria barato.

— Ah, Renato, não seja assim — disse, apoiando-se na mesa como se estivesse confortável ali. — Vamos admitir que o assunto Renato e Anderson é bem mais interessante do que qualquer planilha ou documento dessa contabilidade.

Respirei fundo, mantendo o controle.

— Eu estou aqui para trabalhar, Manuel. Não para discutir minha vida pessoal.

Ele sorriu de lado, mas seu olhar entregava uma pontada de irritação.

— Engraçado você falar assim... Parece que esqueceu que está aqui graças a mim. Se não fosse por mim, você nem teria conseguido esse emprego.

Minha paciência estava se esgotando. Olhei ao redor e percebi que algumas pessoas estavam nos observando, mas tentavam disfarçar. A tensão no ambiente era palpável.

Então, resolvi me manifestar.

— Sim, Manuel, graças a você eu entrei aqui, e sempre fui grato a você e ao seu pai. Mas a minha permanência aqui não se deve a isso. Ela se deve a mim. Ao meu esforço, à minha dedicação. Seu pai mesmo admite isso.

O sorriso de Manuel se desfez por um instante. Ele olhou ao redor e percebeu os olhares furtivos. Algumas pessoas rapidamente voltaram a fingir que estavam concentradas no trabalho.

Ele, no entanto, não deixaria aquilo barato.

— Isso é o que vamos ver... Agora no escritório do meu pai.

E sem esperar resposta, virou-se e saiu em disparada.

Fiquei sentado por alguns segundos, tentando assimilar o que estava acontecendo e o que me esperava lá dentro.

Ir ou não ir? Se ficasse, seria covardia. Se fosse, talvez fosse uma armadilha. Mas havia algo pior do que o medo agora: a necessidade de provar, até para mim mesmo, que não era mais aquele garoto que Manuel podia controlar.

Respirei fundo, ajustei o colarinho da camisa e segui seus passos. Cada batida do meu coração fazia meu corpo tremer.

Ao entrar na sala de Pedro, vi imediatamente a expressão carregada em seu rosto. Ele parecia preocupado, como se não quisesse estar ali. Mas pela pressão do filho mimado, ele se viu obrigado a escutar.

— Bom, o que está acontecendo? — Pedro perguntou, direto.

Manuel, cruzou os braços e lançou seu teatro:

— O que está acontecendo? Seu funcionário resolveu me enfrentar na frente de todo mundo.

Revirei os olhos, já esperando essa distorção dos fatos.

— Eu o enfrentei? — perguntei, sarcástico. — Vamos aos fatos, Pedro. Voltei do meu horário de almoço e encontrei Manuel sentado na minha mesa, me esperando. Ele começou a me provocar, perguntando sobre Anderson. Eu disse que não queria falar sobre o assunto. Foi quando ele insinuou que eu só estava aqui por causa dele. E eu apenas esclareci que não, que eu trabalho e que meu esforço também conta.

Pedro me olhou e nem hesitou:

— Renato, você não precisa se explicar. Sim, você está aqui por mérito seu.

Ele então se virou para Manuel e, em alto e bom tom, deixou claro:

— E você, não se envolva na minha empresa. Pelo menos isso ainda é meu. Ou estou enganado?

O choque no rosto de Manuel foi evidente, mas Pedro não deu espaço para que ele retrucasse.

— E outra coisa — continuou Pedro, com um olhar duro —, Anderson nunca fez parte dessa empresa. Portanto, esse assunto não tem nada para ser discutido aqui. Eu esperava que, no mínimo, você demonstrasse um pouco de ética profissional.

Manuel cerrou os dentes, visivelmente irritado. Mas a reação dele foi pior do que eu imaginava. Ele nos analisou por um instante e, de repente, soltou uma gargalhada alta e debochada.

— Tô sacando o que tá acontecendo… — disse ele, malicioso. — Você voltou a comer esse viadinho. Aliás, se é que um dia parou, né?

Senti meu sangue ferver, mas antes que pudesse reagir, testemunhei algo que jamais imaginei ver: Pedro perdendo completamente as estribeiras.

Ele se levantou com um movimento brusco que fez a cadeira cair no chão com um estrondo. Em três passos largos, estava cara a cara com Manuel, o dedo indicador tremendo de raiva apontado para o rosto do filho.

