Taça de Vinho

Por: ro-dio-1 10/07/2026 26154 leituras
Capa do conto
Tudo começou no Grindr, um lampejo na tela, uma troca de olhares digitais que carregava mais desejo do que prudência. Ele dizia ter um relacionamento aberto, a frase soou como senha para algo que eu ainda não sabia nomear.
A foto veio logo depois: loiro, traços marcantes, olhar de quem provoca sem precisar tentar. O tipo que não entra em um cômodo, ocupa o ar dele.

A conversa cresceu. Rimos, trocamos confissões, brincamos com o perigo. Quando mandou a imagem da taça de vinho, o convite já estava feito — e aceito.
Morávamos no mesmo condomínio. O destino, às vezes, é um roteirista debochado.

Subi. O vinho me esperava sobre a mesa, dois copos já servidos. Ele me recebeu com um sorriso pequeno, desses que dizem: “eu já sabia que você viria.”
Falamos pouco. As palavras se dissolviam no ar, lentas, quase desnecessárias. O olhar dele pesava e convidava.

O primeiro toque foi um susto bom. O corpo dele era quente, o perfume tinha gosto de lembrança, e o beijo… o beijo parecia algo que eu já conhecia de outra vida.
Mas não era um beijo calmo — era fome. Parecia que estávamos há muito tempo esperando por aquele instante. Queríamos nos devorar, como se o desejo fosse uma língua comum, urgente, impossível de conter.
Havia entrega e controle, calma e vertigem. Cada toque era uma tradução, um jeito de dizer sem falar.

Senti o gosto da pele dele e, por um instante, tudo pareceu fazer sentido. Era um sabor que misturava novidade e reconhecimento — como se o destino tivesse sussurrado esse encontro antes mesmo de acontecer.
Ele me dominava com um toque preciso, desses que não pedem permissão.
E eu o deixava.

A intensidade cresceu até o ar ficar espesso, quente, vibrando entre nós. O corpo reagia antes do pensamento. O suor começou a surgir como testemunha do que ardia ali.
Ele se aproximava mais, e cada gesto era uma busca — o toque dele seguia cada linha, cada curva, como quem quer conhecer o outro por completo. Parecia provar o momento, sentir o gosto do próprio instante.

Ele já me tocava como quem decifra um idioma antigo.
Parecia conhecer cada reação minha, cada respiração entrecortada. Não havia hesitação — ele sabia exatamente o que fazia, e isso me desarmava.
O domínio estava em tudo: no toque firme, no ritmo da pele, no sabor que se misturava entre nós.
Era uma força tranquila, quase natural, e eu deixei acontecer.
Não havia resistência possível — apenas a certeza de estar entregue, domado por algo que não se explica, apenas se sente.

O momento foi de uma intensidade que me atravessou inteiro.
Entre o desconforto e o êxtase, havia algo novo — um ponto em que a dor se tornava prazer, e o prazer se tornava entrega.
Meu corpo respondeu antes que eu pudesse dizer qualquer palavra, e ele entendeu.
O ritmo entre nós era um diálogo silencioso, feito de respiração e instinto.
Cada gesto dele parecia buscar um lugar que não era só físico — era como se quisesse chegar a algum território escondido em mim.
O tempo perdeu sentido. Tudo se dissolveu em calor, som, respiração.
Por alguns instantes, foi como tocar o paraíso e perceber que ele cabia ali, entre o que se sentia e o que se permitia sentir.

O tempo perdeu qualquer medida. Quando o ritmo entre nós encontrou o mesmo compasso, tudo se fundiu num instante só — respiração, calor, o olhar fixo, um riso breve que nasceu de pura satisfação.
Não era só desejo; era um reconhecimento silencioso, como se cada gesto dissesse “agora estamos inteiros”.

Depois, o banho trouxe de volta a gravidade do mundo. A água escorria, lavando o excesso, mas deixando a lembrança grudada na pele.
Vesti-me devagar, sem pressa, ainda envolto no cheiro dele e na calma que vem depois de uma tempestade.

Ele me acompanhou até a porta. Nenhuma promessa, nenhum adeus dramático — só um olhar demorado, desses que dizem: a história não acabou, apenas respirou.

No elevador, senti o corpo leve e o pensamento suspenso.
Lá fora, o ar da madrugada tinha gosto de vinho e destino.
E, no fundo, uma certeza perigosa: aquilo não terminaria ali.

Sua imaginação também tem espaço aqui.

Escreva o seu conto

🕐 Últimos contos adicionados