— CALA ESSA BOCA, MANUEL! - rugiu Pedro, com uma voz que ecoou pelas paredes do escritório. Seus olhos faiscavam com uma fúria que eu nunca tinha visto antes. - Você vai me ouvir e vai ouvir bem! Primeiro, você vai aprender a RESPEITAR! Respeitar esta empresa, respeitar este escritório e, principalmente, RESPEITAR O RENATO!

Manuel abriu a boca para protestar, mas Pedro não deu chance:

— NÃO ME INTERROMPA! - ele continuou, a voz cortante como uma lâmina. - Se você ousar insinuar qualquer coisa desse tipo novamente, juro por Deus que não me responsabilizo pelo que posso fazer. O que há entre mim e Renato é uma relação profissional exemplar, e fora daqui, somos amigos. E isso NÃO É DA SUA CONTA!

Manuel, atônito com a explosão do pai, ficou paralisado por um momento. Quando recuperou a fala, sua voz vinha carregada de desafio:

— Então vou ser claro como cristal, pai. Quero a demissão dele. Hoje. É simples: ou você fica com ele, ou fica comigo.

O silêncio que se seguiu foi cortante. Pedro respirou fundo, pegou a cadeira caída e se sentou com movimentos deliberadamente lentos, arrumando meticulosamente os papéis sobre a mesa. Quando finalmente ergueu o olhar, seu semblante era de uma calma aterradora.

— Escute bem, filho - disse ele, com cada palavra pesando como chumbo. - Eu não demito funcionários competentes por capricho familiar. Renato fica. Ponto final.

Manuel bateu o punho na mesa com força:

— ISSO É UM ABSURDO! Eu vim de Joinville justamente por isso! E você prefere um empregado qualquer ao seu próprio sangue?

Pedro soltou uma risada seca que não chegou aos olhos.

— 'Um empregado qualquer'? - repetiu, com sarcasmo cortante. - Renato entrega resultados em uma semana do que você em um ano. Você veio aqui para bancar o dono, mas esquece que aqui você é apenas o filho do dono. Nada mais.

O rosto de Manuel ficou vermelho como um pimentão:

— Você está mesmo defendendo esse oportunista como se...

— CHEGA! - Pedro interrompeu com um golpe de punho na mesa que fez todos os objetos pular. - Vamos falar de oportunismo, Manuel? Quem foi colocado em Joinville por minha causa? Quem sempre teve portas abertas por causa do meu nome? Você quer falar de mérito? - sua voz subiu ainda mais - ENTÃO OLHE PARA O SEU PRÓPRIO UMBIGO ANTES DE FALAR DOS OUTROS!

Manuel recuou como se tivesse levado um tapa. Seus lábios tremiam de raiva quando apontou para mim:

— Esse merdinha se aproveitou da nossa família! Morando na nossa propriedade, trabalhando aqui..

Pedro explodiu novamente:

— FALA MAIS ALTO, MANUEL! QUERO QUE TODOS OUÇAM A SUA VERGONHA! - sua voz trovejou. - Você quer mesmo que eu coloque na balança? Renato conquistou cada centavo que ganha aqui. E você? O que você conquistou SOZINHO na vida?

O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Manuel parecia um animal acuado, respirando pesadamente. Quando falou novamente, sua voz vinha carregada de veneno:

— Você vai se arrepender amargamente dessa escolha, pai.

Pedro levantou-se novamente, desta vez com uma calma assustadora:

— Já me arrependo de muitas coisas, filho. Mimar você é uma delas! Mas manter um profissional competente nunca será uma delas. - Virou-se para mim, sua voz recuperando a compostura profissional: - Renato, peço desculpas por essa cena lamentável. Você pode voltar ao trabalho.

Levantei-me sem olhar para Manuel e saí da sala, controlando ao máximo qualquer reação. Mas, antes que a porta se fechasse atrás de mim, ainda pude ouvir Pedro disparar, com um tom firme e reprovador:

— Não precisava disso, Manuel! Sua atitude foi totalmente desnecessária. Agora, já que você quer bancar o valentão, saiba que muita coisa vai mudar.

Segui pelo corredor, sentindo meu coração ainda acelerado. A tensão do confronto ainda reverberava em mim, mas mantive a postura, sem permitir que ninguém percebesse o turbilhão interno.

Ao chegar à minha sala, Luana percebeu de imediato meu estado. Sem precisar que eu dissesse nada, ela se apressou em me trazer um copo d’água.

— Respira — disse ela, suavemente, enquanto me entregava o copo.

Aceitei com um aceno discreto e tomei um pequeno gole, tentando dissipar o nervosismo que ainda tomava conta de mim.

— O que aconteceu lá dentro? — ela perguntou, sua expressão carregada de preocupação.

Engoli seco, sentindo o peso da situação ainda sobre mim, mas balancei a cabeça, evitando entrar em detalhes.

— Nada que já não fosse esperado — respondi, tentando soar tranquilo, embora soubesse que meu semblante provavelmente entregava o contrário.

Luana suspirou, parecendo entender que eu não queria prolongar o assunto.

— Se precisar de alguma coisa, estou por aqui.

Agradeci com um olhar antes de me sentar, encarando a tela do computador sem realmente vê-la. Tentei me concentrar no trabalho, mas as palavras de Pedro e a atitude de Manuel continuavam ressoando na minha mente.

Enquanto tentava me recompor, ouvi passos firmes e apressados ecoando pelo corredor. Olhei de relance pela porta e vi Manuel saindo disparado da sala de Pedro, completamente indignado. Dessa vez, ele não lançou olhares desafiadores para ninguém, não fez piada, não tentou bancar o superior. Apenas passou reto, o rosto carregado de fúria e frustração, como se estivesse digerindo a humilhação que acabara de sofrer.

Observei enquanto ele atravessava o corredor sem olhar para os lados, sem sequer notar que alguns funcionários arriscavam olhares discretos em sua direção.

Respirei fundo e desviei o olhar, voltando minha atenção para a tela do computador. O que quer que tivesse acontecido lá dentro, Pedro tinha sido claro: muita coisa iria mudar. E, pela forma como Manuel saiu dali, essa mudança já havia começado.

Poucos instantes depois, o telefone tocou. Luana atendeu e, após ouvir a voz do outro lado da linha, virou-se para mim:

— Pedro quer que você vá até a sala dele.

O ar na sala estava pesado quando entrei. Pedro já me esperava atrás de sua grande mesa de trabalho, os dedos entrelaçados sobre documentos espalhados. Seus olhos cansados iluminaram-se brevemente ao me ver, revelando a batalha silenciosa que travava consigo mesmo.

— Renato... — começou ele, a voz mais grave que o habitual. — Precisamos conversar.

Sentei-me à sua frente, sentindo o peso daquela introdução. Pedro esfregou os olhos antes de continuar:

— Primeiro, quero que saiba que eu não queria fazer isso. — Sua mão fechou-se involuntariamente. — Mas há coisas... situações familiares que me forçam a fazer coisas que detesto.

O silêncio que se seguiu foi cortante. Eu podia quase ouvir os ponteiros do relógio de parede marcando cada segundo tenso.

— Manuel exigiu sua saída da casa. — Pedro cuspiu as palavras como se lhe queimassem a boca. — E mesmo contra, tive que ceder nesse ponto.

Meu estômago embrulhou-se, mas mantive a expressão neutra. Pedro continuou, sua voz ganhando intensidade:

— Não pense por um segundo que esta foi uma decisão fácil. — Seus olhos queimavam com uma mistura de raiva e frustração. — Mas entre perder um profissional do seu calibre ou ceder nessa questão imobiliária... a escolha, foi óbvia.

Ele inclinou-se para frente, seus antebraços firmes sobre a mesa.

— Quero que entenda algo, Renato: esta empresa é minha vida. E você faz parte disso. Se dependesse apenas de mim... — Mas há dinâmicas familiares que nem mesmo eu posso ignorar completamente.

Pedro respirou fundo antes de finalizar, sua voz agora mais suave:

— Nossos happy hours, nossas conversas depois do expediente, tudo isso que construímos - não deixe que essa situação acabe com isso. Você é mais que um funcionário para mim. É um amigo! Espero que, com tempo, possa perdoar essa atitude necessária.

Seus olhos imploravam por compreensão, revelando o custo emocional que essa decisão teve para ele.

Eu já estava chateado, e ele sabia disso. Mas, no fundo, Pedro estava certo. Aquela casa pertencia a ele, mas, gostando ou não, também pertencia a Manuel.

— Fique tranquilo, Pedro. Não vou mudar nada entre a gente — garanti. — Só preciso de um tempo para sair de lá.

Pedro assentiu.

— Não se apresse. Quando achar que deve sair, saia.

Fiquei parado por um instante, esperando que ele dissesse algo mais. Mas, ao invés disso, ele apenas me olhou e falou meu nome:

— Renato.

Era um tom carregado de significados, mas sem espaço para mais conversa. Entendi o recado e deixei a sala.

Voltei para minha mesa e terminei tudo que estava pendente. Mas, por dentro, uma nova onda de raiva crescia dentro de mim. Eu odiava Manuel. Odiava a forma suja de como ele sempre conseguia o que queria.

Peguei um Uber para o mercado e, no caminho, mandei uma mensagem para meu irmão:

"A gente precisa conversar. Venha hoje à noite na minha casa. E, por favor, leve refrigerante. O jantar eu pago."

A resposta veio rápido:

"O que houve? Posso levar a Letícia? Que horas?"

Depois de confirmar que Letícia poderia ir e combinar o horário, fui direto às compras. Resolvi preparar um dos pratos favoritos do meu irmão: arroz, feijão, bife e batata frita com queijo parmesão por cima.

Chegando em casa, não havia tempo para enrolação. Coloquei o feijão para cozinhar e deixei a panela de arroz trabalhando enquanto os bifes, já temperados, descansavam para pegar mais sabor. As batatas e os bifes seriam fritos na hora que eles chegassem — nada de batata murcha ou bife passado do ponto.

Com o feijão temperado e o arroz pronto, fui tomar banho e me preparar para receber meu irmão e minha cunhada.

Quando eles chegaram, os recebi no portão e os convidei a entrar. Enquanto se acomodavam na mesa, comecei a fritar as batatas e os bifes.

Mas meu irmão, ansioso e curioso como sempre, não conseguiu esperar:

— Renato, por que me chamou aqui? Tá rolando alguma coisa que eu não estou sabendo?

— Está, sim — respondi, sem rodeios. — Mas prefiro que conversemos enquanto jantamos, pode ser?

Ele concordou, abriu o refrigerante e nos serviu. Letícia, sempre prestativa, me ajudou a fritar os bifes enquanto eu cuidava das batatas.

Quando tudo estava pronto e nos sentamos à mesa, depois de nos servirmos, fui direto ao ponto:

— Ricardo... Você sabia que o Manuel está em Volta Redonda?

Ele franziu a testa, claramente surpreso.

— Não fazia ideia.

Continuei:

— Ele apareceu hoje na contabilidade e pediu minha cabeça para o Pedro.

— Mentira que ele fez isso! — Letícia exclamou, indignada.

— Pois é... Na verdade, Pedro já havia me falado sobre isso.

Ricardo permaneceu em silêncio, balançando a cabeça negativamente.

— Ele quer me tirar da empresa e também daqui, onde moro. Pedro conseguiu me manter no trabalho, mas cedeu na questão da casa.

— Filho da puta! — meu irmão xingou, revoltado. — Eu não conhecia esse lado do Manuel.

— Nem eu... Mas agora sei exatamente com quem estou lidando.

Eles continuaram atentos enquanto eu falava. Então, respirei fundo e fiz meu pedido:

— Te chamei aqui porque quero que você desconvide o Manuel como padrinho do seu casamento.

Ricardo trocou um olhar com Letícia, que concordou sem hesitar.

— Por mim, ele seria desconvidado do casamento inteiro. Disse Letícia.

— Não, só tirá-lo da lista de padrinhos já é suficiente. Acredite em mim.

Ele assentiu, mas logo perguntou:

— E o Anderson? Ele continua na lista?

Parei por um instante, respirando fundo antes de responder.

— O Anderson... — dei um meio sorriso sem humor. — Pode deixar ele na lista. Ele nunca me fez nada, ao contrário do Manuel.

Ricardo cruzou os braços, me analisando.

— Você quer que eu tire só o Manuel, então?

— Sim. Eu sei que é chato fazer um pedido desses, ainda mais com o casamento tão próximo, mas não tem como eu fingir que nada aconteceu. Manuel vai sentir o golpe ao perceber que foi o único desconvidado.

Ele trocou um olhar com Letícia, que assentiu.

— Ok, então. Vou falar com ele.<

Sua imaginação também tem espaço aqui.

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